Mesa
Quem foi Mesa, rei de Moabe?
Ficha do personagem
Séc. IX a.C., Moabe e Israel
Aparece em
Relações
- inimigo de Jorão, rei de Israel
- inimigo de Josafá
- vassalo de Acabe
- contemporâneo de Eliseu
Resposta curta
Mesa foi rei de Moabe no século IX a.C. e é um dos poucos personagens do Antigo Testamento também conhecido por uma inscrição própria, fora da Bíblia. Segundo , era criador de ovelhas e pagava a Israel um tributo enorme em cordeiros e lã. Depois da morte de Acabe, deixou de pagar. O rei Jorão de Israel convocou Josafá, de Judá, e o rei de Edom, e os três exércitos atravessaram o deserto sem água até que Eliseu anunciou socorro. A campanha devastou Moabe, mas, cercado, Mesa ofereceu em sacrifício o filho mais velho sobre a muralha, e os invasores se retiraram. O sentido da “grande indignação” de é debatido há séculos.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteMesa entrega o próprio filho primogênito, herdeiro do trono, num gesto de desespero para salvar sua cidade, e o texto bíblico o registra sem aprovação. O Novo Testamento apresenta o movimento contrário: em vez de um pai que sacrifica o filho para escapar do perigo, Deus entrega o seu Filho em favor de outros (; ). A comparação é de contraste, não de paralelo: o sacrifício de Mesa nasce do medo e da derrota militar, enquanto o de Cristo é apresentado como dom voluntário, por amor, e não por pressão de um inimigo ().
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Mesa era o rei de Moabe, um país vizinho de Israel. Ele criava ovelhas e pagava a Israel um grande tributo, mas parou de pagar quando o rei Acabe morreu. Os reis de Israel, Judá e Edom foram atacá-lo; o profeta Eliseu anunciou água para o exército sedento e a vitória. Quando a cidade estava cercada, Mesa ofereceu seu filho mais velho em sacrifício na muralha, e os exércitos voltaram para casa. O nome de Mesa também aparece numa pedra antiga, encontrada em 1868, escrita por ele mesmo.
O mundo dele
O reino de Moabe ocupava o planalto a leste do mar Morto, entre os vales do Arnom e do Zerede, e mantinha com Israel uma vizinhança difícil desde os dias de Balaque (–24). Segundo , Mesa era “criador de ovelhas” (o termo hebraico noqed designa quem cria gado miúdo e aparece também em ) e entregava ao rei de Israel cem mil cordeiros e a lã de cem mil carneiros. O texto não diz se o pagamento era anual; para a narrativa importa que Moabe era um estado vassalo, e que e 3:5 situam a rebelião depois da morte de Acabe.
Fora da Bíblia, Mesa é conhecido pela estela que leva seu nome, um bloco de basalto negro com cerca de trinta e quatro linhas em escrita moabita, encontrado em 1868 em Dibom (a atual Dhiban, na Jordânia) e hoje no Museu do Louvre. Nela, Mesa se apresenta como rei de Moabe, natural de Dibom, atribui a opressão sofrida à ira do deus Camos contra a sua terra e narra a retomada de cidades que Onri e seu sucessor haviam tomado. Ele afirma ter reconstruído fortalezas, aberto cisternas e erguido um santuário para Camos em Cariote, obras de um rei que se apresentava como protegido do seu deus. A inscrição menciona ainda o nome do Senhor (YHWH), um dos registros extrabíblicos mais antigos desse nome.
O texto bíblico e a estela concordam no essencial: Israel dominou Moabe, e Mesa se libertou. Divergem em cronologia e ênfase. A estela fala de Onri e de “seu filho” como dominadores, enquanto coloca a revolta depois da morte de Acabe. As tentativas de harmonizar os dois relatos dependem de como se entende a palavra “filho”, que em semítico pode designar descendente, e de quanto tempo se atribui ao domínio israelita. Não há consenso entre os especialistas, e a data exata do reinado de Mesa, em torno de meados do século IX a.C., também varia conforme a cronologia adotada para os reis de Israel e de Judá.
A história
A campanha de começa com Jorão, filho de Acabe, convocando Josafá, rei de Judá, para atacar Moabe. Josafá responde com uma fórmula que já usara diante de Acabe: “Eu sou como tu, o meu povo como o teu povo, os meus cavalos como os teus” (; compare ). O rei de Edom, então subordinado a Judá, junta-se à expedição. Os três exércitos contornam o mar Morto pelo deserto de Edom e, depois de sete dias de marcha, não há água para homens nem animais (3:9). Jorão interpreta a falta como sinal de que o Senhor os entregara a Moabe; Josafá pergunta se não há ali um profeta do Senhor, e Eliseu é chamado. O profeta só responde por consideração a Josafá e anuncia que os vales se encheriam de água sem vento e sem chuva (3:16-18). Na manhã seguinte a água chega, e os moabitas, vendo-a avermelhada ao sol, concluem que os reis se haviam destruído entre si (3:22-23).
O ataque moabita se converte em derrota. Os israelitas arrasam cidades, cobrem os campos bons de pedras, tapam as fontes e cortam as árvores frutíferas (3:25), prática que parece contrastar com , sobre poupar árvores frutíferas num cerco. O texto não comenta a tensão nem a resolve. Só Quir-Haresete resiste, e Mesa tenta romper o cerco com setecentos espadachins rumo ao lado de Edom, sem sucesso (3:26), o que deixa a cidade e o rei sem saída.
Vem então o versículo mais difícil: Mesa “tomou seu filho primogênito, que deveria reinar em seu lugar, e o ofereceu em holocausto sobre o muro; e houve grande indignação contra Israel, de modo que se retiraram dele e voltaram para a sua terra” (3:27). O hebraico não diz de quem é a indignação (qetsef) nem de onde ela vem. As leituras mais discutidas são: ira de Camos, que teria agido em favor de Moabe; ira do Senhor contra Israel, por ter levado o inimigo a esse extremo; ou horror dos próprios israelitas e aliados diante do ato, que os faria desistir. A Bíblia não afirma que Camos interveio nem que o sacrifício foi eficaz em si; registra apenas o fim do cerco. Convém lembrar que o tributo e a revolta aparecem aqui do ponto de vista israelita e que a leitura moabita seria outra. A estela, por sua vez, não menciona a campanha de Jorão, silêncio que prova pouco, já que inscrições de glória real raramente registram dificuldades.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Camos, deus de Moabe, derrotou o Deus de Israel em 2 Reis 3:27.
O texto não afirma isso. Diz apenas que houve “grande indignação contra Israel” e que os invasores se retiraram, sem dizer de quem era a indignação. A narrativa já mostrou antes que o Senhor deu a água e a vitória inicial (3:17-18), de modo que a retirada final não é apresentada como derrota de Deus.
Dizem que:A pedra de Mesa confirma tudo o que 2 Reis 3 conta.
A estela confirma a existência de Mesa, o domínio israelita sobre Moabe e a libertação moabita, mas não menciona Jorão, Josafá, Eliseu nem o sacrifício do filho. Há ainda diferenças de cronologia entre as duas fontes, e o que se afirma além disso é hipótese de especialistas.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
Vários comentaristas clássicos discutem a quem pertence a “indignação”. Há leituras que a atribuem a uma ira divina que recaiu sobre Israel, por ter levado Mesa ao desespero e por atos de devastação durante o cerco; outras a entendem como horror humano diante do sacrifício. O texto hebraico permite as duas.
Protestante
Comentaristas como Keil e Delitzsch, no século XIX, tendem a ler a indignação como ira humana e divina que impediu a conclusão da campanha, sem admitir poder real do deus Camos. A retirada é vista como a limitação das próprias conquistas de Israel, não como derrota de Deus.
Crítica histórica
Pesquisadores como Cogan e Tadmor tratam o relato como tradição profética sobre uma campanha real, em parte divergente da estela, e consideram possível que a campanha tenha deixado Moabe enfraquecido sem lhe tirar a independência, o que explicaria o silêncio posterior da Bíblia sobre uma conquista efetiva.
Católica
A tradição católica, seguindo a Vulgata, que traduz a expressão por “grande indignação em Israel”, costuma ressaltar que o texto condena o sacrifício humano pelo conjunto da lei bíblica (; ), embora o próprio versículo não traga comentário moral explícito.
O que fazer com isso
Mesa lembra que a história bíblica foi escrita no meio de povos vizinhos, cada um com sua versão dos mesmos fatos. Ler a estela ao lado de ensina a ler com cuidado: cada texto fala de um ponto de vista e não pretende dizer tudo. O sacrifício do filho mostra, sem enfeite, até onde o desespero e a religião podem levar um rei, retrato que a Bíblia registra sem aprovar e sem explicar por inteiro.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Mordechai Cogan e Hayim Tadmor. II Kings (Anchor Bible), 1988.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (1 e 2 Reis), 1872.
- J. Andrew Dearman (org.). Studies in the Mesha Inscription and Moab, 1989.
- Kenneth A. Kitchen. On the Reliability of the Old Testament, 2003.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Onde está a pedra de Mesa hoje?
Fica no Museu do Louvre, em Paris. Foi encontrada em Dibom, na atual Jordânia, em 1868. A pedra original foi quebrada pelos moradores locais, mas havia sido copiada e fotografada antes, o que permitiu reconstituir grande parte do texto.
Mesa realmente sacrificou o próprio filho?
É o que afirma, e nenhuma outra fonte confirma ou contradiz o fato. A estela de Mesa não o menciona. O texto bíblico informa apenas que foi um holocausto oferecido sobre o muro, diante dos invasores.
Qual era a religião de Mesa?
Moabe adorava principalmente Camos, e a estela atribui a Camos tanto a opressão quanto a libertação do país. A inscrição menciona também o nome do Senhor (YHWH), mas isso não significa que Mesa o adorasse; o contexto trata de objetos tomados de uma cidade israelita.
Mesa foi derrotado ou venceu?
As fontes respondem de forma diferente. Em , a campanha aliada devasta Moabe, mas se encerra sem a queda de Mesa. A estela celebra a libertação do domínio israelita. É possível que cada texto conte a parte que interessa a seu autor.