Um salmo extra depois do 150: o Salmo 151 no Codex Alexandrinus
Por que o Codex Alexandrinus tem um Salmo 151 depois do Salmo 150, que encerra o saltério hebraico?
Resposta curta
O Codex Alexandrinus, manuscrito da Bíblia grega completa do século V, inclui um Salmo 151 depois do Salmo 150 canônico, atribuído a Davi sobre sua vitória contra Golias e sua unção como pastor tornado rei, texto ausente do Texto Massorético hebraico usado pelas tradições judaica e protestante. encerra o saltério hebraico com um chamado final e vibrante ao louvor de Deus com todo tipo de instrumento musical. A presença do Salmo 151 em Alexandrinus mostra que a fronteira exata do cânone dos Salmos não era uniformemente fechada em todas as tradições de transmissão bíblica da Antiguidade, mesmo em códices tratados e produzidos como bíblias gregas cristãs completas e de referência.
O que diz Codex Alexandrinus
Codex Alexandrinus, seção dos Salmos, texto apresentado após o Salmo 150 como composição 'fora do número'
O livro dos Salmos, no Texto Massorético hebraico que fundamenta as Bíblias judaica e protestante, contém exatamente 150 composições poéticas, encerradas pelo Salmo 150, um chamado breve e intenso ao louvor de Deus com trombeta, saltério, harpa, tamborim, dança, instrumentos de cordas, flauta e címbalos — reunindo, num clímax final, praticamente todo o repertório instrumental do templo israelita antigo. A tradição da Septuaginta grega, porém, transmitiu um salmo adicional, hoje numerado como Salmo 151, apresentado como composição de Davi fora da contagem canônica dos 150 salmos hebraicos, narrando em primeira pessoa sua escolha divina como o mais jovem entre os filhos de Jessé e sua vitória sobre o gigante filisteu, numa clara referência ao episódio de Davi e Golias narrado em . O Codex Alexandrinus, um dos quatro grandes manuscritos unciais da Bíblia grega, copiado no século V e hoje preservado na Biblioteca Britânica em Londres, inclui esse Salmo 151 em sua seção de Salmos, geralmente apresentado com uma nota indicando tratar-se de composição 'fora do número' dos cento e cinquenta salmos canônicos, uma prática editorial que sinaliza consciência da diferença de status entre esse texto e o restante do saltério. Fragmentos hebraicos de composições relacionadas ao Salmo 151 foram posteriormente identificados entre os manuscritos do Mar Morto, em Qumran, mostrando que ao menos parte da tradição por trás desse salmo adicional tinha, de fato, raízes semíticas anteriores à sua tradução e transmissão em grego pela Septuaginta. O próprio Codex Alexandrinus chegou à Inglaterra em 1627, como presente do patriarca ortodoxo Cirilo Lucaris de Constantinopla ao rei Carlos I, e hoje é preservado na Biblioteca Britânica em Londres, permanecendo até hoje um dos testemunhos manuscritos mais completos, mais bem preservados e mais cuidadosamente estudados de toda a longa e complexa tradição textual da própria Bíblia grega antiga conhecida.
O que diz a Bíblia
Aleluia! Louvai a Deus em seu santuário; louvai-o no firmamento de seu poder. Louvai-o por suas proezas; louvai-o conforme a imensidão de sua grandeza. Louvai-o com com de trombeta; louvai-o com lira e harpa. Louvai-o com tamborim e flauta; louvai-o com instrumentos de cordas e de sopro. Louvai-o com címbalos bem sonoros; louvai-o com címbalos de sons de alegria. Tudo quanto tem fôlego, louve ao SENHOR! Aleluia!
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Ambos os salmos, 150 e 151, pertencem à mesma tradição literária de poesia litúrgica israelita antiga
- Ambos celebram temas de louvor e da relação entre Deus e seu povo escolhido
- O Salmo 151 reconhece implicitamente a existência prévia da coleção fechada de 150 salmos, apresentando-se como adição posterior a ela
Onde divergem
- O Salmo 150 pertence ao cânone hebraico reconhecido por todas as tradições; o Salmo 151 é exclusivo da tradição da Septuaginta grega e da Ortodoxia
- O Salmo 150 é um hino coletivo de louvor instrumental; o Salmo 151 é uma narrativa autobiográfica atribuída a Davi sobre sua própria vocação e vitória
- O Texto Massorético hebraico não contém o Salmo 151 em nenhuma forma; fragmentos de Qumran preservam apenas paralelos parciais, não o texto idêntico ao grego
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- O relato em primeira pessoa de Davi sobre sua escolha como o mais jovem entre os filhos de Jessé
- A referência explícita à vitória sobre o gigante filisteu narrada dentro do próprio salmo, numa perspectiva poética autobiográfica
- A marcação editorial de 'fora do número' usada por manuscritos como o Codex Alexandrinus para distinguir esse salmo do conjunto canônico fechado dos 150
Em palavras simples
A Bíblia hebraica e a Bíblia protestante têm exatamente 150 salmos, terminando com o Salmo 150, um convite animado para louvar Deus com música. Mas o Codex Alexandrinus, uma cópia grega completa e antiga da Bíblia, tem um salmo extra depois desse, o Salmo 151, que conta a história de Davi sendo escolhido por Deus e vencendo Golias. Pedaços em hebraico parecidos com esse salmo também foram achados no Mar Morto, mostrando que a ideia dele já existia antes de ser traduzida para o grego, mesmo sem entrar na lista final e oficial dos 150 salmos.
Aprofundamento
A presença do Salmo 151 no Codex Alexandrinus e em outros manuscritos da tradição da Septuaginta ilustra bem como a noção de 'cânone fechado' dos Salmos não era uniforme entre as diferentes comunidades religiosas da Antiguidade que transmitiam e liam esses textos. Enquanto o Texto Massorético hebraico, base do Tanakh judaico e do Antigo Testamento protestante, fecha o saltério exatamente em 150 composições, a tradição da Septuaginta grega, amplamente usada pelas comunidades judaicas de língua grega da diáspora e depois pela igreja cristã antiga, preservou esse salmo adicional como apêndice do livro, tratado com um status intermediário: nem plenamente numerado entre os 150 canônicos, nem descartado como espúrio. James A. Sanders, estudioso que trabalhou extensivamente com os manuscritos bíblicos de Qumran, observa que a descoberta de fragmentos hebraicos com paralelos ao Salmo 151 no chamado Grande Rolo dos Salmos de Qumran (11QPsa) demonstrou que a composição, ou ao menos uma tradição poética muito próxima dela, já circulava em hebraico antes da tradução grega, refutando teorias anteriores que a consideravam pura invenção helenística tardia sem qualquer base semítica real. Esse achado de Qumran foi particularmente significativo porque mostrou que a diferença entre o cânone hebraico posterior de 150 salmos e a tradição mais ampla da Septuaginta grega não refletia necessariamente uma invenção grega tardia, mas possivelmente um processo de seleção e fechamento canônico que ocorreu, entre comunidades judaicas diferentes, de formas e em momentos distintos, com alguns grupos preservando e transmitindo material poético adicional que outros grupos, mais tarde majoritários, excluíram do conjunto final considerado sagrado e definitivamente encerrado. O Codex Alexandrinus, ao preservar esse Salmo 151 marcado como material 'fora do número', testemunha essa fronteira canônica ainda um tanto fluida, mesmo numa época, o século V d.C., em que o cânone bíblico cristão já estava, na maior parte de seu conteúdo, bastante estabilizado e amplamente reconhecido entre as principais igrejas do Mediterrâneo antigo. Sanders observa ainda que esse caso específico ilustra bem como a arqueologia de manuscritos pode revisar suposições acadêmicas anteriores: antes da descoberta dos rolos de Qumran, muitos estudiosos consideravam o Salmo 151 uma composição puramente grega e tardia, sem qualquer relação genuína com tradições poéticas hebraicas mais antigas do próprio território judaico do período do segundo templo, uma suposição que os manuscritos de Qumran vieram, décadas depois de sua descoberta inicial, a corrigir de forma bastante significativa e definitiva para a maioria dos especialistas atuais da área.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O Salmo 151 é uma invenção tardia sem qualquer base histórica real.
Fragmentos hebraicos com paralelos próximos ao Salmo 151 foram encontrados entre os manuscritos do Mar Morto, mostrando que a composição, ou tradição poética relacionada a ela, já circulava em hebraico antes de sua tradução grega.
Dizem que:Todas as Bíblias cristãs antigas incluíam o Salmo 151 como parte plena do cânone.
O Codex Alexandrinus e outros manuscritos da Septuaginta geralmente o marcam como texto 'fora do número' dos 150 salmos canônicos, sinalizando status diferenciado, não plena equivalência ao restante do saltério.
Como diferentes tradições leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaísmo rabínico e Protestantismo
Seguem o Texto Massorético hebraico, que fecha o saltério em exatamente 150 salmos, sem incluir o Salmo 151 como parte do cânone bíblico reconhecido.
Ortodoxia oriental (tradição da Septuaginta)
Preserva o Salmo 151 como texto tradicional associado a Davi, geralmente lido em contextos litúrgicos específicos, embora com status um pouco distinto do restante do saltério canônico.
O que fazer com isso
Esse caso mostra ao leitor que a formação do cânone bíblico, mesmo do livro dos Salmos, foi um processo histórico gradual e não perfeitamente uniforme entre todas as comunidades religiosas antigas, o que ajuda a entender por que católicos, ortodoxos, protestantes e judeus têm, até hoje, coleções ligeiramente diferentes de escritos sagrados reconhecidos, apesar do enorme núcleo comum compartilhado por todas essas tradições bíblicas.
Fontes consultadas2 obras
- James A. Sanders. The Psalms Scroll of Qumran Cave 11 (11QPsa), 1965.
- T. C. Skeat. The Codex Sinaiticus, the Codex Vaticanus and Constantine (artigo acadêmico), 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Salmo 151 está na Bíblia protestante ou judaica?
Não; o Texto Massorético hebraico, base dessas tradições, encerra o saltério no Salmo 150, sem incluir esse salmo adicional.
O Salmo 151 tem alguma base hebraica antiga?
Sim, fragmentos hebraicos com paralelos próximos foram encontrados entre os manuscritos do Mar Morto em Qumran, sugerindo uma tradição poética anterior à sua versão grega.
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