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O Mar Domado: Salmo 89 e Marduk

O Salmo 89 e o mito babilônico de Marduk contra Tiamat contam a mesma história do mar?

Resposta curta

celebra o Senhor como quem doma a arrogância do mar e esmaga Raabe, monstro do caos citado na poesia hebraica. Essa imagem participa de um padrão amplo no Oriente Próximo: um deus supremo demonstra poder ao derrotar as águas primordiais. Na Babilônia, esse padrão aparece na Tábua IV do Enuma Elish, quando Marduk enfrenta Tiamat, mata-a em combate e usa seu corpo dividido para formar céu e terra.

Comparar os dois textos revela mais diferença do que cópia. O salmista não narra uma batalha nem constrói o universo do cadáver de um deus vencido; descreve o domínio de Yahweh como já certo, sem rival disputando o trono. Ainda assim, o vocabulário compartilhado — mar revolto, braço poderoso, esmagamento do monstro — mostra Israel falando de seu Deus com linguagem de combate cósmico conhecida na região.

O que diz Enuma Elish

Enuma Elish, Tábua IV

é um salmo real de lamento, tradicionalmente atribuído a Etã, o ezraíta, conforme o título do salmo, e integra o Livro III do Saltério, um grupo de salmos frequentemente ligado ao trauma da queda da monarquia davídica. Os versículos 9-10 fazem parte de um hino de abertura que louva a soberania cósmica de Yahweh antes de lembrar o pacto com Davi e, mais adiante no mesmo salmo, lamentar sua aparente ruptura, o que sugere um pano de fundo de crise nacional, possivelmente o exílio babilônico ou os anos que o cercam. Raabe, citado no verso 10, é um nome hebraico para um monstro marinho do caos, também mencionado em , , e , e funciona na poesia bíblica como sinônimo de Leviatã, além de servir, em outras passagens, como apelido figurado para o Egito.

O Enuma Elish é o principal poema de criação da Babilônia, composto provavelmente entre o fim do período cassita e o reinado de Nabucodonosor I, por volta do século XII a.C., embora as cópias mais completas que chegaram até nós venham da biblioteca de Assurbanípal, em Nínive, do século VII a.C., hoje preservadas no Museu Britânico. O poema narra a ascensão de Marduk, deus padroeiro da cidade de Babilônia, à chefia do panteão mesopotâmico depois de vencer em combate Tiamat, a deusa do mar salgado primordial, e era recitado ritualmente durante o festival de Ano Novo babilônico, o Akitu, como parte da legitimação religiosa do próprio império. A comparação entre os dois textos integra um campo de estudo conhecido como Chaoskampf, o padrão de combate divino contra o mar ou um monstro marinho, atestado também no mito ugarítico de Baal contra Yam, geográfica e linguisticamente mais próximo de Israel do que a Babilônia. Estudiosos como Hermann Gunkel, já no fim do século XIX, foram pioneiros ao associar sistematicamente esse vocabulário hebraico ao repertório mitológico mesopotâmico, abrindo um debate que segue ativo entre especialistas em literatura comparada do Oriente Próximo antigo.

Ler mais sobre Enuma Elish

O que diz a Bíblia

Tu dominas a arrogância do mar; quando suas ondas se levantam, tu as aquietas. Quebraste a Raabe como que ferida de morte; com teu braço forte espalhaste os teus inimigos.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Ambos os textos usam o motivo do combate divino contra o mar/caos como expressão de realeza cósmica (Chaoskampf).
  • Em ambos, a vitória sobre o adversário marinho está associada à consolidação da realeza: Marduk se torna rei dos deuses após vencer Tiamat, e Salmos 89 une o louvor à soberania de Yahweh sobre o mar (v. 9-10) à instituição da aliança com o rei Davi (v. 19-37).
  • Ambos empregam a imagem do braço forte/poderoso da divindade como símbolo do poder usado contra o inimigo caótico.
  • Ambos descrevem o mar/monstro marinho com termos de arrogância ou rebeldia que precisam ser subjugados por decreto ou força divina.

Onde divergem

  • O Enuma Elish narra uma batalha detalhada, com armas específicas (rede, ventos, flecha) e ferimento mortal descrito passo a passo; Salmos 89:9-10 apenas declara o domínio já consumado, sem cena de combate.
  • Em Salmos 89 não há dismembramento do corpo do monstro para formar o céu e a terra, elemento central do Enuma Elish; Yahweh já é criador anterior e independente do confronto (v. 11-12).
  • O Enuma Elish pressupõe um panteão e uma assembleia de deuses que concede poder a Marduk; Salmos 89 não apresenta nenhum rival divino real, apenas um monstro subjugado, refletindo o monoteísmo israelita.
  • Tiamat é uma deusa com genealogia própria (mãe das águas salgadas primordiais, consorte de Apsu); Raabe, no texto bíblico, não recebe genealogia nem culto, sendo apenas uma figura poética de derrota.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • A cena da assembleia dos deuses concedendo cetro, trono e armas a Marduk antes da batalha.
  • O uso de uma rede e de sete ventos amarrados ao carro de tempestade de Marduk como armas específicas contra Tiamat.
  • A flecha que atravessa o ventre de Tiamat e parte seu coração, narrada em detalhe físico.
  • A divisão do corpo de Tiamat ao meio para formar literalmente a abóbada do céu (com ferrolhos contendo as águas) e a terra, de onde nascem inclusive o Tigre e o Eufrates.
  • A prisão de Kingu e a tomada das Tábuas do Destino como espólio de guerra.
  • A construção de Esagila, o templo de Marduk em Babilônia, como recompensa da vitória.
Em palavras simples

O Salmo 89 diz que Deus doma o mar bravo e vence um monstro chamado Raabe. Os babilônios tinham uma história parecida: o deus Marduk luta contra a deusa do mar, Tiamat, mata ela em batalha e usa seu corpo para criar o céu e a terra. As duas histórias falam de um deus vencendo o mar, mas o Salmo não descreve uma luta nem diz que o mundo foi feito do corpo de um monstro morto, só afirma que Deus já é dono incontestável de tudo, sem precisar provar isso lutando.

Aprofundamento

Na Tábua IV do Enuma Elish, a assembleia dos deuses concede a Marduk a realeza antes da batalha, entregando-lhe cetro, trono e armas: arco e flechas, maça, uma rede para capturar Tiamat e os quatro, depois sete, ventos que ele amarra ao seu carro de tempestade. Quando Tiamat abre a boca para engoli-lo, Marduk lança o vento maligno para dentro dela, mantendo suas mandíbulas escancaradas, e dispara uma flecha que atravessa seu ventre e parte seu coração, matando-a. Ele então pisoteia os aliados dela, prende Kingu, seu general e antigo consorte, e toma dele as Tábuas do Destino, o objeto que garantia autoridade suprema entre os deuses. Por fim, Marduk fende o corpo de Tiamat ao meio, como se fosse um peixe seco preparado para secagem: de uma metade forma a abóbada do céu, trancada com ferrolhos e guardada por vigias para conter as águas superiores; da outra organiza a terra, e dos olhos dela faz brotar os rios Tigre e Eufrates. Esse ato de vitória culmina, em tábuas posteriores do poema, na construção de Babilônia e do templo Esagila como recompensa da vitória de Marduk.

usa um vocabulário que ecoa esse tipo de tradição, mas de forma muito mais contida: "tu dominas a arrogância do mar" emprega um verbo de domínio soberano, não de combate corpo a corpo; "quando suas ondas se levantam, tu as aquietas" descreve uma ordem serena, não uma perseguição com rede e vento; "quebraste a Raabe como que ferida de morte" usa uma imagem de derrota já consumada, sem narrar armas específicas nem a sequência do golpe; e "com teu braço forte espalhaste os teus inimigos" generaliza o gesto guerreiro em vez de detalhar uma cena de batalha corporal. Nenhum verso menciona a origem física do céu e da terra a partir do corpo de Raabe, nenhuma assembleia de deuses concede poder a Yahweh, e nenhum adversário divino rival ameaça de fato seu trono: ele já reina antes, durante e depois do confronto, como o próprio salmo deixa claro ao afirmar, logo em seguida, que os céus e a terra já lhe pertencem por criação, não por conquista. A diferença central é estrutural: o Enuma Elish é uma cosmogonia que explica a origem do universo material e legitima a supremacia política e religiosa de Marduk e de Babilônia entre outros deuses; é um hino de realeza e aliança que recicla uma imagem de vitória cósmica, já convencional na poesia do Oriente Próximo antigo, para reafirmar, em tom quase litúrgico, que Yahweh não tem concorrentes, e não para explicar como o mundo físico surgiu.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O Salmo 89 foi copiado do Enuma Elish ou é uma versão hebraica reescrita do mito babilônico.

    Não há evidência de dependência literária direta entre os dois textos, apenas o compartilhamento de um repertório amplo de imagens de combate contra o mar, atestado em vários povos do Oriente Próximo, inclusive entre os cananeus, muito antes de qualquer contato judaico-babilônico documentado.

  • Dizem que:Raabe, no Salmo 89, e Tiamat, no Enuma Elish, são o mesmo monstro com nomes diferentes.

    São figuras de tradições linguísticas e narrativas distintas: Raabe é um nome hebraico ligado a Leviatã na poesia bíblica, Tiamat é uma deusa mesopotâmica com genealogia, cônjuge e papel cosmogônico próprios; não há texto que os equipare diretamente.

  • Dizem que:O Enuma Elish prova que a criação bíblica é apenas um mito reaproveitado.

    Os dois textos têm estruturas, teologia e função muito diferentes; a existência de temas comuns no Oriente Próximo antigo não determina dependência nem torna um relato mera cópia do outro.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Reformada

    Vê o vocabulário de combate contra o mar como linguagem polêmica: o salmista usa imagens conhecidas do público para afirmar que só Yahweh, e nenhum Marduk ou Baal, exerce domínio real sobre o caos, negando implicitamente o panteão vizinho.

  • Católica

    Reconhece o uso de um idioma poético comum ao Oriente Próximo antigo como veículo humano legítimo da revelação, no qual o autor inspirado emprega imagens culturalmente disponíveis para comunicar uma verdade teológica sobre a soberania divina.

  • Ortodoxa

    Enfatiza a leitura litúrgica e tipológica do tema, associando o domínio sobre o mar em à autoridade de Cristo sobre as forças da natureza, celebrada nos hinos e na tradição litúrgica bizantina.

  • Histórico-crítica protestante (escola de Gunkel)

    Interpreta o Salmo 89 como herdeiro consciente de um esquema mitológico mesopotâmico e cananeu de combate cósmico, adaptado e monoteizado pela fé israelita, sem que isso diminua seu valor como Escritura para essa linha de estudiosos.

O que fazer com isso

Ler esse tipo de paralelo exige equilíbrio: reconhecer que autores bíblicos usaram uma linguagem de combate cósmico compartilhada na região, sem daí concluir nem que copiaram um mito pagão, nem que a semelhança é coincidência. O valor histórico do Enuma Elish está em mostrar como ouvintes antigos entendiam imagens de mar bravio e monstros derrotados, o que ajuda a ler com mais precisão, não menos fé.

Fontes consultadas5 obras
  • W. G. Lambert. Babylonian Creation Myths, 2013.
  • Alexander Heidel. The Babylonian Genesis, 1951.
  • Hermann Gunkel. Schöpfung und Chaos in Urzeit und Endzeit, 1895.
  • John Day. God's Conflict with the Dragon and the Sea, 1985.
  • Frank Moore Cross. Canaanite Myth and Hebrew Epic, 1973.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Salmos 89:9-10 e o Enuma Elish contam a mesma história?

Não. Os dois usam a imagem de um deus vencendo o mar, mas o Enuma Elish narra uma batalha detalhada cujo resultado forma fisicamente o céu e a terra, enquanto apenas afirma, em tom hínico, que Yahweh já domina o mar e derrotou Raabe, sem descrever armas, ferimentos ou a origem do cosmos a partir de um cadáver.

Quem é Raabe no Salmo 89?

Raabe é um nome poético hebraico para um monstro marinho do caos, citado também em Jó e Isaías, funcionando como sinônimo de Leviatã; em outros textos bíblicos o mesmo nome também é usado, de forma figurada, para se referir ao Egito.

O Enuma Elish influenciou diretamente a Bíblia?

Não há consenso de influência direta; a maioria dos estudiosos hoje aponta o mito ugarítico de Baal contra Yam, geográfica e linguisticamente mais próximo de Israel, como pano de fundo mais provável para as imagens bíblicas de combate contra o mar, com o Enuma Elish servindo como o paralelo mesopotâmico mais bem documentado desse padrão mais amplo.

Por que Deus é descrito lutando contra o mar se ele criou tudo sozinho?

A linguagem de combate é poética, não uma segunda narrativa de criação concorrente com ; ela expressa, num gênero literário reconhecível na época, que nenhuma força do caos ameaça de fato o governo de Yahweh.

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Publicado em 13/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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