O papiro que já tinha o capítulo do amor
Existe algum manuscrito antigo que já tinha o capítulo do amor de 1 Coríntios 13?
Resposta curta
O Papiro Chester Beatty II, conhecido como P46, é um dos manuscritos mais antigos com cartas de Paulo, e traz quase toda a Primeira Carta aos Coríntios. Copiado em grego, em papiro egípcio, costuma ser datado entre o fim do século II e o início do século III d.C. — cerca de um século e meio depois de Paulo escrever a carta, nos anos 50. Adquirido pelo colecionador Alfred Chester Beatty nos anos 1930, hoje fica sobretudo na Biblioteca Chester Beatty, em Dublin.
No trecho de , o "capítulo do amor", o papiro conserva quase palavra por palavra o texto conhecido hoje — e uma diferença real, no versículo 3, entre "para ser queimado" e "para que eu me glorie", ponto debatido entre os manuscritos gregos mais antigos do Novo Testamento.
O que diz Papiros Chester Beatty
Papiro Chester Beatty II (P46), texto quase completo de 1 Coríntios 13
O Papiro Chester Beatty II — catalogado pelos estudiosos como P46 — é um dos testemunhos mais antigos que sobrevivem das cartas de Paulo. Foi adquirido nos anos 1930 pelo colecionador irlandês-americano Alfred Chester Beatty, comprado no Egito por meio de negociantes de antiguidades, com procedência provável da região do Faium. O papiro foi publicado pela primeira vez pelo estudioso britânico Frederic Kenyon entre 1933 e 1937. Hoje a maior parte de suas folhas está na Biblioteca Chester Beatty, em Dublin, e um pequeno número de páginas avulsas pertence à Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.
Fisicamente, é um códice — ou seja, já tem o formato de livro com páginas costuradas, não de rolo — o que o torna um dos primeiros exemplos conhecidos desse formato aplicado a textos cristãos. Reúne trechos de Romanos, Hebreus, 1 e 2 Coríntios, Efésios, Gálatas, Filipenses, Colossenses e um pequeno fragmento de 1 Tessalonicenses; não sobrevivem partes das Cartas Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito, Filemom), e os estudiosos ainda discutem se elas nunca fizeram parte deste códice ou se as páginas que as continham simplesmente se perderam. Séculos de manuseio e deterioração desgastaram sobretudo as margens superior e inferior de muitas folhas, de modo que boa parte do texto sobrevive quase completo, mas com perdas pontuais de linhas em certas páginas.
A maioria dos especialistas em paleografia grega data a cópia entre o fim do século II e o início do século III d.C. — um intervalo relativamente curto se comparado à distância entre a redação de Paulo, feita por volta dos anos 53-55 d.C. a partir de Éfeso, e outros textos da Antiguidade, cujas cópias mais antigas muitas vezes só aparecem centenas ou mesmo mais de mil anos depois do original. É justamente esse intervalo que faz do P46 uma referência recorrente nas discussões sobre a transmissão do texto do Novo Testamento, sem que isso signifique que cada detalhe de grafia tenha chegado sem nenhuma variação.
O que diz a Bíblia
Ainda que eu falasse as línguas dos seres humanos e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa, ou como o sino que retine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e soubesse todos os mistérios, e todo o conhecimento; e ainda que tivesse toda a fé, de tal maneira que movesse os montes de lugar, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que eu distribuísse todos os meus bens para alimentar aos pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada me aproveitaria.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- O texto de 1 Coríntios 13:1-2 sobre falar as línguas dos homens e dos anjos, ter dom de profecia, conhecer todos os mistérios e ter fé que move montanhas aparece no papiro essencialmente como conhecemos hoje.
- A metáfora do 'metal que soa' e do 'sino que retine' (v. 1) está preservada no papiro sem alteração de sentido.
- A estrutura do argumento de Paulo — que qualquer dom ou sacrifício sem amor 'nada é' ou 'nada aproveita' — corresponde à do texto grego do papiro.
- O início do versículo 3, sobre distribuir bens para alimentar os pobres, é idêntico ao texto hoje conhecido.
Onde divergem
- No versículo 3, esta tradução (que segue o Textus Receptus) traz 'entregasse meu corpo para ser queimado'; os manuscritos gregos mais antigos, entre eles o P46, trazem uma leitura diferente por poucas letras, que se traduz como 'para que eu me glorie' — variante adotada pela maioria das edições críticas gregas atuais (Nestlé-Aland/UBS).
- O papiro apresenta itacismos e outras pequenas variações ortográficas comuns em cópias gregas antigas, que não alteram o sentido do texto mas diferem grafia por grafia do texto-padrão usado hoje.
- A ordem das cartas no códice (Hebreus logo após Romanos) reflete uma organização antiga da coleção paulina, diferente da ordem canônica final adotada mais tarde.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A numeração de páginas feita pelo copista antigo no alto de cada folha, usada hoje pelos estudiosos para calcular quantas páginas do códice se perderam.
- A ordem das cartas dentro do códice, que coloca Hebreus logo após Romanos — um arranjo de coleção da época, sem relação com o conteúdo de 1 Coríntios 13.
- A ausência de partes das Cartas Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito, Filemom) no que sobrevive do manuscrito, cujo motivo (perda de páginas ou não inclusão original) segue em aberto entre os especialistas.
Em palavras simples
O Papiro Chester Beatty II é uma cópia antiga, em grego, de várias cartas de Paulo, feita provavelmente por volta do ano 200 depois de Cristo — menos de dois séculos depois de Paulo escrever a Primeira Carta aos Coríntios. Nele, o famoso "capítulo do amor" () já aparece quase inteiro, quase igual ao texto que lemos hoje. Isso mostra que esse trecho não foi inventado nem muito alterado depois: ele já circulava, com poucas mudanças, enquanto a igreja ainda se espalhava pelo Império Romano.
Aprofundamento
Colocar lado a lado com o que sobrevive no P46 mostra, antes de tudo, estabilidade: os versos sobre falar "as línguas dos seres humanos e dos anjos", sobre profecia, conhecimento e fé que move montanhas, e sobre distribuir bens aos pobres, já apareciam nesse papiro do fim do século II ou começo do III essencialmente como os lemos hoje. As diferenças que existem são, em sua maioria, itacismos — trocas de vogais gregas que soavam parecido na pronúncia da época (como ει por ι), sem qualquer efeito no sentido — e abreviações padronizadas de palavras sagradas, comuns em manuscritos cristãos antigos.
Há, porém, um ponto de divergência real e bem documentado entre famílias de manuscritos gregos, exatamente no versículo 3. Onde a tradição por trás desta tradução (que segue o Textus Receptus) traz "entregasse meu corpo para ser queimado", os manuscritos mais antigos — entre eles o P46 — trazem, no grego, uma palavra diferente por poucas letras, que se traduz como "para que eu me glorie" ou "para me vangloriar". A diferença entre "καυθήσομαι" (ser queimado) e "καυχήσωμαι" (gloriar-se) é conhecida na crítica textual há muito tempo: editores como os da Nestlé-Aland/UBS, base da maioria das traduções acadêmicas atuais, adotam "gloriar-me" por julgá-la mais coerente com o contraste que Paulo traça entre um gesto generoso feito por vaidade e o mesmo gesto feito por amor — e por notar que a prática de mártires cristãos se deixarem queimar vivos só ganha destaque histórico depois da época de Paulo. Já o texto majoritário bizantino, usado litúrgicamente por tradições orientais e que chegou até o Textus Receptus, preserva "ser queimado". Nenhuma das duas leituras é invenção tardia: ambas aparecem em manuscritos antigos, e a diferença mostra como a crítica textual trabalha com evidência concreta, não com suposições.
Vale notar também alguns detalhes que só existem no próprio objeto físico do papiro, sem relação com o conteúdo do texto sagrado em si: a numeração de páginas feita pelo copista antigo, que ajuda a calcular quantas folhas se perderam; a ordem das cartas no códice, que coloca Hebreus logo depois de Romanos — refletindo uma prática de agrupamento da época, não um julgamento sobre autoria; e a ausência de qualquer prólogo ou comentário explicando o texto, sinal de que era uma cópia de uso, não uma edição de luxo. Nenhum desses elementos altera o conteúdo teológico da carta; são apenas os traços que a arqueologia dos livros antigos consegue recuperar.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Só existem cópias medievais tardias da Bíblia, feitas muitos séculos depois dos originais.
O P46 é um entre vários papiros do Novo Testamento datados dos séculos II e III, ou seja, de bem menos de dois séculos depois da redação das cartas de Paulo — um intervalo curto para os padrões da transmissão de textos antigos.
Dizem que:Chester Beatty foi quem escreveu ou traduziu esse papiro.
Alfred Chester Beatty foi apenas o colecionador que adquiriu o papiro no Egito na década de 1930; o texto foi copiado por um escriba anônimo cerca de 1700 anos antes disso.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Tradição ligada ao Textus Receptus (base de traduções como Almeida e da King James, seguida por setores protestantes conservadores)
Lê 'para ser queimado' em , acompanhando o texto bizantino majoritário, e valoriza a continuidade dessa leitura ao longo da maior parte da história da cópia manuscrita do Novo Testamento.
Crítica textual acadêmica moderna (base da maioria das traduções protestantes e católicas contemporâneas, apoiada em edições como Nestlé-Aland/UBS)
Dá peso maior aos manuscritos mais antigos, como o P46, e adota 'para que eu me glorie', por considerar essa leitura mais coerente com o contraste que Paulo traça entre gesto generoso e motivação vazia.
Ortodoxia oriental
Mantém o texto bizantino usado litúrgicamente há séculos, que traz 'ser queimado', e entende a continuidade do texto litúrgico como parte do valor da tradição recebida.
Tradição católica ligada à Vulgata de Jerônimo
A Vulgata latina traz 'ut ardeam' ('que eu arda'), próxima de 'ser queimado' — o que mostra que essa variante já circulava antes mesmo da consolidação do texto bizantino, também na tradição latina.
O que fazer com isso
Diante de um papiro como esse, o equilíbrio está em não pedir dele mais do que ele oferece. Ele não "prova" que a Bíblia é verdadeira nem serve para duvidar dela: mostra, com evidência concreta, que o texto de já estava bem fixado poucas gerações depois de Paulo, ao mesmo tempo em que preserva uma variante genuína que a crítica textual ainda discute. Ler esse tipo de fonte bem é aceitar as duas coisas juntas, sem simplificar.
Fontes consultadas4 obras
- Kenyon, Frederic G.. The Chester Beatty Biblical Papyri: Fasciculus III, Pauline Epistles and Revelation, 1936.
- Comfort, Philip W. e Barrett, David P.. The Text of the Earliest New Testament Greek Manuscripts, 2001.
- Metzger, Bruce M.. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
- Bruce, F. F.. The New Testament Documents: Are They Reliable?, 1943.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Papiro Chester Beatty II é o original que Paulo escreveu?
Não. É uma cópia feita entre o fim do século II e o início do século III d.C., cerca de um século e meio depois de Paulo escrever a carta aos coríntios nos anos 50. Nenhum autógrafo de Paulo sobreviveu até hoje.
Esse papiro prova que o texto da Bíblia nunca mudou nada?
Não exatamente. Ele mostra que o núcleo de já estava bem fixado por volta do ano 200, mas também preserva, no versículo 3, uma leitura ('para que eu me glorie') diferente da que aparece nesta tradução ('para ser queimado') — uma variante real, discutida há muito tempo pelos especialistas em crítica textual.
Onde esse papiro está guardado hoje?
A maior parte das folhas está na Biblioteca Chester Beatty, em Dublin, na Irlanda. Um pequeno número de páginas avulsas pertence à Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.
Por que a tradução usada aqui diz 'para ser queimado' e não 'para me vangloriar'?
Porque ela segue a tradição do Textus Receptus, que nesse ponto reflete o texto bizantino majoritário. Edições gregas mais recentes, apoiadas em manuscritos mais antigos como o P46, preferem a leitura 'para que eu me glorie' — a diferença é de poucas letras no grego original, mas muda o sentido da frase.
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