A mulher adúltera e o Codex Sinaítico
Por que a história da mulher adúltera não aparece nos manuscritos mais antigos da Bíblia?
Resposta curta
A cena em que Jesus livra da lapidação uma mulher flagrada em adultério, dizendo "aquele de vós que está sem pecado, seja o primeiro que atire pedra contra ela" (), é uma das mais lembradas dos evangelhos. Ela não aparece, porém, no Codex Sinaítico, um dos manuscritos gregos mais antigos e completos do Novo Testamento, copiado no século IV: o texto passa direto do fim do capítulo 7 para o versículo 12 do capítulo 8, sem os onze versículos da mulher adúltera.
Essa ausência não é exclusividade do Sinaítico — outros manuscritos antigos importantes também não trazem a passagem, que só se firma em cópias bizantinas mais tardias. A maioria dos especialistas em crítica textual conclui que a cena não fazia parte da composição original de João, embora muitos a considerem uma tradição antiga e genuína sobre Jesus.
O que diz Codex Sinaítico
Codex Sinaiticus, entre João 7 e 8
O Codex Sinaítico é um dos dois manuscritos gregos mais antigos que preservam o Novo Testamento quase completo, ao lado do Codex Vaticanus, ambos copiados por volta de meados do século IV d.C. Foi localizado pelo erudito alemão Constantin von Tischendorf no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, em visitas realizadas em 1844 e 1859. Hoje suas folhas estão divididas entre a Biblioteca Britânica, a Universidade de Leipzig, a Biblioteca Nacional da Rússia e o próprio mosteiro no Sinai.
Como qualquer texto antigo, o Novo Testamento chegou até nós por meio de cópias manuscritas sucessivas, feitas à mão ao longo de séculos antes da invenção da imprensa. Isso significa que comparar manuscritos de épocas e regiões diferentes é a única forma de reconstruir, com o máximo de precisão possível, a redação mais próxima dos escritos originais — um trabalho chamado crítica textual.
No caso da mulher adúltera (–8:11), a ausência no Sinaítico se repete em outros testemunhos igualmente antigos e respeitados: o Codex Vaticanus, os papiros Bodmer P66 e P75 (ambos de cerca do ano 200 d.C.) e versões antigas em siríaco e copta saídico. O primeiro manuscrito grego conhecido que traz a cena é o Codex Bezae, do século V, ainda assim com particularidades de vocabulário e de posição que chamam atenção dos especialistas. A passagem só se torna padrão nas cópias bizantinas a partir de aproximadamente os séculos VIII–IX, e é a partir dessa tradição bizantina, majoritária na Idade Média, que ela chega ao Textus Receptus impresso no século XVI e, por ele, a traduções como a que fundamenta a citação bíblica usada neste site. Ou seja: o Codex Sinaítico não "nega" a cena nem a contradiz — ele simplesmente registra um estágio da transmissão do texto em que, ao que tudo indica, ela ainda não fazia parte do evangelho de João.
O que diz a Bíblia
Porém Jesus foi para o monte das Oliveiras. E pela manhã cedo voltou ao Templo, e todo o povo veio a ele; e sentando-se, ensinava-os. E trouxeram-lhe os escribas e fariseus uma mulher tomada em adultério; E pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi tomada no momento em que estava adulterando. E na Lei nos mandou Moisés, que as tais sejam apedrejadas; tu pois que dizes? E isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas inclinando-se Jesus, escrevia com o dedo na terra. E enquanto continuavam lhe perguntando, ele se endireitou, e disse-lhes: Aquele de vós que está sem pecado, seja o primeiro que atire pedra contra ela. E voltando a se inclinar, escrevia na terra. Porém ouvindo eles isto, e acusados pela própria consciência, saíram um a um, começando dos mais velhos até os últimos; e Jesus ficou só, e a mulher, que estava no meio. E endireitando-se Jesus, e não vendo a ninguém além da mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E disse ela: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai, e não peques mais.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- O texto que precede e sucede a lacuna (João 7:1-52 e João 8:12 em diante) é idêntico em conteúdo ao encontrado nos manuscritos que trazem a pericope, mostrando que a ausência é pontual, não um sinal de divergência maior no evangelho de João.
- O quadro jurídico pressuposto na cena — a pena de lapidação para adultério — corresponde exatamente ao que a Lei de Moisés prescreve (Levítico 20:10; Deuteronômio 22:22-24), o que é coerente com a ambientação judaica da narrativa, independentemente de sua posição no texto grego.
- O tema da cena (a autoridade de Jesus para perdoar em confronto com líderes religiosos) é consistente com o restante do estilo narrativo do evangelho de João, mesmo que o vocabulário específico do trecho destoe.
Onde divergem
- O Codex Sinaítico (século IV) e o Codex Vaticanus (século IV) omitem inteiramente os onze versículos; o texto salta de João 7:52 para João 8:12.
- O Codex Bezae (século V), primeiro manuscrito grego a trazer a cena, contém variações de formulação em relação ao texto bizantino padrão que embasa a tradução citada aqui.
- Em um grupo de manuscritos bizantinos (família 13), a passagem aparece deslocada para depois de Lucas 21:38, e não no evangelho de João.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- O relato transmitido por Eusébio de Cesareia sobre uma história de Papias — "uma mulher acusada de muitos pecados diante do Senhor" — carece dos detalhes específicos do texto canônico atual (a exigência de apedrejamento, a frase sobre estar sem pecado, Jesus escrevendo no chão), sendo apenas uma possível tradição paralela e não uma citação da cena como a conhecemos.
- A posição alternativa da cena após Lucas 21:38 em parte da tradição manuscrita bizantina é um dado exclusivo da história da transmissão do texto, sem equivalente em nenhuma leitura canônica padrão da passagem.
Em palavras simples
O Codex Sinaítico é uma das cópias mais antigas e completas do Novo Testamento em grego, feita por volta do século IV. Nele, a conhecida história da mulher adúltera perdoada por Jesus simplesmente não existe: o texto de João pula do capítulo 7 direto para o versículo 12 do capítulo 8. A cena só aparece em manuscritos bem mais tardios. Isso não quer dizer que a história foi inventada do nada, mas que sua entrada no texto de João, do jeito que conhecemos hoje, aconteceu depois.
Aprofundamento
A ausência da mulher adúltera no Codex Sinaítico não é um dado isolado — é uma peça de um quadro maior que a crítica textual reúne há mais de um século. Um primeiro indício é linguístico: vários termos e construções gregas usados em –8:11 não aparecem em nenhuma outra parte do quarto evangelho, mas soam familiares ao estilo de Lucas, o que levou alguns estudiosos a suspeitar de uma origem narrativa diferente da do restante de João. Um segundo indício é a posição instável da cena nos manuscritos que a incluem: em alguns ela aparece onde a conhecemos hoje, em outros depois de , em outros ainda ao final do próprio evangelho de João, e num grupo de manuscritos bizantinos (a chamada família 13) ela surge inserida no evangelho de Lucas, depois de . Esse comportamento é típico de uma tradição que circulava de forma independente antes de encontrar um lugar fixo no texto escrito.
Há também testemunho patrístico anterior aos manuscritos mais antigos que sobrevivem hoje: o historiador Eusébio de Cesareia, no século IV, registra que Papias, bispo do início do século II, conhecia "uma história sobre uma mulher acusada de muitos pecados diante do Senhor" — um relato frequentemente associado a essa mesma tradição, embora sem os detalhes específicos (as pedras, a frase sobre estar sem pecado, Jesus escrevendo no chão) que conhecemos na forma final da história. Isso sugere que uma memória sobre o episódio pode ter circulado desde muito cedo, mesmo sem constar ainda no texto escrito de João. No século IV, Jerônimo incluiu a passagem na Vulgata latina, afirmando conhecê-la em "muitos códices gregos e latinos"; Agostinho, por sua vez, especulou que alguns copistas a teriam removido por temer que incentivasse a leniência com o adultério — uma hipótese antiga, não um fato documentado.
Edições críticas modernas do Novo Testamento grego (como Nestle-Aland e as edições das Sociedades Bíblicas Unidas) imprimem a passagem entre colchetes duplos, sinalizando que a consideram um acréscimo posterior ao texto joanino original, mas a mantêm no corpo do texto por seu peso histórico e litúrgico contínuo na igreja. Já edições baseadas no Textus Receptus — base da tradução usada neste site — imprimem a cena sem qualquer marcação especial, seguindo a tradição bizantina majoritária e a prática editorial de Erasmo de Roterdã no século XVI. O resultado prático é que quase nenhuma tradição cristã propõe remover a passagem da Bíblia; a diferença está em como sinalizar, ou não, sua história textual particular.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A ausência da passagem nos manuscritos mais antigos prova que a história foi inventada séculos depois por copistas.
Testemunhos anteriores aos manuscritos completos mais antigos, como a referência de Papias preservada por Eusébio no século IV, sugerem que uma tradição sobre esse episódio já circulava desde cedo. A maior parte dos críticos textuais considera a cena provavelmente uma memória autêntica sobre Jesus, mesmo defendendo que ela não fazia parte da redação original de João.
Dizem que:A Igreja removeu a passagem de propósito para esconder um ensinamento incômodo sobre misericórdia.
Essa é uma hipótese antiga, sugerida por Agostinho no século IV, não um fato comprovado por evidência manuscrita. A explicação mais aceita entre os especialistas hoje é de transmissão textual — uma tradição oral inserida em pontos diferentes do texto com o tempo — e não de censura deliberada.
Como diferentes tradições leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Ortodoxia Oriental e Catolicismo Romano
Tratam a passagem como Escritura plenamente canônica e inspirada, parte da tradição recebida da igreja desde a Vulgata de Jerônimo, independentemente do debate sobre sua posição original no texto grego de João.
Tradição do Texto Recebido (Textus Receptus)
Segue a maioria bizantina dos manuscritos gregos e a edição de Erasmo, imprimindo a cena sem qualquer marcação especial, como parte integral e inquestionável do evangelho de João.
Protestantismo evangélico apoiado em crítica textual moderna
Muitas traduções recentes (baseadas em Nestle-Aland e nas Sociedades Bíblicas Unidas) mantêm a passagem no texto, mas sinalizada entre colchetes ou com nota de rodapé, reconhecendo-a como historicamente valiosa e provavelmente autêntica, embora um acréscimo posterior ao texto joanino.
O que fazer com isso
Saber que um trecho tem uma história textual complexa não diminui seu peso na fé cristã nem exige escolher entre "confiar" e "duvidar" da Bíblia. O caminho equilibrado é distinguir duas perguntas diferentes: se um relato faz parte de como um livro foi originalmente composto, e se ele preserva uma memória verdadeira sobre Jesus. As duas coisas podem ter respostas diferentes, e reconhecer isso é parte de levar a história do texto bíblico a sério.
Fontes consultadas4 obras
- Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
- Chris Keith. The Pericope Adulterae, the Gospel of John, and the Literacy of Jesus, 2009.
- Bart D. Ehrman. Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why, 2005.
- Constantin von Tischendorf. Bibliorum Codex Sinaiticus Petropolitanus (edição fac-similar do Codex Sinaítico), 1862.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Codex Sinaítico realmente não tem a história da mulher adúltera?
Correto. No Codex Sinaítico, o texto de João passa do fim do capítulo 7 direto para , sem os onze versículos que narram a mulher flagrada em adultério. O mesmo ocorre em outros manuscritos antigos importantes, como o Codex Vaticanus.
Isso significa que a história foi inventada?
Não necessariamente. Testemunhos patrísticos anteriores, como a referência de Papias registrada por Eusébio, sugerem que uma tradição sobre esse episódio já era conhecida desde cedo. A maioria dos estudiosos considera provável que a cena preserve uma memória real sobre Jesus, ainda que tenha entrado no texto de João em um momento posterior.
Por que as Bíblias continuam trazendo essa passagem, então?
Porque, apesar da dúvida sobre sua composição original, a cena está presente na tradição manuscrita há muitos séculos, foi incluída por Jerônimo na Vulgata e é considerada por praticamente toda tradição cristã como parte legítima das Escrituras — variando apenas se ela deve ou não vir com uma nota explicando sua história textual.
O que exatamente é o Codex Sinaítico?
É um manuscrito grego do Novo Testamento copiado por volta do século IV d.C., um dos dois exemplares mais antigos e completos que existem. Foi descoberto pelo pesquisador Constantin von Tischendorf no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, no século XIX.
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