Quem condenou Jesus: Pilatos ou Herodes?
Foi Pilatos ou Herodes quem realmente condenou Jesus à morte?
Resposta curta
Em , ao ouvir que Jesus é galileu, Pilatos o envia a Herodes, que também está em Jerusalém. Herodes fica contente, pois queria vê-lo fazer algum sinal; faz perguntas, mas Jesus não responde. Sacerdotes e escribas o acusam com veemência. Herodes e seus soldados o desprezam, escarnecem dele, vestem-no com roupa luxuosa e o devolvem a Pilatos, que mais adiante afirma que nem ele nem Herodes acharam nele culpa que mereça morte. Naquele dia, dois antigos rivais se reconciliam.
O Evangelho de Pedro, texto cristão não canônico do século II, narra esse momento de outro jeito: é o próprio Herodes, chamado ali de "rei", quem ordena a entrega de Jesus para a crucificação, enquanto Pilatos se retira sem lavar as mãos. A comparação mostra como comunidades cristãs distintas reelaboraram quem carrega o peso da sentença.
O que diz Evangelho de Pedro
Evangelho de Pedro 1-5
Lucas é o único dos quatro Evangelhos que inclui a cena em que Pilatos envia Jesus a Herodes Antipas, tetrarca da Galileia e da Perea, filho de Herodes, o Grande, que estava em Jerusalém para a Páscoa. O evangelista tem um interesse marcado, visível também em Atos dos Apóstolos, em mostrar que as autoridades romanas não encontram em Jesus (nem depois nos cristãos) motivo de condenação política. Por isso, em , Pilatos declara a inocência de Jesus três vezes (v.4, v.14-15 e v.22), e no v.15 afirma expressamente que "nem tampouco Herodes" achou nele "coisa digna de morte". Mesmo introduzindo Herodes na narrativa, Lucas mantém Pilatos como a autoridade que, ao fim, cede à pressão da multidão e entrega Jesus para ser crucificado (23:24-25). A observação de que Herodes e Pilatos "antes tinham inimizade" é exclusiva de Lucas; não há confirmação em Flávio Josefo ou em outra fonte do período sobre a causa dessa rivalidade, embora alguns estudiosos especulem uma ligação com o episódio dos galileus mortos por ordem de Pilatos, mencionado en passant em .
O Evangelho de Pedro é um texto cristão apócrifo, isto é, fora do cânon adotado pelas igrejas, composto provavelmente em algum momento do século II. Ele se apresenta em primeira pessoa como escrito por Pedro, mas a quase totalidade dos estudiosos o considera pseudepígrafo: obra de um autor desconhecido que usou o nome do apóstolo para dar autoridade ao texto, prática comum na literatura cristã e judaica antiga. Sobrevive de forma incompleta graças ao chamado fragmento de Akhmim, um manuscrito grego copiado séculos depois da composição original, encontrado no túmulo de um monge no Egito em 1886-1887. Por volta do ano 200, o bispo Serapion de Antioquia, segundo relata o historiador Eusébio de Cesareia, permitiu inicialmente sua leitura numa igreja da Cilícia, mas depois de examiná-lo mais de perto passou a restringi-lo, por identificar nele tendências que julgou problemáticas do ponto de vista cristológico.
O que diz a Bíblia
Então Pilatos, ouvindo falar da Galileia, perguntou se aquele homem era galileu. E quando soube que era da jurisdição de Herodes, ele o entregou a Herodes, que naqueles dias também estava em Jerusalém. E Herodes, ao ver Jesus, alegrou-se muito, porque havia muito tempo que desejava o ver, pois ouvia muitas coisas sobre ele; e esperava ver algum sinal feito por ele. E perguntava-lhe com muitas palavras, mas ele nada lhe respondia; E estavam lá os chefes dos sacerdotes, e os escribas, acusando-o com veemência. E Herodes, com seus soldados, desprezando-o, e escarnecendo dele, o vestiu com uma roupa luxuosa, e o enviou de volta a Pilatos. E no mesmo dia Pilatos e Herodes se fizeram amigos; porque antes tinham inimizade um contra o outro.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Ambos os textos dão a Herodes um papel na Paixão de Jesus — um detalhe ausente em Marcos, Mateus e João, e que só Lucas registra entre os quatro Evangelhos canônicos, sugerindo que o autor do Evangelho de Pedro conhecia essa tradição lucana ou uma tradição próxima dela.
- Nos dois textos, Jesus é tratado com desprezo e zombaria antes da crucificação: em Lucas, Herodes e seus soldados o vestem com 'roupa luxuosa' para escarnecer dele (23:11); no Evangelho de Pedro, a mesma lógica de vestir Jesus para ridicularizá-lo como 'rei' aparece nos capítulos seguintes ao da sentença.
- Em ambos os relatos, Pilatos aparece de alguma forma buscando se distanciar da responsabilidade pela sentença — em Lucas, ao repassar o caso a Herodes por jurisdição; no Evangelho de Pedro, ao se recusar a participar do rito de lavar as mãos e se retirar da cena.
Onde divergem
- Em Lucas, é Pilatos quem, ao final do capítulo 23, cede à pressão da multidão e entrega formalmente Jesus para a crucificação (23:24-25); no Evangelho de Pedro, é Herodes, chamado 'rei', quem emite a ordem de que Jesus seja levado para a execução, com Pilatos praticamente ausente da decisão final.
- Lucas registra duas declarações de inocência sobre Jesus — a de Pilatos e a de Herodes (23:15) — preservando um quadro em que nenhuma autoridade o considera culpado de crime capital; o Evangelho de Pedro não preserva esse duplo veredito de inocência: Herodes age como autoridade que efetivamente condena.
- Em Lucas, os acusadores de Jesus diante de Herodes são especificamente 'os chefes dos sacerdotes e os escribas' (23:10); no Evangelho de Pedro, papéis de acusação, escárnio e execução são atribuídos de forma mais ampla e recorrente a 'o povo' ou 'os judeus' em geral, incluindo funções que nos Evangelhos canônicos pertencem aos soldados romanos.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A cena em que 'os judeus' se recusam a lavar as mãos e Pilatos, diante disso, se levanta e se retira — um eco invertido do gesto exclusivo de Mateus 27:24, em que é justamente Pilatos quem lava as mãos para declarar inocência; nenhum Evangelho canônico narra essa recusa coletiva.
- A ordem explícita de Herodes, chamado 'rei', para que Jesus seja levado e se faça com ele o que fora combinado — um comando direto de sentença que nenhum Evangelho canônico atribui a Herodes.
- José (de Arimateia) pedindo o corpo de Jesus a Pilatos antes da crucificação, e não depois da morte, invertendo a ordem cronológica preservada pelos quatro Evangelhos canônicos.
- O grito final de Jesus na cruz registrado como 'minha força, minha força, tu me abandonaste' (em vez de 'Eli, Eli, lemá sabactâni' de Mateus e Marcos, ou das últimas palavras de Lucas e João), frase que gerou debate acadêmico sobre uma possível leitura docética do texto.
Em palavras simples
A Bíblia conta que Pilatos, o governador romano, mandou Jesus para ser interrogado pelo rei Herodes, porque Jesus era da região que Herodes governava. Herodes ficou curioso, fez várias perguntas, mas Jesus ficou calado; os soldados de Herodes zombaram dele e o mandaram de volta a Pilatos, que continuou responsável pelo julgamento. Um livro antigo chamado Evangelho de Pedro, que não faz parte da Bíblia, conta a mesma cena de outro jeito: é Herodes quem dá a ordem final para crucificar Jesus, e Pilatos quase desaparece da história, com bem menos culpa.
Aprofundamento
A diferença entre Lucas e o Evangelho de Pedro quanto a quem sentencia Jesus costuma ser discutida por historiadores como um exemplo de como as narrativas da Paixão foram sendo reelaboradas por diferentes comunidades cristãs nos primeiros séculos. Em Lucas, apesar de Herodes ganhar uma cena própria, o texto preserva com clareza que é Pilatos quem, ao fim, profere a sentença e entrega Jesus para a execução, ainda que sob pressão da multidão reunida diante dele. No Evangelho de Pedro, o quadro se inverte: logo no início do texto que chegou até nós, é Herodes, chamado "rei", quem dá a ordem de que Jesus seja levado, dizendo (em paráfrase) que se faça com ele o que antes fora combinado, enquanto Pilatos se levanta e se retira sem lavar as mãos — um eco invertido da cena exclusiva de , em que é justamente Pilatos quem lava as mãos para declarar sua inocência.
Esse deslocamento de responsabilidade continua nos capítulos seguintes do mesmo texto: quem escarnece de Jesus, o veste de púrpura, o crucifica e reparte suas vestes é descrito como "o povo" ou "os judeus", papel que nos quatro Evangelhos canônicos cabe aos soldados romanos. Também é digno de nota que, no Evangelho de Pedro, José (de Arimateia) já pede o corpo de Jesus a Pilatos antes da crucificação, invertendo a ordem cronológica que os quatro Evangelhos canônicos preservam (o pedido só ocorre depois da morte). Mais adiante, o grito final de Jesus na cruz é registrado de forma distinta de qualquer Evangelho canônico: "minha força, minha força, tu me abandonaste", frase que gerou debate acadêmico sobre possíveis leituras docéticas do texto — a suspeita, aliás, que teria levado Serapion de Antioquia a restringir sua leitura.
Historiadores como Raymond E. Brown e Paul Foster tratam esses elementos não como registro histórico independente da Paixão, mas como evidência de uma tendência literária: ao longo do tempo, alguns textos cristãos tenderam a intensificar a culpa das autoridades e do povo judeu e a suavizar a de Roma — tendência que já aparece, em grau bem mais moderado, dentro do próprio Novo Testamento (Mateus, por exemplo, acrescenta a cena em que Pilatos lava as mãos e a multidão declara "seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos", ausente em Marcos). Reconhecer esse processo ajuda a distinguir o que o texto bíblico efetivamente afirma do que foi acrescentado depois, e evita anacronismos ao ler tanto Lucas quanto os apócrifos.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O Evangelho de Pedro é um relato mais antigo, escrito pelo próprio apóstolo Pedro, e por isso deveria ter mais peso histórico do que os Evangelhos canônicos.
A quase totalidade dos estudiosos (como Raymond Brown e Paul Foster) data a composição do Evangelho de Pedro no século II, depois dos quatro Evangelhos canônicos, e o considera pseudepígrafo — escrito por um autor desconhecido em nome de Pedro, prática comum na época. O próprio bispo Serapion de Antioquia, por volta do ano 200, restringiu seu uso ao notar nele tendências teológicas que considerou problemáticas.
Dizem que:Foi a Bíblia que inventou colocar Herodes na Paixão para jogar a culpa nos judeus e livrar Roma.
Lucas, ao incluir Herodes, mantém dois vereditos de inocência (o de Pilatos e o do próprio Herodes) e preserva Pilatos como quem, ao fim, sentencia Jesus sob pressão da multidão. É no Evangelho de Pedro — texto posterior e fora do cânon — que essa tendência de aliviar Roma e concentrar a culpa em Herodes e no povo aparece de forma bem mais acentuada.
Como diferentes tradições leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica / patrística
O silêncio de Jesus diante de Herodes (v.9) é lido, desde os padres da Igreja, à luz de — o Servo que "não abriu a boca" diante de seus acusadores — mostrando dignidade e submissão voluntária ao plano do Pai diante de um interrogatório movido por mera curiosidade, não por busca sincera da verdade.
Reformada
O episódio é lido como demonstração da soberania de Deus sobre governantes hostis: Herodes e Pilatos, inimigos que se tornam amigos ao se unirem contra Jesus, cumprem sem saber o decreto divino anunciado em Salmo 2 e citado em — nem a maldade humana escapa ao controle providencial de Deus.
Ortodoxa oriental
A tradição litúrgica oriental destaca a ironia teológica do episódio: ao vestir Jesus de "roupa luxuosa" para zombar dele como rei, Herodes involuntariamente proclama uma verdade que rejeita — Cristo é de fato rei, e o escárnio humano se torna, sem querer, testemunho da realeza que nega.
O que fazer com isso
Perceber essa diferença ajuda a não confundir o que Lucas realmente escreve com o que apareceu depois em textos fora do cânon. Lucas já mantém, no próprio relato, um cuidado duplo: nem Herodes nem Pilatos declaram Jesus culpado, e é Pilatos quem cede à multidão. Saber disso evita atribuir à Bíblia exageros retóricos que só surgem em desenvolvimentos posteriores, e ajuda a responder com precisão histórica a quem traz essa comparação como se fosse revelação nova.
Fontes consultadas4 obras
- Raymond E. Brown. The Death of the Messiah, 1994.
- Paul Foster. The Gospel of Peter: Introduction, Critical Edition and Commentary, 2010.
- Bart D. Ehrman. Lost Scriptures: Books that Did Not Make It into the New Testament, 2003.
- Helmut Koester. Ancient Christian Gospels: Their History and Development, 1990.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Herodes chegou a condenar Jesus à morte na Bíblia?
Não. Em Lucas, Herodes apenas interroga, zomba e devolve Jesus a Pilatos; é Pilatos quem, mais adiante no mesmo capítulo, cede à pressão da multidão e entrega Jesus para a crucificação. O próprio texto de Lucas registra que nem Pilatos nem Herodes encontraram nele culpa digna de morte.
O que é o Evangelho de Pedro?
É um texto cristão não canônico, provavelmente do século II, que narra a Paixão e parte da ressurreição de Jesus. Sobrevive de forma incompleta em um manuscrito grego encontrado no Egito no fim do século XIX. Não é considerado Escritura por nenhuma tradição cristã.
Por que o Evangelho de Pedro atribui a sentença a Herodes, e não a Pilatos?
Estudiosos como Raymond Brown e Paul Foster veem nisso parte de uma tendência, presente em graus variados em textos cristãos antigos, de reduzir a responsabilidade romana pela morte de Jesus e concentrar a culpa em autoridades e figuras judaicas — tendência que já aparece de forma mais moderada dentro do próprio Novo Testamento.
Isso significa que a Bíblia também culpa os judeus pela morte de Jesus?
Lucas mantém um quadro mais equilibrado: registra a acusação dos líderes religiosos, mas também a pressão popular e a decisão final de Pilatos, sem o tipo de exoneração unilateral de Roma que aparece de forma mais acentuada no Evangelho de Pedro, um texto posterior e fora do cânon.
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