A variante textual da última ceia
Por que algumas edições da Bíblia trazem uma nota dizendo que parte da última ceia falta em manuscritos antigos?
Resposta curta
traz as palavras de Jesus ao instituir a ceia, mas os manuscritos gregos antigos não concordam totalmente sobre o texto exato. O Codex Vaticanus, o Sinaítico, o Alexandrino e o papiro P75 trazem a forma longa, com as duas partes do versículo 19 e todo o versículo 20, sobre o cálice e o novo testamento em seu sangue. Já o Codex Bezae e alguns manuscritos da Vetus Latina trazem uma forma mais curta, que termina em isto é o meu corpo.
No fim do século XIX, Westcott e Hort chamaram esse caso de não-interpolação ocidental e preferiram o texto curto. A descoberta do papiro P75, décadas depois, mostrou que o texto longo já circulava desde muito cedo, e hoje a maioria dos estudiosos considera essa forma mais completa a original.
O que diz Codex Vaticanus
Codex Vaticanus e manuscritos ocidentais, variantes na instituição da ceia
A cena é a última refeição de Jesus com os discípulos antes da crucificação, narrada de formas ligeiramente diferentes em , , e . Em Lucas, o relato tem uma peculiaridade: menciona um cálice antes da refeição, em 22:17-18, e, segundo a maioria dos manuscritos, outro cálice depois dela, em 22:20, formando uma sequência de dois cálices que não aparece nos outros evangelhos sinóticos, mais próximos de um só cálice ao final.
O Codex Vaticanus, conhecido pela sigla B, copiado em grego no século IV, provavelmente em Alexandria, é um dos manuscritos bíblicos mais antigos e completos que existem, preservado hoje na Biblioteca Apostólica Vaticana. Junto com o Codex Sinaítico e o Codex Alexandrino, ele representa o chamado texto alexandrino, geralmente considerado pelos críticos textuais como o ramo mais próximo dos escritos originais. Todos esses manuscritos trazem a forma longa de , com a menção ao corpo dado por vós e ao cálice como o novo testamento em meu sangue.
Do outro lado está o Codex Bezae, manuscrito bilíngue grego-latino dos séculos V ou VI, principal representante do chamado texto ocidental, uma tradição de cópias conhecida, em outros trechos do Novo Testamento, por acrescentar detalhes e explicações, não por cortá-los. Curiosamente, é justamente esse manuscrito, junto com alguns exemplares da Vetus Latina, traduções latinas anteriores à Vulgata, que aqui traz o texto mais curto, parando em isto é o meu corpo, sem o restante do versículo 19 e sem o versículo 20 inteiro.
Essa reviravolta, um texto normalmente expansivo aparecendo mais curto justamente aqui, chamou a atenção dos primeiros grandes editores do Novo Testamento grego no século XIX, Westcott e Hort, que trataram o caso como uma exceção rara e teoricamente relevante dentro da crítica textual, com implicações diretas para como se lê a instituição da ceia em Lucas.
O que diz a Bíblia
E tomando o pão, e tendo agradecido a Deus,partiu-o, e o deu a eles, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. De modo semelhante também com o copo, depois da ceia, disse: Este copo é o Novo Testamento em meu sangue, que é derramado por vós.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- O Codex Vaticanus traz o texto integral de Lucas 22:19-20, com o corpo dado por vós, a ordem fazei isto em memória de mim, e o cálice como o novo testamento em meu sangue, exatamente na forma que compõe a maioria das Bíblias atuais.
- A redação do texto longo em Lucas 22:19b-20 corresponde quase palavra por palavra a 1 Coríntios 11:24-25, sugerindo uma fórmula litúrgica compartilhada e antiga na igreja primitiva.
- O papiro P75, do início do século III, já traz o mesmo texto longo do Codex Vaticanus, mostrando que essa forma circulava com a mesma redação muito antes do próprio Vaticanus ser copiado.
Onde divergem
- O Codex Bezae e alguns manuscritos da Vetus Latina (como os códices conhecidos pelas siglas b, e, ff2 e i) omitem a segunda metade do versículo 19 (que é dado por vós; fazei isto em memória de mim) e o versículo 20 inteiro, terminando o relato da ceia em isto é o meu corpo.
- Na forma curta preservada pelo Codex Bezae, a sequência da ceia em Lucas passa a ter só um cálice (o de 22:17-18, antes da refeição) e nenhuma menção a um segundo cálice depois dela, ao contrário da estrutura de dois cálices do texto longo do Codex Vaticanus.
- A forma curta não contém a expressão novo testamento em meu sangue nem a menção ao sangue derramado por vós, presentes apenas na forma longa e em 1 Coríntios 11:25.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A liturgia da igreja primitiva por trás da fórmula compartilhada entre Lucas e 1 Coríntios 11 não é registrada em nenhum manuscrito bíblico; é reconstrução dos estudiosos de crítica textual a partir da comparação entre os dois textos.
- A tradição textual "ocidental" representada pelo Codex Bezae preserva uma forma de celebração da ceia com um só cálice, prática que não corresponde a nenhuma liturgia cristã majoritária conhecida fora desses manuscritos específicos.
Em palavras simples
Alguns manuscritos antigos e muito respeitados, como o Codex Vaticanus, trazem a versão completa das palavras de Jesus na última ceia, incluindo a parte sobre o cálice e o sangue derramado. Um grupo menor de cópias antigas, ligado à chamada tradição ocidental, traz uma versão mais curta, que para no pão e não menciona o cálice depois. Por muito tempo, alguns especialistas acharam que a versão curta era a original. Hoje, com mais manuscritos descobertos, quase todos os estudiosos preferem a versão longa, que é a que aparece na maioria das Bíblias atuais.
Aprofundamento
O termo técnico para esse fenômeno é não-interpolação ocidental, cunhado por B. F. Westcott e F. J. A. Hort em sua edição do Novo Testamento grego de 1881. A regra geral da crítica textual diz que, entre duas leituras concorrentes, a mais curta costuma ser a mais antiga, porque copistas tendem a acrescentar palavras, para harmonizar, explicar ou embelezar o texto, com muito mais frequência do que a cortá-las. Só que o texto ocidental, representado pelo Codex Bezae, é conhecido justamente pelo oposto: normalmente é o ramo textual mais expandido, cheio de acréscimos que não aparecem em nenhum outro lugar. Por isso, quando esse mesmo ramo aparece mais curto que todos os demais, como acontece em b-20 e em outros trechos de , Westcott e Hort acharam que valia a pena inverter a regra geral e apostar que, nesses pontos específicos, o texto ocidental preservou por acaso a forma mais primitiva, e que o texto mais longo teria entrado depois, talvez por influência litúrgica do relato de Paulo em , muito parecido com o final do versículo 19 e o versículo 20 de Lucas.
Essa hipótese teve peso real: por décadas, edições influentes do Novo Testamento grego e traduções como a primeira edição da RSV, de 1946, trataram o texto longo com desconfiança, relegando parte dele a nota de rodapé. O quadro mudou com a publicação, entre as décadas de 1950 e 1960, do papiro Bodmer P75, datado de cerca de 175 a 225 d.C., mais de um século antes do Codex Vaticanus. O P75 traz o texto longo de , mostrando que essa forma já circulava com muita antiguidade, e não era uma expansão tardia. Soma-se a isso o fato de que o texto longo também aparece no Codex Sinaítico, no Alexandrino, em praticamente toda a tradição bizantina posterior e na quase totalidade dos manuscritos conhecidos, deixando o texto curto como testemunho quase exclusivo do Codex Bezae e de um punhado de manuscritos da Vetus Latina.
Por esses motivos, comissões editoriais como as do Nestle-Aland e da United Bible Societies passaram a imprimir o texto longo no corpo principal, com nota de rodapé explicando a variante, postura seguida hoje pela grande maioria das traduções, incluindo praticamente todas as Bíblias em português. Alguns estudiosos, como Bart Ehrman, ainda levantam argumentos a favor do texto curto, ligados a debates sobre possíveis ajustes teológicos do texto no cristianismo primitivo, mas essa continua sendo uma posição minoritária diante do peso conjunto dos manuscritos mais antigos e numerosos.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Esse tipo de variante prova que tiraram versículos da Bíblia de propósito.
Não há evidência de manipulação deliberada. É uma diferença normal entre famílias de manuscritos copiados à mão, do tipo que a crítica textual identifica e discute abertamente há séculos, e neste caso é o texto mais completo, não o mais curto, que a imensa maioria dos manuscritos e o papiro P75 confirmam como original.
Dizem que:Quanto mais antigo o manuscrito, mais confiável ele é sempre, então o texto curto do Codex Bezae deveria vencer.
A idade de um manuscrito é só um dos critérios usados na crítica textual; conta também o número e a diversidade de testemunhas independentes e o comportamento conhecido de cada tradição de cópia. Aqui o texto curto aparece isolado numa única linha de transmissão, enquanto o texto longo é confirmado por manuscritos tão antigos quanto ou mais antigos que o Bezae, de origens geográficas diferentes.
Dizem que:Essa variante muda a doutrina cristã sobre a ceia do Senhor.
Mesmo quem seguisse o texto curto de Lucas ainda teria o relato completo, com corpo e sangue, nos paralelos de , e . A variante afeta apenas quantas vezes esse conteúdo aparece dentro do evangelho de Lucas, não se ele está presente no Novo Testamento como um todo.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo
Lê isto é o meu corpo e este cálice é o novo testamento em meu sangue como palavras que operam a transubstanciação do pão e do vinho, o que torna a integridade do texto longo de especialmente relevante para as palavras da consagração na missa.
Ortodoxia Oriental
Entende as mesmas palavras como instituição de um mistério sacramental real, sem definir o mecanismo com a linguagem filosófica do catolicismo latino, e emprega o texto longo integralmente na anáfora da Divina Liturgia.
Tradição Reformada
Segue a linha de Calvino, lendo em memória de mim e novo testamento em meu sangue como sinais de uma presença espiritual real de Cristo na ceia, que une o crente a ele pela fé, sem afirmar mudança física nos elementos.
Tradição Batista e Evangélica memorialista
Segue a linha de Zwínglio, lendo fazei isto em memória de mim como o núcleo do texto: a ceia é sobretudo um ato de lembrança e proclamação da morte de Cristo, não veículo de uma presença sacramental distinta da fé de quem participa.
O que fazer com isso
Esse caso ensina que decidir qual palavra é original num manuscrito antigo não é questão de contar quantas cópias dizem uma coisa ou outra, mas de pesar a idade, a origem e o comportamento típico de cada família de manuscritos. Também mostra que uma nota de rodapé sobre variante textual não é sinal de fragilidade do texto bíblico, e sim prova de que ele foi transmitido com cuidado suficiente para que diferenças de poucas palavras ainda pudessem ser identificadas e discutidas dois mil anos depois.
Fontes consultadas5 obras
- Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
- B. F. Westcott e F. J. A. Hort. The New Testament in the Original Greek, 1881.
- Kurt Aland e Barbara Aland. The Text of the New Testament: An Introduction to the Critical Editions, 1989.
- Philip Comfort. New Testament Text and Translation Commentary, 2008.
- Bart D. Ehrman. The Orthodox Corruption of Scripture, 1993.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que é uma não-interpolação ocidental?
É o nome dado por Westcott e Hort a um pequeno grupo de trechos do Novo Testamento, a maioria em e este caso de , em que o texto ocidental, normalmente conhecido por acrescentar palavras, aparece mais curto que os demais manuscritos. Eles defenderam que, nesses pontos raros, o texto curto seria o original.
O Codex Vaticanus tem o texto curto ou o longo de Lucas 22:19-20?
Tem o texto longo, com o versículo 19 completo e todo o versículo 20 sobre o cálice e o novo testamento no sangue de Jesus, a mesma forma que aparece na maioria esmagadora dos manuscritos gregos e nas Bíblias atuais.
Isso significa que a Bíblia tem erros de cópia?
Significa que ela foi copiada à mão por séculos, como qualquer texto antigo, e que pequenas diferenças entre cópias existem e são estudadas abertamente. Nenhuma delas muda o relato central da última ceia, presente de forma completa em pelo menos três outras passagens do Novo Testamento.
Por que os estudiosos mudaram de ideia sobre esse texto?
A descoberta do papiro P75, do início do século III, mostrou que o texto longo já existia muito antes do que se imaginava no século XIX, quando a teoria da não-interpolação foi proposta. Isso, somado ao apoio maciço de outros manuscritos antigos, fez a maioria dos críticos textuais hoje preferir o texto longo.
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