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Significado Bíblico
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João 19 e o Evangelho de Pedro na cruz

O Evangelho de Pedro conta a crucificação de um jeito diferente da Bíblia?

Resposta curta

narra, em tom quase de depoimento em tribunal, o instante final da crucificação: os soldados não quebram as pernas de Jesus porque ele já está morto, mas um deles perfura seu lado com uma lança, e saem sangue e água. O evangelista liga os dois detalhes ao cumprimento de Escrituras antigas e chama a testemunha ocular de confiável.

O Evangelho de Pedro, apócrifo do fim do século II preservado só no fragmento de Akhmim, achado no Egito em 1886-1887, narra a mesma crucificação de um jeito bem diferente: quem tem as pernas poupadas não é Jesus, mas um dos dois criminosos ao lado dele — para prolongar seu sofrimento. Jesus morre em silêncio, como se não sentisse dor, e o texto só diz que foi levado depois de clamar por seu poder.

O que diz Evangelho de Pedro

Evangelho de Pedro, relato da crucificação

O Evangelho de Pedro é um relato apócrifo da paixão e do início da ressurreição de Jesus, escrito, segundo a maioria dos estudiosos, entre c. 150 e 190 d.C. — décadas depois dos quatro evangelhos canônicos, e é o mais discutido entre os relatos da paixão que ficaram fora do Novo Testamento. Ele sobrevive quase só através do chamado fragmento de Akhmim: um caderno de pergaminho encontrado no túmulo de um monge em Akhmim, no Alto Egito, durante escavações da missão arqueológica francesa no inverno de 1886-1887, e publicado pela primeira vez pelo egiptólogo Urbain Bouriant em 1892. O manuscrito que restou é uma cópia tardia, provavelmente dos séculos VIII-IX, de um texto bem mais antigo, e chegou incompleto: faltam o início e o fim.

Sabemos que o Evangelho de Pedro circulou de fato entre cristãos porque o historiador Eusébio de Cesareia registra, em sua História Eclesiástica, um episódio concreto: por volta do ano 200, o bispo Serápion de Antioquia soube que era lido numa igreja da Síria, em Rossos, e a princípio permitiu, sem tê-lo examinado a fundo. Ao investigar melhor, percebeu que o texto era usado por um grupo que negava a humanidade plena de Jesus, os chamados docetistas, e revogou a permissão. Esse episódio mostra que a rejeição do texto não foi um segredo eclesiástico, mas uma decisão pastoral documentada e justificada, tomada por um bispo que primeiro leu, depois julgou.

O fragmento sobrevivente cobre da cena em que Pilatos lava as mãos até o início de uma aparição de Jesus na Galileia, interrompendo-se no meio de uma frase. Nenhuma tradição cristã — católica, ortodoxa ou protestante — considera o Evangelho de Pedro canônico; mesmo igrejas com cânones mais amplos, como a Igreja Ortodoxa Etíope, não o incluem. Ele é estudado hoje como uma fonte valiosa para entender como comunidades cristãs do século II reimaginavam e dramatizavam a paixão de Jesus, não como um relato histórico concorrente ao dos quatro evangelhos.

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O que diz a Bíblia

Os Judeus pois, para que os corpos não ficassem no sábado na cruz, pois era a preparação (porque era o grande dia do Sábado), suplicaram a Pilatos que as pernas deles fossem quebradas, e fossem tirados. Vieram pois os soldados, e na verdade quebraram as pernas do primeiro, e do outro, que fora crucificado com ele. Mas vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não quebraram as suas pernas. Mas um dos soldados lhe furou com uma lança o lado, e logo saiu sangue e água. E o que viu isto, o testemunhou; e seu testemunho é verdadeiro, e sabe que é verdade o que diz, para que vós também creiais. Porque estas coisas aconteceram para que se cumprisse a Escritura que diz: Osso dele não será quebrado. E além disso, outra Escritura diz: Verão aquele a quem perfuraram.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Os dois textos situam a cena no mesmo ponto da narrativa da paixão: depois da morte de Jesus na cruz e antes do sepultamento, com a preocupação prática de retirar os corpos.
  • Ambos supõem a mesma convenção romana de quebrar as pernas dos crucificados (crurifrágio) para apressar a morte antes de um dia de descanso religioso — em João, o sábado que se aproximava (19:31); o Evangelho de Pedro também registra a pressa em retirar o corpo antes do anoitecer, ecoando a mesma base legal de Deuteronômio 21:22-23 sobre não deixar um executado exposto durante a noite.
  • Os dois relatos concordam que dois outros homens foram crucificados ao lado de Jesus.

Onde divergem

  • Em João, é Jesus quem não tem as pernas quebradas, por já estar morto — cumprindo profecia; no Evangelho de Pedro, é um dos dois criminosos crucificados ao lado dele quem tem as pernas poupadas, mas com propósito oposto: para que morresse com mais sofrimento, não por misericórdia.
  • O Evangelho de Pedro atribui a Herodes, e não a Pilatos, o comando efetivo de entregar Jesus à multidão para a crucificação, enquanto Pilatos lava as mãos e é isentado de culpa — deslocamento de responsabilidade ausente do relato de João.
  • João apresenta a perfuração do lado, com saída de sangue e água, como prova física e testemunhada de que Jesus morreu de fato; o Evangelho de Pedro narra a morte com o clamor "meu poder, meu poder, por que me abandonaste" seguido apenas de "foi levado", ênfase que aponta para outra direção teológica.
  • João ancora os dois detalhes da cena (ossos intactos, lado perfurado) a citações explícitas do Antigo Testamento; o fragmento sobrevivente do Evangelho de Pedro não faz esse tipo de citação de cumprimento profético na cena da cruz.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • A frase de Jesus na cruz é "meu poder, meu poder, por que me abandonaste", não "meu Deus, meu Deus".
  • Depois do clamor, o texto diz apenas que Jesus "foi levado", sem declarar sua morte de modo direto.
  • Jesus permanece em silêncio durante toda a crucificação, "como se não sentisse dor".
  • O criminoso que defende Jesus tem as pernas poupadas para morrer com mais sofrimento, não por misericórdia.
  • É Herodes, e não Pilatos, quem ordena a entrega de Jesus para a crucificação; Pilatos lava as mãos e se retira da cena.
Em palavras simples

João conta que os soldados não quebraram as pernas de Jesus, já morto, mas um deles furou seu lado com uma lança, e o evangelista liga isso ao cumprimento de profecias antigas. Um livro que nunca entrou na Bíblia, o Evangelho de Pedro, escrito décadas depois, conta a mesma cena de outro jeito: é um dos ladrões que não tem as pernas quebradas, para sofrer mais, e Jesus morre em silêncio, sem parecer sentir dor.

Aprofundamento

A comparação entre e a cena equivalente no Evangelho de Pedro revela dois modos muito diferentes de narrar o mesmo momento. João escreve como quem presta contas: descreve a ação dos soldados com verbos secos, cita a fonte — "o que viu isto, o testemunhou" — e amarra dois detalhes físicos, os ossos intactos e o lado perfurado, a duas passagens específicas do Antigo Testamento: a instrução sobre o cordeiro pascal, em e , e a profecia de sobre "aquele a quem perfuraram". É um texto preocupado em estabelecer que aquilo realmente aconteceu, com testemunha nomeável.

O Evangelho de Pedro trata o mesmo momento com liberdade literária bem maior. A convenção romana de quebrar as pernas dos crucificados para acelerar a morte, o crurifrágio, aparece nos dois textos, mas com papéis invertidos: em João, poupar as pernas de Jesus é reconhecer que ele já morrera; no apócrifo, poupar as pernas do criminoso arrependido é um ato de crueldade calculada, para que ele sofresse por mais tempo. A morte de Jesus também é narrada de outro jeito: ele permanece em silêncio durante toda a cena, como se não sentisse dor, e ao final clama "meu poder, meu poder, por que me abandonaste" — não "meu Deus, meu Deus" — sendo então apenas dito que "foi levado". Essa linguagem, para muitos estudiosos, sugere uma leitura em que algo divino, "o poder", se retira do corpo antes da morte física, exatamente o tipo de ideia que preocupou o bispo Serápion.

Vale notar que os dois textos não são mundos totalmente à parte: o Evangelho de Pedro também registra uma preocupação legal parecida com a de , a pressa para retirar o corpo antes do anoitecer, ecoando a norma de sobre não deixar um executado exposto durante a noite, e mantém a mesma cena básica de dois criminosos crucificados ao lado de Jesus. A diferença não está no cenário, mas no que cada autor escolhe iluminar dentro dele.

Uma leitura equilibrada não trata o Evangelho de Pedro como uma versão alternativa que compete com João em valor histórico, nem como uma fraude a ser descartada com desprezo. A maioria dos especialistas, como Bart Ehrman e Paul Foster, o entende como uma releitura teológica tardia, provavelmente dependente das tradições que já circulavam nos evangelhos canônicos, elaborada por uma comunidade que queria acentuar certos temas — a inocência de Pilatos, a grandiosidade sobre-humana de Jesus — que não interessavam do mesmo modo aos quatro evangelhos. Isso não o torna sem valor: é uma janela real para como um grupo cristão do século II imaginava e recontava a cruz, só não é uma segunda testemunha ocular independente daquele instante histórico.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O Evangelho de Pedro foi escrito pelo apóstolo Pedro.

    É um texto pseudonímico do século II; a autoatribuição a Pedro na primeira pessoa, que aparece na parte final do fragmento, é um recurso literário comum na literatura apócrifa da época, não um registro de autoria real.

  • Dizem que:Documentos como o Evangelho de Pedro foram escondidos ou censurados em segredo pela Igreja para ocultar a verdade sobre Jesus.

    Sabemos da existência e da rejeição do texto justamente porque o processo foi público e documentado: Eusébio de Cesareia registra que o bispo Serápion o leu, investigou e só depois vetou sua leitura litúrgica, explicando o motivo.

  • Dizem que:O relato do Evangelho de Pedro prova que a crucificação de Jesus é uma lenda tardia inventada pela Igreja.

    O texto pressupõe e elabora sobre uma narrativa de crucificação já conhecida e aceita por seus leitores; ele dramatiza um evento tido como certo, não inventa a base histórica da crucificação.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Tradição patrística (Serápion de Antioquia)

    Inicialmente permitiu a leitura do texto por respeito à comunidade que o usava, mas reverteu a decisão ao constatar que grupos docetistas o empregavam para negar a humanidade real de Jesus — um julgamento pastoral concreto, não uma rejeição automática.

  • Catolicismo

    Trata o Evangelho de Pedro como apócrifo, sem autoridade canônica, mas de interesse histórico para reconstruir como certas comunidades cristãs do século II liam e reelaboravam a paixão.

  • Ortodoxia Oriental

    Também o considera não canônico; valoriza-o como testemunho de tradições populares antigas em torno da paixão, sem lhe atribuir peso doutrinário.

  • Protestantismo

    Enfatiza o cânon fechado das Escrituras e lê o Evangelho de Pedro como documento puramente histórico, frequentemente citando seus traços docetizantes como exemplo do motivo pelo qual a igreja antiga o excluiu.

O que fazer com isso

Ao encontrar um texto como o Evangelho de Pedro, vale perguntar o que ele é antes de perguntar se ele bate com a Bíblia: um relato posterior, de outra comunidade, com outra intenção teológica. Isso não desqualifica seu valor histórico, mostra como cristãos do século II liam a paixão, nem serve para duvidar do relato canônico. Ler fontes extrabíblicas com essa distinção evita tanto o sensacionalismo de tratá-las como revelação escondida quanto o descarte de que nada fora do cânone merece atenção.

Fontes consultadas4 obras
  • Bart D. Ehrman. Lost Scriptures: Books that Did Not Make It into the New Testament, 2003.
  • Paul Foster. The Gospel of Peter: Introduction, Critical Edition and Commentary, 2010.
  • J. K. Elliott. The Apocryphal New Testament, 1993.
  • Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, livro VI, 325.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Evangelho de Pedro é mais antigo que os evangelhos canônicos?

Não. A maioria dos estudiosos o data de c. 150-190 d.C., décadas depois dos quatro evangelhos do Novo Testamento, e o veem como dependente das tradições que já circulavam neles. Uma hipótese minoritária, de John Dominic Crossan, propõe uma fonte anterior por trás do relato da crucificação, mas não é a posição predominante.

A Igreja escondeu o Evangelho de Pedro dos fiéis?

Não. Ele foi lido abertamente numa igreja da Síria por volta do ano 200, até o bispo Serápion de Antioquia investigá-lo e proibir sua leitura ao perceber que grupos docetistas o usavam para negar a humanidade real de Jesus. O episódio é registrado abertamente por Eusébio de Cesareia.

Por que o soldado perfurou o lado de Jesus, segundo João?

O texto liga o gesto ao cumprimento da profecia de ("verão aquele a quem perfuraram"), e a preservação dos ossos intactos à figura do cordeiro pascal de .

Alguma igreja considera o Evangelho de Pedro parte da Bíblia?

Não. Nenhuma tradição cristã — católica, ortodoxa ou protestante — o inclui em seu cânon. Mesmo a Igreja Ortodoxa Etíope, que reconhece um cânon mais amplo, incluindo Enoque e Jubileus, não considera o Evangelho de Pedro Escritura.

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Publicado em 05/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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