O escriba de Jeremias e a bula que leva seu nome
Foi encontrado o selo do escriba Baruque, de Jeremias?
Resposta curta
Em , o profeta chama Baruque, filho de Nerias, para registrar por escrito, num rolo, todas as palavras que o SENHOR lhe havia falado. Baruque aparece ali como escriba profissional, o letrado que transforma a palavra ditada em texto duradouro — papel que volta a exercer nos capítulos 32, 43 e 45 do mesmo livro.
Décadas depois desse relato, uma pequena bula de argila — a marca que um selo deixava sobre o barro usado para lacrar documentos de papiro — surgiu no mercado de antiguidades nos anos 1970 trazendo a inscrição "pertencente a Berequias, filho de Nerias, o escriba". Nome completo, filiação e ofício coincidem com o texto bíblico, mas a peça não vem de escavação controlada, o que pede prudência antes de tratá-la como retrato físico do próprio Baruque.
O que diz Selo de Baruque, Filho de Nerias
Bula de Baruque, filho de Nerias
narra um episódio datado do quarto ano de Jeoaquim, rei de Judá (c. 605 a.C.). Deus manda Jeremias registrar por escrito tudo o que havia profetizado até então, como último apelo antes do desastre nacional que se aproximava. Impedido de ir ao templo, o profeta chama Baruque, filho de Nerias, para escrever "da boca de Jeremias" o conteúdo do rolo (v. 4) e depois o envia para lê-lo publicamente. Quando o rei Jeoaquim ouve o texto, corta e queima o rolo coluna por coluna; Jeremias então dita tudo de novo a Baruque, que acrescenta ainda mais palavras (v. 32). Baruque volta a aparecer como companheiro e escriba do profeta em :3-6 e 45:1-5, sempre no mesmo papel de registrar, ler e preservar as palavras de Jeremias em tempos de crise.
No mundo administrativo de Judá daquela época, documentos de papiro eram amarrados com um cordão e lacrados com um pedaço de argila mole, no qual se pressionava um selo pessoal com o nome do dono — a "bula". Depois de seca ou queimada, a argila preservava essa marca mesmo quando o papiro já havia se deteriorado havia muito tempo. Foi exatamente esse tipo de objeto que, a partir de 1978, o epigrafista Nahman Avigad publicou como parte de um grupo de bulas atribuídas a oficiais da corte de Jeoaquim, incluindo uma com a inscrição "pertencente a Berequias, filho de Nerias, o escriba" — a forma plena do nome que a Bíblia abrevia como Baruque. Essas bulas não vieram de escavação: chegaram ao mercado de antiguidades de Jerusalém e Belém na década de 1970, sem estrato arqueológico documentado, o que separa esse achado de peças como a bula de Gemarias, filho de Safã — outro escriba citado no mesmo capítulo () —, essa sim recuperada em escavação controlada na Cidade de Davi.
O que diz a Bíblia
Então Jeremias chamou a Baruque, filho de Nerias; e Baruque escreveu da boca de Jeremias, em um rolo de livro, todas as palavras que o SENHOR havia lhe falado.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- O nome do escriba — Baruque, forma curta de Berequias, filho de Nerias — corresponde exatamente à leitura da bula: "pertencente a Berequias, filho de Nerias, o escriba".
- A bula registra o mesmo ofício que o texto atribui a ele: hspr, "o escriba", a mesma função que Jeremias 36:4 descreve Baruque exercendo ao registrar o ditado do profeta.
- A datação paleográfica da escrita hebraica da bula, típica do fim do reino de Judá (séculos VII-VI a.C.), é compatível com o período em que Jeremias 36 situa o episódio (reinado de Jeoaquim, c. 605 a.C.).
- A bula pertence a um grupo maior de impressões de selo, publicadas a partir de 1978, que trazem nomes de outros oficiais citados no mesmo capítulo de Jeremias, como Jerameel, filho do rei (Jeremias 36:26), sugerindo um ambiente real de escribas da corte de Judá por trás dos nomes do relato.
Onde divergem
- A bula não foi encontrada em escavação controlada: veio do mercado de antiguidades de Jerusalém e Belém nos anos 1970, sem estrato, camada de destruição ou contexto de achado documentado — o que Jeremias 36 não precisa, por ser um relato de composição textual, mas que a arqueologia normalmente exige para atestar proveniência com segurança.
- Uma segunda impressão do mesmo selo, divulgada em 1996, trouxe ao lado da inscrição uma marca interpretada por alguns como a impressão digital do próprio Baruque — leitura sugestiva que a maioria dos epigrafistas trata como não verificável, e não como um dado confirmado pelo achado.
- A onda de falsificações de inscrições e selos hebraicos não escavados, exposta a partir de 2003 em Israel num processo judicial que envolveu peças como o ossuário de Tiago e a Tábua de Joás, tornou epigrafistas como Christopher Rollston mais cautelosos com toda peça sem proveniência do mesmo mercado e período — ainda que a bula de Berequias não tenha sido formalmente incluída entre as peças acusadas.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A grafia exata em hebraico paleo-quadrático da bula, "lbrkyhw bn nryhw hspr", usando a forma plena do nome (Berequias/Berekhyahu) em vez da forma abreviada (Baruque) do texto bíblico.
- O objeto físico em si: um pequeno disco de argila endurecida, com marca de selo e cordão, que servia para lacrar um documento de papiro — um tipo de vestígio material que a Bíblia pressupõe, mas não descreve.
- A hipótese de que a bula faz parte de um arquivo administrativo maior, incendiado em Jerusalém, talvez na destruição babilônica de 586 a.C. — uma reconstrução de contexto proposta pelos próprios editores da coleção, que não pode ser confirmada sem escavação.
- A marca interpretada, em 1996, como possível impressão digital de quem selou o documento — um detalhe que não existe em nenhuma versão do texto bíblico.
Em palavras simples
conta que o profeta ditou suas mensagens a Baruque, seu escriba, que as escreveu num rolo. Já se encontrou, fora da Bíblia, uma pequena peça de argila usada para lacrar cartas com o nome "Berequias, filho de Nerias, o escriba" — o mesmo nome, mesmo pai, mesma profissão de Baruque. A coincidência chama atenção, mas essa peça surgiu do comércio de antiguidades, sem escavação documentada, então não dá para afirmar com certeza que pertenceu a ele mesmo.
Aprofundamento
A inscrição da bula, lida da direita para a esquerda em hebraico paleo-quadrático, diz "lbrkyhw bn nryhw hspr" — "pertencente a Berequias, filho de Nerias, o escriba". Berequias (Berekhyahu, "Bendito por Yah") é a forma plena do nome que o texto bíblico regularmente abrevia como Baruque; a prática de encurtar nomes teofóricos era comum no hebraico da época, então a diferença de forma não enfraquece a identificação — ao contrário, é o padrão esperado entre um documento oficial, que preferia a forma cheia, e a narrativa, que usava o apelido corrente.
Nahman Avigad publicou a primeira dessas impressões em 1978, num artigo que também apresentava uma bula atribuída a "Jerameel, filho do rei" — outro nome do mesmo capítulo de Jeremias (36:26). Avigad reuniu essas peças, junto com centenas de outras impressões de selo sem procedência declarada, num corpus que chamou de "arquivo queimado", supondo que pertenceriam a um depósito administrativo de Jerusalém destruído por fogo — talvez na tomada babilônica de 586 a.C., já que o calor do incêndio é o que costuma endurecer e preservar a argila crua. Essa reconstrução de origem, porém, é uma inferência dos próprios editores, não um dado de escavação: nenhuma dessas bulas foi escavada por uma equipe arqueológica documentando estrato, camada ou local exato de achado.
Em 1996, uma segunda impressão do que parecia ser o mesmo selo — mesmo texto, mesmas rachaduras no desenho — apareceu em outra coleção particular e foi divulgada com grande repercussão por trazer, ao lado da inscrição, o que se interpretou como a marca de uma impressão digital. A revista Biblical Archaeology Review noticiou o achado sugerindo que se tratava, possivelmente, da própria digital de Baruque, gravada sem querer quando ele pressionou o selo na argila mole. É uma possibilidade genuína, mas não verificável: não há como comparar essa marca a nenhum outro registro do escriba, nem confirmar que a impressão veio de um dedo humano e não de um defeito de fabricação ou manuseio posterior da peça. Epigrafistas como Christopher Rollston passaram a defender publicamente mais cautela com todo esse grupo de bulas sem proveniência, sobretudo depois que o mercado de antiguidades israelense foi abalado, a partir de 2003, por um processo judicial sobre falsificações de peças do mesmo período — o que não significa que a bula de Berequias tenha sido incluída entre as acusadas, mas reforça por que a origem não escavada continua sendo o ponto mais frágil de um achado que, sob todos os outros aspectos, se encaixa bem no retrato bíblico do escriba de Jeremias.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A bula foi encontrada numa escavação arqueológica junto com outros objetos do templo de Jerusalém.
As bulas atribuídas a Berequias, filho de Nerias, surgiram no mercado de antiguidades de Jerusalém e Belém nos anos 1970, adquiridas de negociantes por Nahman Avigad e outros, e não em nenhuma escavação arqueológica documentada, muito menos ligada ao templo.
Dizem que:Já está confirmado que essa bula traz a impressão digital de Baruque, o escriba de Jeremias.
A marca ao lado da inscrição, divulgada em 1996, é uma leitura possível, mas não confirmada por análise independente; não há como comparar essa marca a nenhum outro registro do próprio Baruque para atestar de quem ela é.
Como diferentes tradições leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Tradição evangélica conservadora
Costuma valorizar a coincidência de nome, filiação e ofício como um sinal significativo de que o elenco de reflete pessoas reais da corte de Judá, ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade de cautela por causa da origem não escavada da peça.
Tradição católica
Recebe achados como este como ilustrações históricas interessantes, mas secundárias: a autoridade do relato de Jeremias, para essa tradição, repousa na Escritura recebida dentro da Tradição da Igreja, não na confirmação de um artefato de museu ou coleção particular.
Tradição protestante histórico-crítica
Tende a isolar com mais rigor o que é dado epigráfico verificável (a leitura do nome e do ofício) do que é especulação de origem (o suposto 'arquivo queimado', a impressão digital), evitando conclusões que a peça, por si só, não sustenta.
O que fazer com isso
Ler esse tipo de achado pede duas travas ao mesmo tempo: reconhecer que a coincidência de nome, filiação e ofício é real e notável, e lembrar que uma peça sem escavação controlada nunca alcança o mesmo grau de certeza que um artefato achado em estrato documentado. O equilíbrio maduro não é declarar "isto é o selo de Baruque" nem descartar a semelhança como irrelevante, mas guardar a incerteza junto com o dado.
Fontes consultadas4 obras
- Nahman Avigad. Baruch the Scribe and Jerahmeel the King's Son (Israel Exploration Journal 28), 1978.
- Nahman Avigad. Hebrew Bullae from the Time of Jeremiah: Remnants of a Burnt Archive, 1986.
- Yigal Shiloh. Escavações da Cidade de Davi (relatórios Qedem/City of David I-VII), 1984.
- Christopher Rollston. Non-Provenanced Epigraphs and Northwest Semitic Palaeography (Maarav), 2003.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
A bula prova que Baruque, o escriba de Jeremias, existiu de verdade?
Ela mostra que um nome, uma filiação e um ofício idênticos aos de circulavam entre escribas da mesma época em Judá, o que é uma coincidência forte. Mas como a peça não vem de escavação controlada, ela não chega a funcionar como prova documental de que se trata do mesmo indivíduo do relato bíblico.
É verdade que encontraram a impressão digital de Baruque?
Uma das duas bulas atribuídas a Berequias, filho de Nerias, traz uma marca ao lado da inscrição que foi interpretada, em 1996, como possível impressão digital de quem selou o documento. É uma leitura sugestiva, mas não verificável, e não deve ser tratada como confirmada.
Por que a origem da bula sem escavação é um problema?
Sem escavação documentada, não há como situar a peça num estrato, numa data segura por contexto ou num local de achado verificável — o que abre espaço para dúvidas, ainda que a maioria dos epigrafistas considere a escrita e a argila compatíveis com o período de Jeremias.
Existem outras bulas de pessoas de Jeremias 36 achadas em escavação de verdade?
Sim. A bula de Gemarias, filho de Safã — o escriba citado em — foi recuperada em escavação controlada na Cidade de Davi, o que dá a esse achado um grau de certeza que a bula de Berequias não tem.
Passagens relacionadas
Temas
- #baruque
- #selo
- #bula
- #jeremias
- #arqueologia
- #escriba
- #fora-da-biblia
- #nahman-avigad