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Significado Bíblico
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Instruções de construção: a arca e o barco de Utnapishtim

A arca de Noé foi construída do mesmo jeito que o barco de Utnapishtim em Gilgamesh?

Resposta curta

traz instruções técnicas de Deus a Noé: madeira de gôfer, compartimentos internos, calafetagem com betume por dentro e por fora, medidas de trezentos por cinquenta por trinta côvados e três pisos. A Tábua XI do Épico de Gilgamesh registra instruções parecidas, dadas pelo deus Ea a Utnapishtim: um barco calafetado com betume e piche, com medidas em côvados e vários pisos internos.

As duas listas compartilham vocabulário técnico de construção naval antiga - madeira, calafetagem, compartimentos, medidas em côvados -, mas descrevem embarcações de formatos opostos: uma caixa alongada e estável contra um cubo monumental de lado igual a cento e vinte côvados. A semelhança de vocabulário não indica cópia de um relato pelo outro; mostra duas tradições usando a linguagem comum da engenharia naval do Antigo Oriente Médio para propósitos e proporções bem diferentes.

O que diz Tabuinha do Dilúvio (Épico de Gilgamesh, Tábua XI)

Épico de Gilgamesh, Tábua XI, as instruções de construção do barco

A instrução de construção em é dada diretamente por Deus a Noé, sem intermediários e sem menção a operários ou artesãos: madeira de gôfer (עֲצֵי־גֹפֶר, termo hebraico raro cujo significado exato - provavelmente uma conífera resinosa como o cipreste - é discutido entre os hebraístas), compartimentos ("aposentos", do hebraico qinnim, literalmente "ninhos" ou câmaras), calafetagem com "betume" (kofer, palavra da mesma raiz de "kipur", expiação) por dentro e por fora, e as medidas precisas de trezentos côvados de comprimento, cinquenta de largura e trinta de altura - uma caixa retangular alongada, sem qualquer menção a mastro, remo ou vela, porque a embarcação não precisa navegar, apenas flutuar e resistir.

A cena equivalente na Tábua XI do Épico de Gilgamesh ocorre quando Utnapishtim conta a Gilgamesh como sobreviveu ao dilúvio. O deus Ea, proibido pelo conselho divino de revelar diretamente o plano de destruição, fala através da parede de junco da casa de Utnapishtim e instrui: derrubar a casa, construir um barco, abandonar riquezas e salvar a vida, embarcando "a semente de todo ser vivo". As instruções técnicas que seguem - dimensões, calafetagem, número de pisos - são tão detalhadas quanto as de Gênesis, mas descrevem um objeto de geometria muito diferente: um casco de planta quadrada, com lados de cerca de cento e vinte côvados (a mesma medida para comprimento, largura e altura, segundo a tradução padrão de Andrew George e de A. Heidel), dividido em sete níveis (seis decks internos) e nove compartimentos por nível, calafetado com kupru (betume) por dentro e iddû (piche) por fora, além de óleo.

Essa cópia da Tábua XI veio da biblioteca do rei assírio Assurbanípal, em Nínive, e data de cerca do século VII a.C., embora a tradição do dilúvio mesopotâmico seja bem mais antiga, remontando ao Épico de Atrahasis (c. século XVIII a.C.) e a tradições sumérias anteriores. A comparação entre as duas listas de instruções interessa porque ambas seguem um padrão comum de "receita técnica" divina para construção de uma embarcação de sobrevivência - um gênero narrativo compartilhado no Antigo Oriente Médio -, mas cada uma resolve os detalhes de forma independente, coerente com a lógica interna de sua própria tradição religiosa e literária.

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O que diz a Bíblia

Faze-te uma arca de madeira de gôfer: farás aposentos na arca e a selarás com betume por dentro e por fora. E desta maneira a farás: de trezentos côvados o comprimento da arca, de cinquenta côvados sua largura, e de trinta côvados sua altura. Uma janela farás à arca, e a acabarás a um côvado de elevação pela parte de cima: e porás a porta da arca a seu lado; e lhe farás piso abaixo, segundo e terceiro.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Ambos os relatos dão instruções de vedação com betume por dentro e por fora: Gênesis 6:14 manda "selar" a arca com betume (kofer); a Tábua XI descreve Utnapishtim aplicando kupru (betume) por dentro e iddû (piche) por fora.
  • Os dois textos preveem compartimentos internos na embarcação: Gênesis 6:14 fala em "aposentos" (qinnim) dentro da arca; a Tábua XI detalha nove compartimentos em cada um dos sete pisos do barco.
  • As duas embarcações recebem múltiplos pisos internos por instrução divina: Gênesis 6:16 pede piso inferior, segundo e terceiro andar (três níveis); a Tábua XI descreve seis decks divisórios, resultando em sete níveis.
  • Ambos os textos especificam as dimensões da embarcação em côvados por ordem direta de uma divindade: Gênesis 6:15 dá trezentos por cinquenta por trinta côvados; a Tábua XI dá um lado de cerca de cento e vinte côvados para o barco cúbico.
  • Os dois relatos mencionam uma abertura de acesso à embarcação: Gênesis 6:16 pede uma porta lateral ("a porta da arca a seu lado"); a Tábua XI também descreve uma entrada selada depois do embarque, usada posteriormente para soltar as aves.

Onde divergem

  • A geometria das duas embarcações é oposta: a arca de Gênesis é uma caixa retangular alongada (300x50x30 côvados, proporção 10:1 entre comprimento e largura); o barco de Utnapishtim é descrito como um cubo perfeito, com comprimento, largura e altura iguais a cerca de cento e vinte côvados.
  • O número de pisos difere: Gênesis pede três andares (6:16); a Tábua XI descreve sete níveis internos (seis decks), quase o dobro da compartimentação vertical.
  • O processo de calafetagem é mais elaborado na Tábua XI, que distingue duas substâncias (kupru por dentro, iddû por fora) e menciona o uso adicional de óleo pelos calafates; Gênesis usa um único termo, kofer, sem detalhar quantidades ou etapas.
  • Gênesis especifica uma abertura de luz - a "janela" (tsohar) acabada a um côvado do topo (6:16) -, elemento sem equivalente claro nas instruções de construção da Tábua XI, que só menciona uma abertura na fase posterior de soltar as aves.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • O recrutamento de carpinteiros, construtores de cordas e outros artesãos da cidade para erguer o barco de Utnapishtim, com direito a distribuição de bebida e comida aos trabalhadores como em dia de festa, não tem equivalente em Gênesis, que não narra o processo de construção, apenas a instrução recebida por Noé.
  • A conclusão da obra em sete dias, apresentada na Tábua XI como sinal do favor divino sobre a empreitada, é um detalhe exclusivo da tradição mesopotâmica; Gênesis não informa quanto tempo levou a construção da arca.
  • As quantidades específicas de betume, piche e óleo usadas na calafetagem do barco de Utnapishtim, mencionadas na Tábua XI, não têm equivalente numérico em Gênesis, que apenas ordena a aplicação de betume sem quantificá-la.
Em palavras simples

Deus dá a Noé uma lista de instruções para construir a arca: que madeira usar, como vedar com betume, o tamanho exato e como dividir os andares. Na história de Gilgamesh, o deus Ea dá instruções parecidas a Utnapishtim para construir seu barco: também manda vedar com betume, também dá medidas exatas e também pede vários andares internos. A diferença grande está na forma: a arca de Noé é uma caixa comprida, enquanto o barco de Utnapishtim é descrito como um cubo enorme, quase do tamanho de um quarteirão.

Aprofundamento

O ponto de maior semelhança entre as duas passagens é o vocabulário técnico da vedação. manda Noé "selar" a arca com "betume" (kofer) por dentro e por fora; a Tábua XI descreve Utnapishtim aplicando kupru (betume) pelo lado de dentro e iddû (piche ou asfalto, uma substância distinta) pelo lado de fora, além de óleo usado pelos calafates - um processo mais elaborado, com quantidades específicas de material mencionadas no poema. Os dois textos também compartilham a ideia de compartimentação interna: Gênesis fala em "aposentos" (qinnim) dentro da arca, sem especificar quantos; a Tábua XI é mais detalhada, dividindo cada um dos sete pisos do barco em nove compartimentos, o que resulta em sessenta e três câmaras internas ao todo. Ambos os relatos também dão medidas exatas em côvados por ordem direta de uma divindade, um recurso que confere autoridade técnica à instrução recebida.

A divergência mais visível é a geometria da embarcação. A arca de Gênesis é uma caixa alongada - trezentos côvados de comprimento por cinquenta de largura por trinta de altura, proporção de dez para um entre comprimento e largura -, um formato que os arquitetos navais reconhecem como estável para flutuar sem afundar, mas incapaz de ser dirigida como navio. O barco de Utnapishtim, ao contrário, é descrito com comprimento, largura e altura iguais, formando um cubo de lado próximo a cento e vinte côvados (cerca de sessenta metros, segundo a tradução corrente de Andrew George) - uma forma sem qualquer função hidrodinâmica, adequada apenas para flutuar em bloco, o que alguns assiriólogos, como Alexander Heidel, já notaram ser tecnicamente ainda mais improvável de navegar do que a caixa retangular de Gênesis.

Outra diferença está no número de pisos: Gênesis pede três andares ("piso abaixo, segundo e terceiro" - 6:16), enquanto a Tábua XI descreve sete níveis internos, resultado de seis decks divisórios. Gênesis também menciona um elemento que não tem equivalente claro nas instruções de construção da Tábua XI: uma "janela" (tsohar, termo hebraico raro, também traduzido como "claraboia" ou abertura de luz) a ser acabada a um côvado do topo, além de uma porta lateral específica - a Tábua XI não detalha aberturas de luz na fase de construção, embora mencione posteriormente uma escotilha usada para soltar as aves.

Fora do texto bíblico, a Tábua XI acrescenta elementos ausentes em : o recrutamento de carpinteiros, construtores de cordas e outros artesãos da cidade para erguer o barco, a distribuição de bebida e comida a esses trabalhadores como se fosse um dia de festa, e a conclusão da obra em sete dias - um prazo miraculosamente curto, dado como sinal do favor divino sobre a empreitada. Gênesis não narra o processo de construção em si, apenas a instrução recebida, o que torna a comparação mais uma questão de vocabulário técnico compartilhado do que de enredo idêntico.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O barco de Utnapishtim tinha o mesmo formato retangular da arca de Noé.

    A Tábua XI descreve um barco de planta quadrada, com comprimento, largura e altura iguais (um cubo de cerca de cento e vinte côvados de lado); a arca de é uma caixa alongada, com trezentos côvados de comprimento contra apenas cinquenta de largura - uma proporção bem diferente.

  • Dizem que:As medidas da arca e do barco de Utnapishtim são praticamente idênticas, provando que um texto copiou o outro.

    As únicas semelhanças são o uso de côvados como unidade e a presença de medidas exatas dadas por ordem divina; os valores numéricos e a geometria resultante são totalmente distintos, o que aponta para uma convenção narrativa compartilhada no Antigo Oriente Médio, não para cópia literal de números.

  • Dizem que:Gênesis descreve como a arca foi construída, com operários e prazo de obra, assim como a Tábua XI.

    registra apenas a instrução recebida por Noé, sem narrar a execução da obra; é a Tábua XI que detalha o recrutamento de artesãos da cidade e a conclusão do barco em sete dias, elementos ausentes do texto bíblico.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Vê no detalhe técnico de um recurso literário que confere solenidade e veracidade ao relato, comparável ao estilo de outras culturas antigas ao narrar construções ordenadas por uma divindade; os paralelos com a Tábua XI são lidos como confirmação de que esse gênero de "instrução técnica divina" era familiar ao público original do texto, sem que isso comprometa sua inspiração.

  • Protestante evangélica (conservadora)

    Tende a enfatizar a plausibilidade estrutural da arca bíblica - uma caixa retangular reconhecida por engenheiros navais como mais estável para flutuação prolongada do que um cubo -, e a ler essa diferença de geometria como indício de que Gênesis preserva com maior precisão técnica a lembrança de uma embarcação real, ainda que ambos os relatos comprovem a memória compartilhada de um grande dilúvio.

  • Ortodoxa

    Concentra-se menos na comparação de medidas e mais no significado simbólico dos números e proporções da arca na tradição patrística, e recebe os detalhes técnicos mesopotâmicos como pano de fundo cultural que ajuda a situar historicamente o relato de Gênesis, sem alterar sua leitura espiritual da narrativa.

  • Protestante histórico-crítica (liberal)

    Entende que tanto Gênesis quanto a Tábua XI empregam um gênero literário comum do Antigo Oriente Médio - a instrução técnica de construção naval ditada por uma divindade -, cada autor adaptando esse molde às medidas e à teologia de sua própria tradição, sem que isso implique dependência literária direta entre os dois textos específicos.

O que fazer com isso

Comparar instruções técnicas de construção como essas é um exercício de precisão, não de propaganda: vale notar o vocabulário comum (madeira, betume, compartimentos, medidas em côvados) sem forçar equivalência entre formas tão diferentes - uma caixa alongada e um cubo monumental. O ganho está em perceber que ambas as tradições tratam a sobrevivência ao dilúvio como um problema de engenharia que merece instrução divina detalhada, cada uma dentro da lógica da sua própria narrativa.

Fontes consultadas4 obras
  • Andrew George. The Babylonian Gilgamesh Epic: Introduction, Critical Edition and Cuneiform Texts, 2003.
  • Alexander Heidel. The Gilgamesh Epic and Old Testament Parallels, 1949.
  • Gordon J. Wenham. Genesis 1-15 (Word Biblical Commentary), 1987.
  • John H. Walton. Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament, 2006.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

A arca de Noé e o barco de Utnapishtim tinham o mesmo tamanho?

Não. A arca de Gênesis mede trezentos por cinquenta por trinta côvados, uma caixa alongada. O barco de Utnapishtim é descrito como um cubo, com lados iguais de cerca de cento e vinte côvados cada - uma forma e um volume bem diferentes.

Os dois relatos usam a mesma palavra para o material de vedação?

Não exatamente. Gênesis usa um único termo, kofer (betume), aplicado por dentro e por fora. A Tábua XI distingue duas substâncias, kupru (betume) por dentro e iddû (piche) por fora, além de óleo, sugerindo um processo mais elaborado.

Por que o barco de Utnapishtim tem formato de cubo?

O texto não explica o motivo, mas assiriólogos como Alexander Heidel notam que essa geometria não tem função de navegação - serve apenas para flutuar em bloco - o que difere do propósito da arca bíblica, também sem função de navio, mas com proporções mais alongadas e estáveis.

Gênesis descreve quem ajudou Noé a construir a arca?

Não. O texto bíblico registra apenas a instrução divina recebida por Noé, sem mencionar operários. Já a Tábua XI narra o recrutamento de carpinteiros e outros artesãos da cidade para erguer o barco em sete dias.

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Publicado em 13/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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