A imagem de Deus, lida por um filósofo judeu antes do cristianismo
O que Fílon de Alexandria disse sobre o ser humano ter sido feito à imagem de Deus?
Resposta curta
afirma que Deus fez o ser humano "à sua imagem, à imagem de Deus", sem explicar em que consiste essa imagem — corpo, mente, ou outra coisa. Fílon de Alexandria, filósofo e exegeta judeu que viveu entre o fim do século I a.C. e meados do século I d.C., escreveu um dos primeiros comentários filosóficos detalhados que sobrevivem sobre essa passagem.
Em seu tratado De Opificio Mundi ("Sobre a Criação do Mundo"), seções 69 a 71, Fílon argumenta que, como Deus não tem corpo, a imagem divina no ser humano só pode estar na mente racional (nous), a parte que governa a alma como Deus governa o cosmos. Ele liga essa mente ao Logos, a razão divina que, para ele, é a verdadeira "imagem de Deus", da qual a mente humana seria um segundo reflexo.
O que diz Fílon de Alexandria
Fílon de Alexandria, De Opificio Mundi 69-71
Fílon de Alexandria (c. 20 a.C. – c. 50 d.C.) foi um filósofo e exegeta judeu que viveu na próspera comunidade judaica de Alexandria, no Egito, então um dos maiores centros de cultura grega do mundo antigo. Membro de uma família influente — seu irmão era um alto funcionário romano, e um sobrinho chegou a procurador da Judeia —, Fílon dedicou boa parte de sua obra a comentar os cinco primeiros livros da Bíblia hebraica, que lia na tradução grega da Septuaginta, usando as ferramentas da filosofia grega, sobretudo o platonismo médio e o estoicismo.
Seu tratado De Opificio Mundi ("Sobre a Criação do Mundo") é um comentário alegórico ao relato de . Escrito em grego, provavelmente na primeira metade do século I d.C., é contemporâneo dos primeiros anos do movimento que se tornaria o cristianismo — Fílon nunca menciona Jesus ou os primeiros cristãos, e não há evidência de que os conhecesse. Ele não é, portanto, uma testemunha do cristianismo nascente, mas um representante independente do judaísmo helenístico, a corrente judaica que buscava dialogar com a cultura grega dominante sem abandonar a fidelidade à Torá.
A obra de Fílon não foi preservada pela tradição rabínica, que praticamente a esqueceu por séculos, mas por escribas cristãos, que viram nela um precursor útil para sua própria leitura alegórica das Escrituras e para o vocabulário do Logos usado no Evangelho de João. Fílon nunca foi considerado Escritura por nenhuma tradição — nem judaica, nem cristã — e seu texto não integra nenhum cânone bíblico. Ele entra neste espaço do Significado Bíblico não como concorrente do texto sagrado, mas como testemunha de como um leitor judeu culto, no mesmo século em que viveram Jesus e os apóstolos, entendia uma das frases mais discutidas do Antigo Testamento: a criação do ser humano "à imagem de Deus".
O que diz a Bíblia
E disse Deus: Façamos ao ser humano à nossa imagem, conforme nossa semelhança; e domine os peixes do mar, e as aves dos céus, e os animais, e toda a terra, e todo animal que anda arrastando sobre a terra. E criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Fílon comenta diretamente o texto da Septuaginta de Gênesis 1:26-27, incluindo a mesma palavra grega "eikon" (imagem) que o texto bíblico usa, sem alterar ou contestar a afirmação de que o ser humano foi feito à imagem de Deus.
- Ambos os textos tratam a imagem divina como algo que distingue o ser humano das demais criaturas, dando-lhe um estatuto especial dentro da criação.
- Ambos deixam claro que a imagem aponta para algo além da mera constituição física comum aos animais, associando-a a uma capacidade superior do ser humano.
Onde divergem
- Gênesis não define o que é a "imagem" — não menciona mente, razão ou faculdades da alma —, enquanto Fílon oferece uma definição filosófica específica e restritiva (a mente racional, nous) que vai além do que o texto hebraico afirma explicitamente.
- A premissa filoniana de que Deus é absolutamente incorpóreo, base de todo o seu argumento, é um pressuposto do platonismo médio grego; o texto de Gênesis, lido no seu contexto de antigo Oriente Médio, convive com uma tradição mais ampla em que a linguagem de "imagem" também evocava a função de representantes visíveis (como reis) de uma divindade, sem necessariamente excluir associações mais concretas.
- O esquema de Fílon de uma "imagem da imagem", com o Logos como elo intermediário entre Deus e a mente humana, é uma construção filosófica própria de Fílon, sem qualquer indício equivalente no texto de Gênesis, que apresenta a criação do ser humano como ato direto de Deus.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A identificação técnica e restritiva da "imagem de Deus" com o nous (mente racional), como categoria filosófica específica, só aparece em Fílon, não em Gênesis.
- O Logos como instância mediadora entre Deus e a mente humana, formando uma cadeia de "imagem de uma imagem", é uma construção exclusiva de Fílon.
- Termos técnicos como "hegemonikon" (faculdade dominante da alma), emprestados do vocabulário estoico, aparecem apenas no comentário de Fílon, não têm equivalente lexical no texto hebraico de Gênesis.
Em palavras simples
Gênesis diz que o ser humano foi feito "à imagem de Deus", mas não explica o que isso significa. Há cerca de dois mil anos, um pensador judeu chamado Fílon, que morava na cidade egípcia de Alexandria, tentou responder a essa pergunta usando ideias da filosofia grega. Para ele, como Deus não tem corpo, a "imagem" de Deus no ser humano está na mente, na capacidade de pensar e raciocinar — não na aparência física. É uma das primeiras tentativas escritas de explicar essa frase difícil de Gênesis.
Aprofundamento
Em , o texto hebraico usa o termo "tselem" ("imagem") e, na Septuaginta — a versão que Fílon lia e comentava —, essa palavra foi traduzida como "eikon", o mesmo termo que o Novo Testamento usará mais tarde para falar de Cristo como "imagem do Deus invisível" (). Gênesis não define o termo: apenas afirma que o ser humano foi feito segundo essa imagem e lhe dá a tarefa de governar a criação (v. 26b), o que leva estudiosos modernos a debater se "imagem" aponta para uma semelhança física, uma capacidade racional, um papel de representante de Deus na terra — como em outras culturas do Oriente Médio antigo, onde reis eram chamados de "imagem" do deus — ou uma combinação dessas ideias.
Fílon, em De Opificio Mundi 69-71, responde a essa ambiguidade com uma proposta filosófica específica. Partindo do princípio, comum ao platonismo médio de sua época, de que Deus é absolutamente incorpóreo e transcendente, ele argumenta que a semelhança não pode ser física: nenhuma forma corporal reproduziria a natureza de um Deus sem corpo. A imagem, portanto, residiria na parte mais nobre do ser humano, a mente racional (nous), que Fílon identifica como o elemento que governa a alma e o corpo, assim como Deus governa o universo — um paralelo de autoridade, não de forma física.
Fílon vai além ao inserir um mediador nessa cadeia: para ele, o verdadeiro "eikon theou" (imagem de Deus) em sentido pleno é o Logos, a razão divina pela qual o mundo foi ordenado. A mente humana seria, então, uma imagem da imagem — moldada segundo o Logos, que por sua vez reflete Deus. Essa estrutura de dois níveis é uma construção filosófica de Fílon, sem paralelo direto no texto hebraico de Gênesis, e mistura vocabulário bíblico com categorias filosóficas gregas: "nous" e "hegemonikon" (faculdade dominante da alma) vêm da tradição estoica, não do Antigo Testamento.
O uso filoniano do termo "Logos" desperta interesse porque o Evangelho de João, escrito décadas depois, abre afirmando que "no princípio era o Logos" (). Estudiosos discutem há mais de um século se há alguma relação entre os dois usos. A posição mais equilibrada, hoje predominante entre especialistas, é que não há evidência de dependência direta entre João e Fílon — é mais provável que ambos bebam, de formas distintas, do mesmo repertório de vocabulário filosófico-religioso judaico-helenístico disponível no primeiro século, sem que um tenha necessariamente lido o outro.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Fílon já ensinava a doutrina cristã da Trindade porque falava do Logos como uma espécie de segundo ser divino.
O Logos de Fílon é uma categoria filosófica — a razão ou palavra pela qual Deus ordena o cosmos, com traços quase pessoais, mas não uma pessoa divina coeterna e consubstancial ao Pai como na doutrina trinitária formulada só nos séculos seguintes; equiparar os dois é anacronismo.
Dizem que:Fílon conhecia o cristianismo ou foi influenciado por ele.
Fílon morreu por volta de 50 d.C., quando o movimento cristão ainda dava seus primeiros passos e nenhum texto do Novo Testamento havia sido escrito; ele nunca menciona Jesus, os apóstolos ou qualquer comunidade cristã.
Dizem que:Dizer que o ser humano foi feito "à imagem de Deus" significa que Deus tem um corpo parecido com o humano.
Já no século I, Fílon rejeitava explicitamente essa leitura, argumentando que Deus é incorpóreo; a corrente majoritária da exegese judaica e cristã posterior segue, de formas variadas, essa recusa de uma imagem meramente física.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo / tradição agostiniana
Entende a imago Dei principalmente como as faculdades racionais e espirituais da alma — razão, memória, vontade —, uma ênfase que, sem depender diretamente de Fílon, converge com sua leitura da imagem como mente racional.
Protestantismo reformado
Enfatiza a imagem como retidão moral e comunhão original com Deus, desfigurada pelo pecado e restaurada em Cristo; o acento recai menos numa faculdade metafísica interior e mais numa condição relacional perdida e recuperada.
Ortodoxia Oriental
Seguindo Irineu de Lyon, distingue "imagem" (dada a todo ser humano, a capacidade de comunhão com Deus) de "semelhança" (um chamado a crescer rumo à deificação, a theosis), lendo como ponto de partida de um processo, não como uma definição estática.
Leitura evangélica bíblico-teológica contemporânea
Recupera o pano de fundo do antigo Oriente Médio, onde reis eram chamados "imagem" do deus que representavam, e lê a imagem como vocação funcional e relacional — representar Deus e exercer domínio responsável sobre a criação —, mais do que uma definição da constituição interior do ser humano.
O que fazer com isso
Ler Fílon ao lado de Gênesis não é buscar quem "acertou" o significado de "imagem de Deus", mas observar como um leitor judeu erudito do primeiro século trabalhou com um texto que a própria Bíblia deixa em aberto. Vale reconhecer a diferença entre o que o texto bíblico afirma e o que a interpretação filosófica de Fílon acrescenta a partir de categorias gregas, sem descartar essa leitura como inválida nem confundi-la com o sentido original do termo hebraico.
Fontes consultadas3 obras
- David T. Runia. Philo of Alexandria: On the Creation of the Cosmos according to Moses (Philo of Alexandria Commentary Series, vol. 1), 2001.
- Thomas H. Tobin. The Creation of Man: Philo and the History of Interpretation, 1983.
- John M. Dillon. The Middle Platonists: 80 B.C. to A.D. 220, 1977.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi Fílon de Alexandria?
Foi um filósofo e exegeta judeu que viveu entre o fim do século I a.C. e meados do século I d.C. na cidade de Alexandria, no Egito. Ele comentava a Bíblia hebraica usando categorias da filosofia grega, sobretudo platônica e estoica.
Fílon é citado na Bíblia ou é considerado um autor bíblico?
Não. Fílon não é mencionado na Bíblia e nunca foi considerado Escritura por nenhuma tradição judaica ou cristã. Seus escritos são fontes históricas extrabíblicas, importantes para entender o judaísmo do primeiro século.
Por que Fílon disse que a imagem de Deus está na mente, e não no corpo?
Porque ele partia do princípio filosófico de que Deus é incorpóreo. Se Deus não tem corpo, argumentava, nenhuma semelhança física poderia representá-lo — só a mente racional, a parte mais nobre do ser humano, poderia refletir algo da natureza divina.
O Evangelho de João copiou a ideia de Logos de Fílon?
Não há evidência de que sim. Os estudiosos consideram mais provável que João e Fílon tenham usado, de forma independente, um vocabulário filosófico-religioso judaico-helenístico já disponível no primeiro século, sem que um dependa diretamente do outro.
De Opificio Mundi é um livro apócrifo?
Não exatamente. É um tratado filosófico de comentário bíblico, não uma narrativa que se apresenta como Escritura concorrente, como ocorre com alguns apócrifos. Ele nunca foi proposto para inclusão em nenhum cânone.
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