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Significado Bíblico
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Os Dois Bodes em Barnabé e Levítico 16

O que a Epístola de Barnabé diz sobre os dois bodes do Dia da Expiação de Levítico 16?

Resposta curta

descreve o núcleo ritual do Dia da Expiação: dois bodes idênticos são apresentados juntos diante do Senhor, e Arão lança sortes sobre eles — um cai "pelo Senhor" e é oferecido em expiação, o outro cai "por Azazel" e é enviado vivo ao deserto, para longe do acampamento de Israel.

Cerca de um século depois, a Epístola de Barnabé, carta cristã anônima do início do século II, retoma essa cena em seu capítulo 7 e lê os dois bodes como figuras de Cristo: um imolado pelos pecados, outro amaldiçoado, expulso e destinado a reaparecer em glória. O texto preserva a estrutura básica do rito, mas acrescenta detalhes — lã escarlate, cuspir, um espinheiro — ausentes de Levítico.

O que diz Epístola de Barnabé

Epístola de Barnabé 7

O Dia da Expiação (Yom Kipur), descrito em , era o único dia do ano em que o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos. O núcleo do ritual, em 16:7-10, envolve dois bodes apresentados juntos à porta da tenda: Arão lança sortes sobre eles, um destinado "pelo Senhor" e imolado em expiação, outro destinado "por Azazel" e enviado vivo ao deserto. Mais adiante no capítulo (16:20-22), esse segundo bode recebe a confissão das culpas de Israel sobre sua cabeça antes de ser solto — origem da expressão "bode expiatório".

A Epístola de Barnabé é uma carta cristã anônima, datada pela maioria dos estudiosos entre o fim do século I e as primeiras décadas do século II, provavelmente escrita por um mestre cristão de formação alexandrina — não pelo Barnabé companheiro de Paulo em Atos, apesar do título tradicional já atribuído ao texto na Antiguidade. A obra sobrevive quase completa em grego no Códice Sinaítico (século IV), copiada logo após o Apocalipse, ao lado do Pastor de Hermas — sinal de que, para ao menos uma comunidade cristã do século IV, esses textos circulavam com alto prestígio, ainda que nenhuma tradição atual os considere Escritura canônica.

Barnabé é conhecida por seu método fortemente alegórico e tipológico de ler o Antigo Testamento, buscando em quase todo rito judaico uma prefiguração de Cristo ou da igreja — às vezes com paralelos sóbrios, às vezes com detalhes que vão muito além do texto bíblico. O capítulo 7 é um dos exemplos mais citados desse método: relê a cena dos dois bodes de como dupla figura de Cristo, somando a ela elementos rituais (lã escarlate, cuspir, um espinheiro chamado Rachia) que não vêm de Levítico, mas parecem ecoar práticas do Segundo Templo conhecidas por outras fontes judaicas, como a Mishná. Comparar os dois textos lado a lado permite ver com precisão onde Barnabé segue de perto Levítico e onde acrescenta sua própria camada interpretativa.

Ler mais sobre Epístola de Barnabé

O que diz a Bíblia

Depois tomará os dois machos de bode, e os apresentará diante do SENHOR à porta do tabernáculo do testemunho. E lançará sortes Arão sobre os dois machos de bode; uma sorte pelo SENHOR, e a outra sorte por Azazel. E fará achegar Arão o bode macho sobre o qual cair a sorte pelo SENHOR, e o oferecerá em expiação. Mas o bode macho, sobre o qual cair a sorte por Azazel, o apresentará vivo diante do SENHOR, para fazer a reconciliação sobre ele, para enviá-lo a Azazel ao deserto.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Barnabé 7 retoma explicitamente os "dois bodes" da cena de Levítico 16:7-10, mantendo o número e o emparelhamento do ritual.
  • Como em Levítico 16:9, um dos bodes é destinado a ser oferecido "pelos pecados", preservando a associação desse animal com a expiação do povo.
  • Como em Levítico 16:10, o segundo bode não é morto, mas enviado vivo "ao deserto" — Barnabé mantém essa diferença essencial de destino entre os dois animais.
  • Barnabé preserva a sequência narrativa de Levítico: primeiro os dois bodes são apresentados juntos, depois seus destinos se separam (Levítico 16:7 seguido de 16:8-10).

Onde divergem

  • Levítico 16:8 atribui a separação dos bodes a um sorteio feito por Arão; Barnabé 7 omite completamente o sorteio e o próprio Arão, tratando a escolha como um dado já resolvido ("um... o outro").
  • Levítico 16:8 e 16:10 usam o termo "Azazel" para o destino do segundo bode; essa palavra não aparece em Barnabé 7, que fala apenas em enviar o bode "ao deserto".
  • Levítico 16:9 chama a oferta do primeiro bode de sacrifício "em expiação"; traduções correntes de Barnabé 7 descrevem esse mesmo bode com linguagem de holocausto/oferta queimada, uma diferença terminológica sobre o tipo exato de sacrifício.
  • Levítico 16:7-10 não menciona lã escarlate, cuspir, aguilhões nem espinheiros — elementos centrais da cena em Barnabé 7, ausentes do texto levítico correspondente.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • Barnabé 7 identifica o bode enviado ao deserto com a figura escatológica de Cristo que retornará, reconhecido por quem o "crucificou, desprezou e traspassou" — leitura cristológica inexistente em Levítico ou em qualquer texto do Antigo Testamento.
  • A cena de amarrar lã escarlate na cabeça do bode e depois prendê-la sobre um espinheiro chamado "Rachia", cujos brotos seriam comestíveis, é peculiar a Barnabé e não aparece em Levítico 16.
  • A instrução para o povo cuspir no bode e feri-lo com aguilhões antes de expulsá-lo é uma elaboração ausente do texto levítico, mais próxima de práticas descritas séculos depois na Mishná (tratado Yoma) sobre um fio escarlate atado aos chifres do bode.
  • A afirmação de que os dois bodes devem ser "formosos e semelhantes um ao outro" aparece em Barnabé, mas não no texto de Levítico 16:7-10, refletindo antes tradição ritual judaica posterior à redação bíblica citada aqui.
Em palavras simples

manda separar dois bodes por sorteio: um é sacrificado para o Senhor, o outro é solto vivo no deserto, carregando simbolicamente os pecados do povo. Décadas depois, um cristão anônimo escreveu a Epístola de Barnabé, que reconta essa cena no capítulo 7 e enxerga nos dois bodes uma figura de Jesus — um representando sua morte, o outro sua volta em glória. O texto acrescenta detalhes, como lã escarlate e um espinheiro, que não estão na Bíblia.

Aprofundamento

é enxuto: apresentação dos dois bodes (v.7), sorteio feito por Arão (v.8), sacrifício do bode "pelo Senhor" (v.9) e envio vivo do bode "por Azazel" ao deserto, "para fazer a reconciliação sobre ele" (v.10). O texto hebraico não descreve a aparência dos animais, nem qualquer marca física neles, e não usa linguagem de crucifixão — é um relato ritual, não profético.

Epístola de Barnabé 7 retoma essa cena com uma reformulação didática, dirigida a uma congregação cristã que já não pratica esse rito e precisa de uma chave para lê-lo cristamente. O autor mantém três elementos estruturais de Levítico: há dois bodes, não um; um é sacrificado "pelos pecados" — ecoando a fórmula de 16:9 — e o outro é expulso vivo, sem ser morto, reproduzindo o destino diferenciado do bode de Azazel em 16:10. Essa fidelidade à estrutura básica é o que torna o cotejo produtivo: Barnabé não inventa o cenário, ele o interpreta.

As divergências, porém, são específicas e localizáveis. Primeiro, atribui a separação dos bodes a um sorteio feito por Arão; Barnabé apenas diz "um... o outro", sem sorte e sem citar Arão pelo nome — o processo de decisão desaparece, resta só o resultado. Segundo, a palavra "Azazel", central em e 16:10, não ocorre nenhuma vez em Barnabé 7; o segundo bode é apenas "enviado ao deserto". Terceiro, e mais visível, Barnabé introduz uma cena inteira de violência ritual ausente do texto bíblico: o povo cospe no bode, fere-o com aguilhões, ata-lhe lã escarlate na cabeça e, por fim, alguém leva essa lã e a prende sobre um espinheiro chamado Rachia, cujos brotos, acrescenta o autor, são comestíveis quando encontrados no campo. Nada disso está em ; são elementos que estudiosos como James Carleton Paget associam a tradições rituais do judaísmo do Segundo Templo, mais próximas do que a Mishná (tratado Yoma) descreve séculos depois sobre um fio escarlate atado aos chifres do bode, sem que isso implique dependência direta entre os dois textos.

A camada mais visivelmente fora do cânon é a leitura cristológica explícita: Barnabé identifica o bode imolado com a morte de Cristo pelos pecados e o bode expulso, coberto de maldições e depois glorificado, com o Cristo que voltará e será reconhecido por quem o rejeitou — afirmação teológica que Levítico, texto ritual do Antigo Testamento, simplesmente não faz. Ler os dois textos lado a lado não é buscar quem está certo, mas notar como uma comunidade cristã do início do século II usou um rito israelita preciso como ferramenta pedagógica para sua fé nova, preservando o esqueleto do rito, mas revestindo-o de um sentido que Levítico não anuncia por si mesmo.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:A Epístola de Barnabé foi escrita pelo próprio Barnabé, companheiro de Paulo nos Atos dos Apóstolos.

    A maioria dos estudiosos rejeita essa autoria: o texto reflete debates e uma cronologia típicos do fim do século I ao início do II, incompatíveis com a vida do Barnabé bíblico; a atribuição de nome ao texto é posterior à sua composição e não vem do próprio autor, que permanece anônimo.

  • Dizem que:Por estar copiada dentro do Códice Sinaítico, ao lado dos livros do Novo Testamento, a Epístola de Barnabé é uma 'escritura perdida' que deveria estar na Bíblia.

    O Sinaítico (século IV) a inclui como apêndice, junto com O Pastor de Hermas — sinal de uso devocional em algumas igrejas da época, não uma lista oficial de cânon; nenhuma tradição cristã posterior reconheceu a obra como Escritura inspirada.

  • Dizem que:Azazel, em Levítico 16, é apenas outro nome do próprio bode expiatório.

    O texto distingue o bode 'para o Senhor' do bode 'para Azazel' (v.8, v.10) como destinos diferentes atribuídos por sorte a dois animais já existentes; Azazel é o destinatário ou destino do segundo bode, não um sinônimo do animal em si.

Como diferentes tradições leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Patrística grega antiga (Alexandrina)

    Autores como Clemente de Alexandria e Orígenes citavam a Epístola de Barnabé com grande respeito, quase como texto de autoridade, e sua presença no Códice Sinaítico mostra que os limites entre 'canônico' e 'leitura edificante' ainda eram fluidos nos primeiros séculos.

  • Catolicismo

    Classifica a Epístola de Barnabé como escrito patrístico apócrifo — valioso como testemunho da interpretação cristã primitiva do Antigo Testamento, mas sem autoridade inspirada nem lugar no cânon fixado pelos concílios.

  • Protestantismo evangélico

    Trata Barnabé como leitura histórica útil dos chamados Pais Apostólicos, mas alerta que sua tipologia alegórica, em vários pontos do livro, ultrapassa o tipo de interpretação que a própria Escritura autoriza, por isso lê seus paralelos cristológicos com cautela.

O que fazer com isso

Ao ler Barnabé 7 ao lado de , vale separar duas coisas: o que o autor herda fielmente do rito bíblico (dois bodes, destinos opostos, expiação e expulsão) e o que ele acrescenta como leitura própria, teológica e ritual. Isso não desqualifica o texto — mostra como cristãos do início do século II liam o Antigo Testamento à luz de Cristo. Reconhecer essa camada evita tanto tratar Barnabé como extensão da Bíblia quanto descartá-lo como irrelevante para a história da interpretação cristã.

Fontes consultadas4 obras
  • Bart D. Ehrman. The Apostolic Fathers, Volume II (Loeb Classical Library), 2003.
  • James Carleton Paget. The Epistle of Barnabas: Outlook and Background, 1994.
  • Robert A. Kraft. Barnabas and the Didache (The Apostolic Fathers series), 1965.
  • Jacob Milgrom. Leviticus 1-16 (Anchor Bible), 1991.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

A Epístola de Barnabé é parte da Bíblia?

Não. Nenhuma tradição cristã atual — católica, ortodoxa ou protestante — inclui a Epístola de Barnabé no cânon bíblico. Ela pertence ao grupo de escritos conhecido como Pais Apostólicos, textos cristãos muito antigos e respeitados historicamente, mas sem status de Escritura inspirada.

Por que Barnabé liga os dois bodes a Jesus?

O autor lê o Dia da Expiação como uma prefiguração do sacrifício de Cristo: o bode oferecido no altar apontaria para a morte de Jesus pelos pecados, e o bode expulso ao deserto, carregado de maldições, apontaria para sua rejeição e para o reconhecimento futuro por parte de quem o condenou.

O que é 'Azazel' em Levítico 16?

É um termo hebraico difícil, aplicado ao destino do segundo bode — lido por uns como nome de um lugar ou ser do deserto e por outros como a ideia de remoção completa. O texto bíblico não explica o termo, apenas o usa para distinguir o bode sacrificado do que é solto vivo.

Barnabé 7 é uma citação direta de Levítico?

Não exatamente. Barnabé parafraseia a cena central dos dois bodes, mas acrescenta detalhes rituais — lã escarlate, cuspir, espinheiro — que não estão em e parecem refletir práticas ou tradições rituais do judaísmo do Segundo Templo, conhecidas por outras fontes, como a Mishná.

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Publicado em 13/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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