A carta perdida aos Laodicenses e o Cânon de Muratori
Existe uma carta perdida de Paulo aos Laodicenses, e o que o Cânon de Muratori diz sobre ela?
Resposta curta
Em , Paulo pede algo simples e revelador: que sua carta aos colossenses seja lida também na igreja vizinha de Laodiceia, e que os colossenses, por sua vez, leiam uma carta que ele havia escrito aos laodicenses. O versículo mostra, de passagem, que cartas apostólicas já circulavam entre congregações como textos lidos em voz alta e tratados com autoridade — um hábito comum no vale do Lico, onde Colossos e Laodiceia ficavam próximas.
Gerações depois, o Cânon de Muratori — a lista mais antiga que se conhece dos escritos aceitos como Novo Testamento — documenta o estágio seguinte dessa história: já circulava, em nome de Paulo, uma "carta aos laodicenses", mas o autor do Cânon a rejeita como forjada, ligada à heresia de Marcião. O mesmo espaço deixado em aberto por Paulo, mais tarde, precisou ser defendido contra falsificações.
O que diz Cânon de Muratori
Cânon de Muratori, linhas 39-63
Colossenses foi escrita por Paulo durante uma prisão (a tradição mais comum aponta Roma, por volta de 60-62 d.C., embora Éfeso também seja proposta por parte dos estudiosos), endereçada a uma igreja que ele provavelmente nunca visitara pessoalmente — fundada por Epafras, um colaborador local. Colossos, Laodiceia e Hierápolis formavam um triângulo de cidades próximas no vale do rio Lico, na província romana da Ásia (atual Turquia), e mantinham contato regular entre suas comunidades cristãs. É nesse cenário que Paulo, ao final da carta, orienta a troca: os colossenses devem ouvir sua carta a Laodiceia, e os laodicenses devem enviar a carta de Colossenses para ser lida ali também. Essa carta "de Laodiceia" a que Paulo se refere não sobreviveu — ou, segundo uma hipótese debatida entre estudiosos, pode ter circulado depois sob outro nome, possivelmente uma cópia da carta aos Efésios.
O Cânon de Muratori é um fragmento em latim, hoje guardado na Biblioteca Ambrosiana de Milão, descoberto pelo erudito italiano Ludovico Antonio Muratori e publicado por ele em 1740. O texto latino que temos parece ser a tradução de um original grego, geralmente datado do fim do século II d.C., embora um grupo de estudiosos, a partir da obra de Geoffrey Hahneman, defenda uma origem oriental do século IV — a datação segue em aberto. É o registro mais antigo que resume, livro por livro, quais escritos cristãos já eram lidos como Escritura nas igrejas, e quais eram rejeitados ou vistos com reserva. Ao chegar às cartas de Paulo, o fragmento lista os destinatários reconhecidos, na ordem em que teriam sido escritas às sete igrejas nomeadas, e explica que Paulo também escreveu por afeto pessoal a Filemom, Tito e Timóteo. Na sequência, denuncia a existência de cartas atribuídas a Paulo — endereçadas aos laodicenses e aos alexandrinos — como forjadas para sustentar o ensino de Marcião, um teólogo do século II condenado pela maioria das igrejas por rejeitar o Deus do Antigo Testamento e reduzir o cânon cristão.
O que diz a Bíblia
E depois que esta carta for lida entre vós, fazei que ela também seja lida na igreja dos laodicenses, e que vós leiais também a de Laodiceia.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Ambos os textos pressupõem, sem estranhamento, que cartas apostólicas circulavam entre igrejas e eram lidas em voz alta com autoridade — Colossenses 4:16 descreve essa prática diretamente, e o Cânon de Muratori, ao listar as sete igrejas destinatárias de Paulo, confirma que esse hábito já era memória consolidada gerações depois.
- Os dois textos giram em torno da mesma lacuna concreta: uma carta de Paulo 'a/de Laodiceia' que Colossenses 4:16 pressupõe existir, e que o Cânon de Muratori, cerca de duzentos anos depois, registra que ainda circulava sob esse nome — mostrando que a menção de Paulo não foi esquecida, mas continuou gerando textos que reivindicavam preenchê-la.
Onde divergem
- Colossenses 4:16 trata a carta 'de Laodiceia' como autêntica e digna de ser lida ao lado da carta aos colossenses, sem qualquer nota de suspeita; a 'carta aos laodicenses' que o Cânon de Muratori conhece é explicitamente rotulada como forjada e vinculada à heresia de Marcião — não há como as duas serem o mesmo documento tratado da mesma forma.
- Colossenses 4:16 descreve a troca de cartas como rotina despreocupada entre igrejas vizinhas; o Cânon de Muratori, escrito gerações depois, reflete um ambiente mais vigilante, em que comunidades precisavam ativamente separar cartas genuinamente apostólicas de textos que usavam o nome de Paulo para fins doutrinários alheios a ele.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A acusação explícita do Cânon de Muratori de que as cartas 'aos laodicenses' e 'aos alexandrinos' foram forjadas para sustentar a heresia de Marcião — um episódio de disputa doutrinária do século II do qual Colossenses 4:16 não tem como ter conhecimento.
- O critério de rejeição expresso na frase do fragmento sobre não ser 'adequado misturar fel com mel', usado para justificar por que certos escritos atribuídos a Paulo não podiam ser lidos nas igrejas.
- A lista mais ampla de livros disputados que o Cânon de Muratori discute ao lado das cartas paulinas, como o Apocalipse de Pedro e o Pastor de Hermas, que documentam o processo maior de formação do cânon em que o episódio da carta aos laodicenses se insere.
Em palavras simples
Paulo pede em que sua carta circule entre duas igrejas vizinhas, Colossos e Laodiceia, e que uma carta sua aos laodicenses também seja lida em Colossos. Essa carta aos laodicenses se perdeu. Mais de cem anos depois, um documento chamado Cânon de Muratori — uma das primeiras listas do que hoje chamamos Novo Testamento — menciona uma "carta aos laodicenses" que estava circulando em nome de Paulo, mas diz que ela é falsa, escrita para apoiar as ideias de um grupo chamado marcionitas.
Aprofundamento
O ponto de contato entre os dois textos é bem específico: é a única referência, em toda a Bíblia, a uma carta de Paulo endereçada a Laodiceia — e essa carta não chegou até nós. O vazio deixado por essa menção despertou curiosidade desde cedo. Uma hipótese acadêmica, já antiga, sugere que essa "carta de Laodiceia" seja a mesma que conhecemos como Efésios, já que os manuscritos mais antigos dessa carta não trazem a expressão "em Éfeso" no primeiro versículo, sugerindo uma circular enviada a várias igrejas da região — inclusive Laodiceia. Essa é uma leitura entre outras, sem consenso.
O que o Cânon de Muratori acrescenta é a etapa seguinte dessa história: por volta de duzentos anos depois de Colossenses, já circulava um texto que se apresentava como "a carta aos laodicenses", escrito em nome de Paulo. A passagem do fragmento que trata das cartas paulinas (as linhas que listam Coríntios, Efésios, Filipenses, Colossenses, Gálatas, Tessalonicenses e Romanos como as sete igrejas às quais Paulo escreveu) chega então a essa carta e a uma "carta aos alexandrinos", classificando ambas como forjadas "para dar sustento à heresia de Marcião" e afirmando que não podem ser recebidas na igreja, pois "não convém misturar fel com mel". Essa frase curta resume o critério: um escrito podia imitar o estilo e até o nome de Paulo, mas era descartado quando servia a um ensino que a maioria das igrejas já reconhecia como estranho ao evangelho que haviam recebido.
Vale registrar que o texto latino hoje conhecido como "Epístola aos Laodicenses" — preservado em algumas Bíblias medievais, inclusive certas cópias da Vulgata, e citado por nomes como Jerônimo apenas para descartá-lo como sem valor — não é o documento que o Cânon de Muratori denuncia, nem a carta original mencionada por Paulo; é, ao que tudo indica, uma composição posterior, uma colagem de frases de outras cartas paulinas, sem qualquer conteúdo marcionita identificável. Isso mostra como o vazio criado por seguiu sendo preenchido, de formas diferentes, por mais de um século depois do episódio que o próprio Cânon de Muratori já registrava. O cotejo entre os dois textos não aponta contradição: mostra duas fotografias, tiradas em momentos diferentes, do mesmo processo — uma carta perdida logo no início, e o esforço contínuo da igreja, ao longo de gerações, para distinguir o que de fato vinha de Paulo daquilo que apenas usava seu nome para ganhar autoridade.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A 'Epístola aos Laodicenses' que aparece em algumas Bíblias medievais é a carta perdida que Paulo menciona em Colossenses 4:16.
Estudiosos consideram esse texto latino uma composição posterior, um mosaico de frases retiradas de outras cartas paulinas, sem qualquer vínculo comprovado com a carta original a que Paulo se refere — e distinto até da carta forjada que o Cânon de Muratori denuncia.
Dizem que:O Novo Testamento só ganhou uma lista fechada de livros em um concílio do século IV, e antes disso as igrejas não tinham ideia do que era Escritura.
O Cânon de Muratori mostra que, já no fim do século II (ou, na hipótese minoritária, no século IV, mas ainda documentando uma prática anterior), um núcleo substancial de livros — os quatro Evangelhos, Atos, a maior parte das cartas de Paulo — já era amplamente reconhecido; concílios posteriores confirmaram e completaram esse reconhecimento, não o inventaram do zero.
Como diferentes tradições leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo
Vê no Cânon de Muratori um passo do discernimento que a Igreja, com sua autoridade magisterial, exerceu ao longo dos séculos para reconhecer formalmente quais escritos eram inspirados, culminando em concílios posteriores que fixaram a lista definitiva.
Ortodoxia
Entende o processo refletido no fragmento como recepção gradual e consensual de toda a Igreja reunida na fé comum, mais do que decisão de uma autoridade central — o cânon foi reconhecido, não criado, pelo uso litúrgico compartilhado.
Protestantismo evangélico
Enfatiza que documentos como o Cânon de Muratori mostram apenas o reconhecimento humano de uma autoridade que os próprios escritos já possuíam por serem inspirados por Deus (autopistia) — a igreja identificou o cânon, não o constituiu.
O que fazer com isso
Documentos como o Cânon de Muratori não servem para "provar" a Bíblia nem para colocá-la em dúvida — servem para mostrar como comunidades reais, com nomes e datas, discutiram o que liam em voz alta como Escritura. Ler ao lado dele ajuda a enxergar que a formação do Novo Testamento não foi um evento único, mas um processo estendido, atento a distinguir textos genuínos de imitações — um cuidado que vale a pena admirar, sem sensacionalismo.
Fontes consultadas3 obras
- Bruce M. Metzger. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance, 1987.
- Geoffrey Mark Hahneman. The Muratorian Fragment and the Development of the Canon, 1992.
- Charles E. Hill. Who Chose the Gospels? Probing the Great Gospel Conspiracy, 2010.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
A carta de Paulo aos laodicenses citada em Colossenses 4:16 existe até hoje?
Não sobreviveu nenhuma carta que os estudiosos considerem, com segurança, a mesma mencionada por Paulo. O texto latino que circula sob o nome 'Epístola aos Laodicenses' é, segundo o consenso acadêmico, uma composição posterior, montada com frases de outras cartas paulinas.
O que é exatamente o Cânon de Muratori?
É um fragmento em latim, descoberto no século XVIII na Biblioteca Ambrosiana de Milão, que traz a lista mais antiga conhecida dos escritos que as igrejas já liam como Novo Testamento, junto com comentários sobre textos que consideravam falsos ou duvidosos.
O Cânon de Muratori é parte da Bíblia?
Não. Ele é um documento histórico da igreja antiga que registra quais livros já eram reconhecidos como Escritura em sua época — não é, ele mesmo, um livro bíblico nem tem qualquer pretensão de sê-lo.
Por que o Cânon de Muratori rejeita a carta que dizia ser 'aos laodicenses'?
Porque, segundo o próprio fragmento, ela e uma suposta carta 'aos alexandrinos' foram forjadas em nome de Paulo para dar sustento aos ensinos de Marcião, um teólogo do século II cujas ideias a maioria das igrejas rejeitava.
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