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"Sem causa" em Mateus 5:22: a palavra que falta nos manuscritos mais antigos

Por que algumas Bíblias dizem "sem causa" em Mateus 5:22 e outras não trazem essa palavra?

Resposta curta

O grego de traz, em boa parte das Bíblias tradicionais, uma palavra a mais: "sem causa" (εἰκῇ). Ela está na maioria dos manuscritos bizantinos posteriores e por isso entrou no Textus Receptus, base da King James e desta Bíblia Livre TR. Mas os dois manuscritos gregos mais antigos e completos do Novo Testamento, o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, do século IV, não trazem essa palavra: dizem apenas que "todo aquele que se irar contra seu irmão será réu do julgamento", sem qualificação.

A diferença não envolve outro relato, mas uma única palavra que muda o alcance do mandamento: de proibir a raiva injusta para proibir a raiva em si. Por isso a maioria das traduções baseadas no texto crítico moderno omite "sem causa", enquanto Bíblias fiéis ao texto bizantino majoritário a mantêm, como esta edição.

O que diz Codex Vaticanus

Codex Vaticanus e Sinaiticus, ausência de "sem causa"

Nenhum autógrafo original dos evangelhos sobreviveu; o que existe são milhares de cópias manuscritas, feitas ao longo de séculos, com pequenas diferenças entre si. Comparar essas cópias e decidir qual leitura é mais provavelmente a original é o trabalho da crítica textual, um campo consolidado de estudo, não uma disputa marginal. é um dos casos mais discutidos desse campo.

O Codex Vaticanus (catalogado como B) e o Codex Sinaiticus (ℵ) são dois dos quatro grandes códices unciais gregos, cópias em pergaminho de meados do século IV que reúnem quase toda a Bíblia grega, incluindo o Novo Testamento completo. São, com poucas exceções, os testemunhos mais antigos e mais completos que existem para o texto de Mateus. Neles, o versículo 22 não traz a palavra grega εἰκῇ (transliterada "eikê", traduzida como "sem causa" ou "sem razão"): o texto diz apenas "todo aquele que se irar contra seu irmão será réu do julgamento".

Já a maior parte dos manuscritos bizantinos, copiados séculos depois e que formam o chamado "texto majoritário", inclui essa palavra. Quando o humanista Erasmo de Roterdã organizou a primeira edição impressa do Novo Testamento grego, em 1516, usou manuscritos bizantinos tardios disponíveis na Basileia; esse texto, revisado por editores posteriores, ficou conhecido como Textus Receptus e serviu de base para a King James inglesa e para traduções portuguesas como a de João Ferreira de Almeida, incluindo a Bíblia Livre TR usada aqui.

Já no século IV e V, porém, o teólogo Jerônimo e, depois dele, Agostinho de Hipona notaram esse mesmo problema: ambos registraram, em suas próprias obras, que os manuscritos gregos mais antigos que conheciam não traziam a palavra "sem causa" em , e que a inclusão dela tornava o mandamento de Jesus mais brando do que originalmente parecia ser. Ou seja, a discussão sobre essa palavra não é uma descoberta moderna: já preocupava leitores atentos do texto há mais de 1600 anos.

Ler mais sobre Codex Vaticanus

O que diz a Bíblia

Porém eu vos digo que qualquer um que se irar contra seu irmão sem razão será réu do julgamento. E qualquer um que disser a seu irmão: “Idiota!” será réu do tribunal. E qualquer que lhe disser: “Louco!” será réu do fogo do inferno.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Tanto os manuscritos que trazem 'sem causa' quanto os que a omitem preservam o restante do versículo palavra por palavra: a mesma escala de três reações (irar-se, chamar de 'Raca', chamar de 'louco') e as mesmas três consequências (julgamento, tribunal, fogo do inferno).
  • Codex Vaticanus (B, século IV) e Codex Sinaiticus (ℵ, século IV) concordam entre si na omissão da palavra grega εἰκῇ no texto original de Mateus 5:22, reforçando a hipótese de que essa era a leitura mais antiga do texto de tradição alexandrina.
  • A citação do versículo em Orígenes, no século III, também aparece sem 'sem causa', indicando que essa forma do texto já circulava em cópias egípcias anteriores aos dois grandes códices.

Onde divergem

  • O Textus Receptus, base da tradução usada aqui (Bíblia Livre TR) e da King James inglesa, segue a maioria dos manuscritos bizantinos posteriores e inclui 'sem causa' (εἰκῇ); Vaticanus e Sinaiticus, vários séculos mais antigos, não trazem essa palavra.
  • No próprio Codex Sinaiticus, uma mão corretora posterior acrescentou 'sem causa' ao texto, alinhando-o à leitura que se tornaria majoritária mais tarde — sinal de que a harmonização com a forma mais 'suave' do versículo já começou a ocorrer na Antiguidade.
  • Bíblias baseadas no texto crítico eclético moderno (Nestle-Aland/UBS), como a NVI e a Nova Almeida Atualizada, seguem Vaticanus e Sinaiticus e omitem 'sem causa'; Bíblias baseadas no Textus Receptus ou no texto majoritário bizantino, como a Almeida Corrigida Fiel e esta edição, a mantêm.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • O Codex Sinaiticus traz encadernados, ao lado dos livros do Novo Testamento, dois textos que nunca entraram no cânon: a Epístola de Barnabé completa e parte de O Pastor de Hermas — mostrando que, no século IV, esse manuscrito de referência incluía leituras eclesiásticas que depois ficaram fora do cânon fechado.
  • Nem Vaticanus nem Sinaiticus trazem qualquer nota marginal antiga explicando a ausência de 'sem causa'; a explicação para a diferença é reconstrução de estudiosos posteriores, a partir da comparação entre manuscritos, não algo registrado pelos copistas do século IV.
Em palavras simples

Muitas Bíblias dizem que Jesus condenou quem se irar com o irmão "sem motivo". Mas as cópias mais antigas do Novo Testamento inteiro que sobreviveram, os Códices Vaticano e Sinaítico, do século 4, não têm essa palavrinha. Nelas, a frase de Jesus é mais dura: qualquer raiva contra o irmão já é motivo de julgamento. A diferença é de uma única palavra, mas muda o peso do que Jesus pedia. Bíblias como esta, ligadas ao texto grego usado há séculos, mantêm a palavra; traduções mais recentes, baseadas nos manuscritos mais antigos, tendem a tirá-la.

Aprofundamento

A crítica textual moderna, apoiada em edições como o Novum Testamentum Graece (Nestle-Aland) e no Textual Commentary on the Greek New Testament de Bruce Metzger, trata a ausência de εἰκῇ em Vaticanus e Sinaiticus como a leitura mais provavelmente original, por duas razões principais. A primeira é o peso dos testemunhos: além dos dois grandes códices, a omissão aparece em outros manuscritos importantes, em parte da tradição latina e siríaca antigas, e nas citações patrísticas mais antigas do versículo, incluindo Orígenes no século III, que já lia o texto sem essa qualificação em cópias egípcias anteriores a Vaticanus e Sinaiticus.

A segunda razão é um princípio geral da crítica textual: entre duas leituras, tende a ser mais antiga a mais difícil ou mais exigente, porque copistas tendem a suavizar um texto que parece rigoroso demais, e raramente fazem o caminho contrário. Um mandamento absoluto contra qualquer raiva soa mais duro do que um mandamento contra raiva "sem motivo" — e é mais fácil explicar por que alguém acrescentaria essa ressalva ao longo da transmissão do texto do que por que alguém a removeria de propósito. É exatamente esse raciocínio que Jerônimo e Agostinho já registraram: para eles, a versão mais curta e mais dura tinha prioridade sobre a mais suave.

Isso não significa que a leitura mais longa seja uma fraude ou uma tentativa de enganar leitores. O acréscimo de "sem causa" provavelmente nasceu de um esforço pastoral legítimo, buscando harmonizar esse versículo com outras passagens bíblicas que reconhecem formas legítimas de indignação, como a ira de Jesus no templo (, ) ou a instrução de Paulo em ("irai-vos, e não pequeis"). Um copista ou leitor antigo pode ter entendido que Jesus não podia estar condenando toda e qualquer raiva, e inserido a ressalva para tornar o texto mais coerente com o restante das Escrituras, do jeito que ele as compreendia.

O próprio Codex Sinaiticus ilustra esse processo em ação: seu texto original (a chamada primeira mão) não traz "sem causa", mas uma mão corretora posterior, trabalhando ainda na Antiguidade, inseriu a palavra no manuscrito, alinhando-o à leitura que se tornaria dominante nos séculos seguintes. É um retrato, dentro de um único livro físico, de como uma variante textual se espalha e se consolida com o tempo. Isso não muda o núcleo da exigência de Jesus no Sermão do Monte — de que a raiva contra o irmão já pertence à mesma categoria moral do assassinato —, mas define com mais ou menos rigor os limites exatos dessa exigência.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:A ausência de 'sem causa' nos manuscritos mais antigos prova que o texto bíblico foi adulterado por hereges.

    Não há evidência de manipulação deliberada; a diferença é consistente com um padrão amplamente documentado de copistas suavizando, ao longo do tempo, exigências que pareciam severas demais — o caminho inverso do que a acusação de 'adulteração herética' supõe.

  • Dizem que:Essa é uma descoberta recente de estudiosos céticos tentando enfraquecer a Bíblia.

    O próprio Jerônimo, no século IV/V, e Agostinho de Hipona, logo depois, já haviam notado e registrado por escrito que os manuscritos gregos antigos que conheciam não traziam 'sem causa' em .

  • Dizem que:Como existe uma variante nesse versículo, não se pode saber o que Jesus realmente ensinou sobre raiva.

    A variante afeta apenas uma palavra qualificadora; em ambas as formas do texto, Jesus equipara a raiva contra o irmão, chamá-lo de 'Raca' e chamá-lo de 'louco' a atos que levam a julgamento — a estrutura e a gravidade do ensino permanecem as mesmas.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Tradições que seguem o texto crítico eclético (refletidas em traduções como NVI, Almeida Revista e Atualizada revisada, Nova Almeida Atualizada e edições católicas recentes)

    Consideram 'sem causa' um acréscimo posterior, motivado pelo desejo de suavizar o mandamento; preferem a leitura mais curta de Vaticanus e Sinaiticus e traduzem o versículo como proibição de qualquer raiva contra o irmão.

  • Tradições ligadas ao Textus Receptus e ao texto majoritário bizantino (parte do protestantismo conservador, Bíblias como a Almeida Corrigida Fiel e esta edição)

    Sustentam que o texto majoritário, preservado ao longo da maior parte da história da igreja e usado nas traduções clássicas, é a base mais confiável para tradução, e mantêm 'sem causa' como parte legítima do versículo.

  • Igreja Ortodoxa

    Usa liturgicamente o texto bizantino do Novo Testamento grego, que inclui 'sem causa'; não trata a questão como um debate sobre autenticidade, mas como parte da forma do texto que a igreja recebeu e lê continuamente em seu culto.

  • Igreja Católica

    A Vulgata latina de Jerônimo, usada por mais de mil anos, trazia 'sine causa'; a Nova Vulgata (1979) e traduções católicas contemporâneas baseadas no texto crítico grego seguiram Vaticanus e Sinaiticus e removeram a expressão, alinhando-se à leitura mais curta.

O que fazer com isso

Diante de uma variante textual como essa, o mais equilibrado não é escolher um lado por impulso, nem descartar o versículo como corrompido. É reconhecer que a transmissão do Novo Testamento por cópias manuais deixou marcas rastreáveis, e que examiná-las com rigor é parte de como a fé cristã sempre lidou com seus textos — desde Jerônimo e Agostinho. Diferenças de uma palavra raramente mudam o ensino central; convidam a lê-lo com mais atenção, não com menos confiança.

Fontes consultadas4 obras
  • Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
  • Kurt Aland e Barbara Aland. The Text of the New Testament, 1989.
  • David C. Parker. Codex Sinaiticus: The Story of the World's Oldest Bible, 2010.
  • H. J. M. Milne e T. C. Skeat. Scribes and Correctors of the Codex Sinaiticus, 1938.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O que significa a palavra grega que está ausente em Mateus 5:22?

É εἰκῇ (eikê), normalmente traduzida como 'sem causa', 'sem razão' ou 'à toa'. Ela qualifica o tipo de raiva proibida, tornando o mandamento mais restrito quando presente.

O Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus são confiáveis?

São considerados, pela imensa maioria dos especialistas em crítica textual, os dois testemunhos gregos mais antigos e completos do Novo Testamento, copiados no século IV, e por isso recebem peso elevado na reconstrução do texto original.

Por que a Bíblia que estou lendo tem 'sem causa' e outra não tem?

Depende da base textual grega escolhida pelos tradutores: versões ligadas ao Textus Receptus ou ao texto bizantino majoritário mantêm a palavra; versões baseadas no texto crítico eclético (Nestle-Aland/UBS), que dá mais peso a Vaticanus e Sinaiticus, tendem a omiti-la.

Essa diferença muda o sentido geral do Sermão do Monte?

Não muda a lógica geral, que é radicalizar a Lei ao levar o mandamento contra o homicídio até a raiz da raiva no coração; muda apenas o quão absoluta é a proibição da raiva em si, um detalhe que interpretes discutem há séculos.

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Temas

Publicado em 05/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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