Marcos 16:9-20 e o final diferente no Codex Sinaiticus
Por que a Bíblia tem um final diferente para o Evangelho de Marcos em alguns manuscritos antigos?
Resposta curta
O Evangelho de Marcos, na maioria das Bíblias impressas, termina com o Cristo ressuscitado aparecendo a Maria Madalena e aos onze, ordenando a pregação do evangelho a toda criatura e sendo recebido no céu, à direita de Deus (16:9-20). Mas nos dois manuscritos gregos mais antigos e completos de todo o Novo Testamento, o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus, ambos do século IV, o evangelho termina de forma abrupta em 16:8, com as mulheres fugindo apavoradas do túmulo vazio, sem contar nada a ninguém.
Essa diferença é uma das mais estudadas da crítica textual bíblica e é discutida abertamente pelos editores das Bíblias modernas, que costumam sinalizar 9-20 com colchetes ou notas, explicando que faltam nos manuscritos mais antigos, embora presentes na maioria dos manuscritos gregos posteriores e lidos como Escritura por quase toda a história da igreja.
O que diz Codex Sinaítico
Codex Sinaiticus, final do Evangelho de Marcos
O Codex Sinaiticus é um dos dois manuscritos mais antigos e completos de toda a Bíblia grega, copiado à mão por volta de meados do século IV, cerca de trezentos anos depois dos eventos que narra. Foi encontrado ao longo do século XIX no Mosteiro de Santa Catarina, no Sinai, pelo estudioso alemão Constantin von Tischendorf, e hoje suas páginas estão divididas entre a British Library, em Londres, a Universidade de Leipzig, a Biblioteca Nacional da Rússia e o próprio mosteiro, que ainda guarda folhas encontradas em 1975. Ao lado do Codex Vaticanus, de datação semelhante, é a base mais importante que os estudiosos usam para reconstruir o texto grego original do Novo Testamento.
No fim do Evangelho de Marcos, o Sinaiticus apresenta um detalhe que chamou a atenção de paleógrafos: o texto termina em 16:8, e logo em seguida vem um traço decorativo (um coroamento, comum para marcar o fim de um livro), sem deixar espaço em branco, como se o copista considerasse aquele o fim natural do evangelho. Já o Vaticanus, terminando também em 16:8, deixa uma coluna inteira em branco depois do versículo — um espaço vazio incomum, que alguns estudiosos leem como sinal de que o copista conhecia um final mais longo, mas optou por não copiá-lo ali. Estudos paleográficos sobre o Sinaiticus, como os de T. C. Skeat, mostram ainda que as folhas finais de Marcos e iniciais de Lucas nesse manuscrito foram substituídas por um dos copistas responsáveis pelo códice, o que alimenta o debate sobre como esse trecho foi tratado na produção do livro.
Isso não significa que a passagem tenha sido "inventada" depois: referências que se parecem com já aparecem no bispo Irineu de Lião, por volta de 180 d.C., mais de cento e cinquenta anos antes desses dois códices — sinal de que alguma forma da passagem já circulava cedo, ainda que não estivesse nesses dois manuscritos específicos que sobreviveram até hoje.
O que diz a Bíblia
E havendo ressuscitado pela manhã, no primeiro dia da semana, Jesus apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios. Ela se foi, e anunciou aos que estiveram com ele, que estavam tristes e chorando. Quando ouviram que ele estava vivo, e que havia sido visto por ela, eles não creram. E depois ele apareceu em outra forma a dois deles, que estavam indo pelo caminho ao campo. E estes foram anunciar aos outros; mas também não creram neles. Finalmente ele apareceu aos onze, estando eles sentados juntos; e repreendeu pela incredulidade e dureza de coração deles, por não terem crido nos que já o haviam visto ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão serpentes com as mãos; e se beberem algo mortífero, não lhes fará dano algum; porão as mãos sobre os enfermos, e sararão. Então o Senhor, depois de haver lhes falado, foi recebido acima no céu, e sentou-se à direita de Deus. E eles saíram e pregaram por todas as partes, com o Senhor operando com eles, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiam. Amém.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- O texto de Marcos 1:1 a 16:8, incluindo o anúncio da ressurreição pelo jovem junto ao túmulo vazio (16:6), é praticamente idêntico entre o Codex Sinaiticus e o texto usado nas Bíblias modernas.
- Tanto o Codex Sinaiticus quanto o Codex Vaticanus, os dois manuscritos gregos mais antigos e completos do Novo Testamento, terminam o Evangelho de Marcos no mesmo ponto, em 16:8.
Onde divergem
- O Codex Sinaiticus não contém os versículos 9-20, presentes na grande maioria das Bíblias impressas e na tradição manuscrita bizantina majoritária.
- Estudos filológicos apontam diferenças de vocabulário e estilo grego entre Marcos 16:9-20 e o restante do evangelho, o que embasa a hipótese de que o trecho foi composto e anexado separadamente.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- Nenhum: neste caso o Codex Sinaiticus não acrescenta conteúdo extra às Escrituras — ao contrário, ele contém menos texto do que a maioria das Bíblias impressas, encerrando o evangelho em 16:8 em vez de seguir até 16:20.
Em palavras simples
O final do Evangelho de Marcos que você lê na sua Bíblia — com Jesus ressuscitado aparecendo aos discípulos e subindo ao céu — não aparece em dois dos manuscritos mais antigos que temos do Novo Testamento, o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus. Neles, o livro para de repente em , com as mulheres fugindo do túmulo com medo. Essa diferença é conhecida há muito tempo, é discutida abertamente pelos estudiosos e aparece em nota de rodapé na maioria das Bíblias impressas hoje.
Aprofundamento
A ausência de no Sinaiticus e no Vaticanus não é o único motivo pelo qual estudiosos discutem esse trecho. Desde o século XIX, filólogos notaram que o vocabulário e o estilo grego desses doze versículos diferem do restante do evangelho: palavras como "ressuscitado" (empregada de um jeito distinto), "seguirão estes sinais" e certas construções de frase praticamente não aparecem em nenhum outro lugar de Marcos, o que sugere, para a maioria dos especialistas em crítica textual, uma composição separada, talvez do início do século II, anexada ao evangelho por copistas que sentiram falta de um encerramento mais conclusivo do que "elas nada disseram a ninguém, porque tinham medo" — final que, em grego, termina de modo abrupto, com uma conjunção, algo raro em textos antigos.
Essa estranheza do final em 16:8 é justamente o que gera a divergência de opinião. Alguns estudiosos defendem que Marcos realmente pretendia terminar ali, num silêncio provocador que convida o leitor a completar a história com sua própria fé; outros acham mais provável que a última folha do original tenha se perdido antes mesmo de existir cópia alguma, e que o final verdadeiro nunca chegou até nós. Há ainda um terceiro final, mais curto e diferente tanto de 16:8 quanto de 16:9-20, preservado em poucos manuscritos antigos (como o latino Codex Bobbiensis) — evidência de que, em algum momento, mais de uma comunidade cristã tentou resolver à sua maneira o desconforto com o fim abrupto do evangelho.
Na prática, isso pouco muda o que a igreja cristã recebeu como Escritura ao longo dos séculos: a Bíblia usada por gerações de católicos, ortodoxos e protestantes sempre incluiu 16:9-20, e é esse texto, com aparições do ressuscitado, a ordem de pregar e a ascensão, que segue impresso no corpo principal das Bíblias em português, geralmente com uma nota explicando a questão. As edições críticas do Novo Testamento grego usadas por tradutores hoje (como o Novum Testamentum Graece) marcam o trecho entre colchetes duplos, reconhecendo tanto sua ausência nos manuscritos mais antigos quanto sua presença maciça e antiga na tradição manuscrita bizantina, que sustentou o uso litúrgico da passagem por quase toda a história cristã.
Vale notar também que essa é uma discussão interna da própria erudição cristã, não uma disputa entre fé e ciência: os primeiros a apontar a ausência do trecho em manuscritos antigos foram estudiosos ligados a igrejas, empenhados em produzir edições mais fiéis do texto grego, e não céticos tentando negar a ressurreição. O consenso hoje entre especialistas em crítica textual do Novo Testamento — de tradições teológicas variadas — é que provavelmente não saiu da pena do próprio evangelista, mas foi incorporado ainda no século II, cedo o bastante para circular como parte do evangelho em praticamente toda a tradição manuscrita que chegou até a Idade Média, e por isso continua impresso e lido como parte legítima do cânone na esmagadora maioria das igrejas cristãs.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A Igreja escondeu ou censurou esses versículos por muito tempo.
O contrário: a ausência de em manuscritos antigos é discutida abertamente há mais de um século em comentários acadêmicos e aparece em nota de rodapé na maioria das Bíblias impressas de tradução moderna.
Dizem que:Só o Codex Sinaiticus termina Marcos em 16:8; os outros manuscritos antigos concordam com o texto tradicional.
O Codex Vaticanus, da mesma época, também termina em 16:8; a diferença é que o Vaticanus deixa uma coluna em branco depois do versículo, enquanto o Sinaiticus fecha o texto com um traço decorativo, sem espaço vazio.
Dizem que:Sem os versículos 9-20, o Evangelho de Marcos não afirma a ressurreição de Jesus.
O anúncio da ressurreição já está em , na fala do jovem junto ao túmulo vazio ('ele ressuscitou, não está aqui'); o que falta em 16:8 são apenas os relatos de aparições posteriores, não o anúncio da ressurreição em si.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo
Segue a decisão do Concílio de Trento (1546), que reconheceu como canônicos os livros e partes da Vulgata em uso na igreja, incluindo ; o trecho é lido normalmente na liturgia e comentado como parte inspirada do evangelho, ainda que estudos críticos sobre sua origem sejam reconhecidos por exegetas católicos contemporâneos.
Ortodoxia Oriental
Prioriza a tradição manuscrita bizantina, na qual está presente na esmagadora maioria dos exemplares e foi lido como Escritura de forma contínua ao longo de toda a história da igreja oriental; a ausência do trecho em dois códices antigos não é vista como suficiente para alterar o texto recebido pela tradição litúrgica.
Protestantismo (tradição de texto crítico)
A maioria das traduções protestantes modernas, baseadas em edições como o Novum Testamentum Graece, mantém no corpo do texto, mas com colchetes ou nota explicando que o trecho não aparece nos manuscritos gregos mais antigos, deixando ao leitor a informação para julgar com transparência a questão textual.
Movimento do Texto Recebido (Textus Receptus)
Defende que o texto majoritário bizantino, que inclui sem qualificação, reflete com mais fidelidade a transmissão histórica do Novo Testamento do que um pequeno grupo de manuscritos antigos como Sinaiticus e Vaticanus, considerados por essa tradição exemplares atípicos nesse ponto.
O que fazer com isso
Saber que um manuscrito antigo como o Sinaiticus termina Marcos em 16:8 não deveria assustar nem ser usado como arma contra a fé: é o tipo de informação que qualquer Bíblia de estudo séria já registra em nota de rodapé. Ler bem esse tipo de achado é entender que a crítica textual é um trabalho de precisão, feito às claras por estudiosos cristãos e não cristãos, e que ele fortalece — em vez de enfraquecer — a confiança de que sabemos, com honestidade, o que os manuscritos realmente dizem.
Fontes consultadas3 obras
- Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
- T. C. Skeat. The Last Chapter in the History of Codex Sinaiticus (New Testament Studies), 2000.
- David C. Parker. Codex Sinaiticus: The Story of the World's Oldest Bible, 2010.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Codex Sinaiticus nega que Jesus ressuscitou?
Não. O anúncio da ressurreição está em , presente também no Sinaiticus. O que falta nesse manuscrito são os relatos posteriores de aparições e a ascensão, não o anúncio da ressurreição em si.
Por que algumas Bíblias colocam Marcos 16:9-20 entre colchetes?
Porque os editores querem sinalizar, com transparência, que esse trecho não aparece nos dois manuscritos gregos mais antigos e completos do Novo Testamento (Sinaiticus e Vaticanus), embora esteja presente na grande maioria dos manuscritos gregos posteriores.
Existe algum outro final para o Evangelho de Marcos além desses dois?
Sim. Um terceiro final, bem mais curto, aparece em poucos manuscritos antigos, como o Codex Bobbiensis, em latim; ele é diferente tanto do final em 16:8 quanto do final longo em 16:9-20.
O que é o Codex Sinaiticus?
É um manuscrito grego da Bíblia copiado por volta de meados do século IV, um dos dois exemplares mais antigos e completos que existem do Novo Testamento, descoberto no século XIX no Mosteiro de Santa Catarina, no Sinai.
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