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O decreto de Ciro e o Cilindro de Ciro

O Cilindro de Ciro prova o decreto de Ciro que a Bíblia cita no fim de 2 Crônicas?

Resposta curta

2 Crônicas termina citando um decreto de Ciro, rei da Pérsia, autorizando os judeus exilados a voltar e reconstruir o templo em Jerusalém — palavras postas na boca de um rei estrangeiro, mas atribuídas à iniciativa do SENHOR. Nas ruínas da Babilônia, em 1879, acharam um cilindro de argila com inscrição do próprio Ciro, hoje no Museu Britânico, descrevendo uma política real de restaurar cultos e devolver povos deportados às suas cidades.

O cilindro não cita Jerusalém nem os judeus: fala de deuses e povos mesopotâmicos, escrito para o clero de Babilônia, em nome do deus Marduque. Ainda assim, documenta de modo independente o tipo de política imperial que o texto bíblico atribui a Ciro em relação a Judá — pano de fundo histórico plausível para o decreto citado em Crônicas, não uma cópia ou prova direta dele.

O que diz Cilindro de Ciro

Cilindro de Ciro, decreto de repatriação

2 Crônicas fecha a história de Israel no momento mais baixo — o templo destruído, o povo exilado na Babilônia — e termina, ainda assim, em tom de esperança: um decreto de Ciro, rei persa, autorizando o retorno e a reconstrução. Esse mesmo decreto abre o livro de Esdras (1:1-4), o que sugere que Crônicas foi composto ou finalizado no período persa, provavelmente no século IV a.C., como uma espécie de ponte editorial para a narrativa da restauração.

Historicamente, Ciro II, fundador do Império Aquemênida, tomou Babilônia em 539 a.C. sem grande resistência, encerrando o domínio neobabilônico que havia deportado Judá décadas antes. É desse momento — a conquista de Babilônia e a reorganização do território sob novo governo — que vem o Cilindro de Ciro: um cilindro de argila cozida, com cerca de 22 cm, coberto de escrita cuneiforme em língua acadiana. Foi descoberto em 1879 pelo arqueólogo assírio-britânico Hormuzd Rassam nas ruínas do templo de Esagila, dedicado a Marduque, em Babilônia, e está hoje no Museu Britânico (peça BM 90920).

O texto do cilindro pertence a um gênero bem conhecido da Mesopotâmia: a inscrição real de fundação ou restauração, escrita para legitimar um novo rei perante o deus principal da cidade conquistada. Nele, Ciro se apresenta como escolhido por Marduque para depor Nabonido, o último rei babilônico, acusado de negligenciar os cultos tradicionais. Ciro descreve como devolveu imagens de deuses às suas cidades de origem e permitiu que povos antes deportados por reis babilônicos retornassem às suas terras.

É esse quadro mais amplo — uma política declarada de restauração de cultos locais e repatriação de exilados — que estudiosos do Império Persa, como Amélie Kuhrt e Pierre Briant, usam para situar historicamente o tipo de decreto que 2 Crônicas e Esdras atribuem a Ciro em relação a Judá, sem que o cilindro seja, ele mesmo, esse decreto.

Ler mais sobre Cilindro de Ciro

O que diz a Bíblia

Mas ao primeiro ano de Ciro rei dos persas, para que se cumprisse a palavra do SENHOR por boca de Jeremias, o SENHOR induziu o espírito de Ciro rei dos persas, o qual fez apregoar por todo seu reino, e também por escrito, dizendo: Assim diz Ciro rei dos persas: o SENHOR, o Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra; e ele me encarregou que lhe edifique casa em Jerusalém, que é em Judá. Quem houver de vós de todo seu povo, o SENHOR seu Deus seja com o tal, e suba.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Ambos os textos atribuem a Ciro uma política de devolver povos deportados às suas terras de origem: o cilindro fala em reunir habitantes exilados e 'restituí-los às suas moradas'; 2 Crônicas 36:23 registra Ciro autorizando quem quiser 'subir' para Judá.
  • Ambos apresentam Ciro autorizando a restauração de um culto/santuário local após uma conquista: o cilindro descreve a devolução de imagens divinas a seus santuários na Mesopotâmia; Crônicas descreve a autorização para reconstruir a 'casa' do SENHOR em Jerusalém.
  • Ambos os textos são formulados como proclamação em primeira pessoa do próprio Ciro ('Assim diz Ciro' em Crônicas corresponde ao estilo de autoapresentação real usado no cilindro).
  • A cronologia é compatível: o cilindro data de logo após a tomada de Babilônia por Ciro em 539 a.C.; o decreto bíblico é situado 'ao primeiro ano de Ciro', ou seja, no início do seu governo sobre o antigo território babilônico, do qual Judá fazia parte.

Onde divergem

  • O cilindro é dirigido ao deus Marduque e ao clero de Babilônia, enquadrando Ciro como escolhido por essa divindade mesopotâmica; em Crônicas, Ciro fala em nome do SENHOR, 'o Deus dos céus', identificado com o Deus de Israel.
  • O cilindro não cita Jerusalém, Judá ou os judeus em nenhum ponto — fala em termos gerais de cidades e povos da Mesopotâmia e do Elam; o texto bíblico é específico sobre Jerusalém e a reconstrução do templo ali.
  • O cilindro é uma inscrição gravada em argila cozida, em acadiano, voltada primariamente para a elite religiosa babilônica; o decreto de Crônicas é transmitido em hebraico (com uma versão paralela em aramaico em Esdras 6), como texto religioso israelita voltado aos exilados judeus.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • O relato da conquista de Babilônia por Ciro e sua apresentação como libertador escolhido por Marduque contra o rei Nabonido, acusado de negligenciar os cultos tradicionais babilônicos.
  • A lista de cidades mesopotâmicas e elamitas específicas (Assur, Susa, Agade, Esnuna, Zamban, Me-Turnu, Der, entre outras) para onde Ciro diz ter devolvido deuses e povos.
  • A genealogia de Ciro no cilindro, que o liga aos reis anteriores de Anshan.
  • A menção à reconstrução de muralhas e estruturas urbanas de Babilônia realizada por ordem de Ciro.
Em palavras simples

A Bíblia diz que o rei Ciro, da Pérsia, deixou os judeus exilados voltarem para Jerusalém e reconstruírem o templo. Um objeto real, achado na Babilônia, mostra Ciro anunciando algo parecido: devolver povos exilados às suas terras e restaurar seus templos. Só que esse objeto fala de deuses babilônicos, não do Deus de Israel, e não menciona Jerusalém. Ele mostra que essa era uma política mais ampla do império, não é o próprio decreto bíblico.

Aprofundamento

O ponto central para entender essa comparação é o que o Cilindro de Ciro diz — e o que ele não diz. Em nenhum trecho da inscrição aparecem os nomes Jerusalém, Judá ou os judeus. O texto fala, em termos genéricos, de "deuses" que Ciro devolveu "aos seus santuários" e de povos que reuniu e "restituiu às suas habitações", citando explicitamente cidades como Assur, Susa, Agade, Esnuna, Zamban, Me-Turnu e Der — todas na Mesopotâmia e no Elam, não na Palestina. A inscrição também é escrita na primeira pessoa de Ciro, mas dirigida ao deus Marduque e ao clero babilônico, apresentando o rei persa como o libertador escolhido para corrigir a suposta impiedade de Nabonido — um discurso de legitimação política típico da realeza mesopotâmica, não uma proclamação religiosa em nome de YHWH.

Isso não invalida a comparação com ; apenas define seus limites. Historiadores do período persa, como Amélie Kuhrt (num artigo influente de 1983 no Journal for the Study of the Old Testament) e Pierre Briant (em sua história do Império Aquemênida), argumentam que o cilindro é evidência de uma política real e documentada de Ciro — restaurar cultos locais e permitir repatriações — aplicada de forma variável conforme a região e o povo. Nessa leitura, o decreto sobre o templo de Jerusalém, registrado de forma independente em Crônicas e em Esdras (em versões ligeiramente diferentes, uma em hebraico e outra em aramaico), se encaixa como um caso específico dentro desse padrão imperial mais amplo, mesmo sem existir um documento externo que mencione Judá por nome.

Vale notar também que a fama do cilindro cresceu para além do que o texto sustenta: em 1971, o governo do Irã distribuiu réplicas e promoveu o objeto como suposta "primeira carta de direitos humanos" da história, incluindo uma cópia doada à sede da ONU em Nova York. Egiptólogos e assiriólogos, incluindo curadores do próprio Museu Britânico como Irving Finkel, apontam que essa é uma leitura moderna e política, projetada sobre um gênero antigo bem documentado — a inscrição de restauração real —, e não uma descrição precisa do conteúdo ou da intenção original do texto.

Assim, o valor histórico do cilindro para o leitor de 2 Crônicas está em mostrar que a ideia de um rei persa autorizando o retorno de povos exilados e a reconstrução de seus templos não é uma invenção literária tardia, mas corresponde a um padrão de governo real e atestado de Ciro II — ainda que o documento específico citado na Bíblia sobre Jerusalém não tenha sobrevivido como achado arqueológico independente.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O Cilindro de Ciro é a cópia física do decreto bíblico e menciona Jerusalém, o templo ou os judeus.

    O texto do cilindro, hoje no Museu Britânico (peça BM 90920), fala de forma genérica em deuses e povos mesopotâmicos e elamitas devolvidos a suas cidades — cita lugares como Assur, Susa e Agade, mas não Jerusalém, Judá ou os judeus. É um documento de propaganda real dirigido ao clero de Babilônia, não um decreto específico para Judá.

  • Dizem que:O Cilindro de Ciro é a primeira declaração de direitos humanos da história.

    Essa leitura foi popularizada por iniciativa política do governo do Irã na década de 1970, que distribuiu réplicas e doou uma à ONU. Assiriólogos e curadores especializados no objeto, como Irving Finkel, do Museu Britânico, apontam que se trata de uma inscrição real de restauração e legitimação política, um gênero bem conhecido na Mesopotâmia antiga — não um texto sobre direitos individuais no sentido moderno.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Protestante/Evangélica

    Tende a ler o episódio à luz de e 45:1, enfatizando a soberania de Deus sobre um rei pagão como cumprimento profético direto, com o Cilindro de Ciro servindo de confirmação histórica geral da disposição real de Ciro para com povos exilados.

  • Católica

    Situa o decreto de Ciro dentro da pedagogia providencial de Deus na história da salvação, vendo a restauração do templo como preparação necessária para o período do Segundo Templo que antecede a vinda de Cristo, sem depender de uma correspondência documental exata com o cilindro.

  • Ortodoxa

    Na linha da leitura patrística, entende Ciro como instrumento (skeuos) usado pela providência divina para restaurar o culto verdadeiro, sem atribuir santidade ao próprio rei ou ao seu edito, e valoriza o cilindro sobretudo como testemunho da continuidade histórica do Oriente Próximo antigo.

  • Tradição histórico-crítica dentro do protestantismo liberal

    Reconhece o valor do cilindro como confirmação de uma política persa mais ampla de tolerância religiosa, mas evita conclusões apologéticas fortes, tratando o decreto específico sobre Jerusalém como uma tradição bíblica plausível, porém não comprovada por um achado independente.

O que fazer com isso

Ao ler achados como o Cilindro de Ciro ao lado de um texto bíblico, vale resistir a duas tentações: tratá-lo como prova definitiva do relato bíblico, ou descartar a comparação porque o documento não cita Jerusalém. O mais honesto é reconhecer o que ele realmente mostra — uma política imperial documentada de forma independente — e o que ele não mostra, mantendo claras as diferenças de autor, público e propósito entre as duas fontes.

Fontes consultadas4 obras
  • Amélie Kuhrt. The Cyrus Cylinder and Achaemenid Imperial Policy, Journal for the Study of the Old Testament 25, 1983.
  • Pierre Briant. From Cyrus to Alexander: A History of the Persian Empire, 2002.
  • Lester L. Grabbe. A History of the Jews and Judaism in the Second Temple Period, vol. 1: Yehud, 2004.
  • Irving Finkel (org.). The Cyrus Cylinder: The King of Persia's Proclamation from Ancient Babylon, 2013.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Cilindro de Ciro fala em Jerusalém ou no templo judaico?

Não. O texto menciona cidades e deuses da Mesopotâmia e do Elam, como Assur, Susa e Agade, mas não cita Jerusalém, Judá ou os judeus em nenhum trecho conhecido.

Onde está o Cilindro de Ciro hoje?

Está no Museu Britânico, em Londres, catalogado como peça BM 90920, desde sua descoberta em 1879 nas ruínas do templo de Esagila, na Babilônia.

Então o cilindro não tem nenhuma relação com o decreto bíblico?

Tem uma relação indireta e importante: ele documenta que Ciro de fato praticava uma política de restaurar cultos locais e repatriar povos exilados, o que dá plausibilidade histórica ao tipo de decreto que a Bíblia atribui a ele para Judá, mesmo sem ser o próprio documento.

Em que língua e material o cilindro foi escrito?

Em acadiano, na escrita cuneiforme, gravado sobre um cilindro de argila cozida, seguindo o padrão das inscrições reais de fundação e restauração da Mesopotâmia antiga.

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Publicado em 05/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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