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Significado Bíblico
Personagens obscurosintermediária
Ilustração da categoria Personagens obscuros

Zeres, a esposa de Hamã que sugeriu a forca de 50 côvados

Quem foi Zeres, a esposa de Hamã que sugeriu construir a forca para Mardoqueu?

Então Hamã saiu naquele dia contente e alegre de coração; porém, quando viu a Mardoqueu à porta do rei, e que ele não se levantava nem se movia por ele, então Hamã se encheu de furor contra Mardoqueu. Porém Hamã se conteve, e veio a sua casa, e mandou vir seus amigos, e a Zeres sua mulher. E Hamã lhes contou a glória de seus riquezas, e a multidão de seus filhos, e tudo em que o rei tinha lhe engrandecido e lhe exaltado sobre os príncipes e servos do rei. Hamã também disse: Até a rainha Ester a ninguém fez vir com o rei ao banquete que ela preparou, a não ser a mim; e ainda amanhã sou convidado dela juntamente com o rei. Porém tudo isto não me satisfaz, enquanto eu ver o judeu Mardoqueu sentado à porta do rei. Então sua mulher Zeres e todos os seus amigos lhe disseram: Seja feita uma forca de cinquenta côvados de altura, e amanhã dize ao rei para que nela enforquem a Mardoqueu; e então vai alegre com o rei ao banquete. E este conselho foi do agrado de Hamã, e ele mandou fazer a forca.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Zeres aparece apenas duas vezes no livro de Ester, mas sua primeira fala muda o rumo da trama. Em , depois de ver Mardoqueu recusar-se novamente a se prostrar diante dele, Hamã desabafa com a esposa e os amigos. Zeres sugere construir uma forca de cinquenta côvados — algo em torno de vinte e dois metros de altura — e pedir ao rei que Mardoqueu seja executado nela antes mesmo do banquete.

A ironia é brutal: a estrutura que Zeres propõe para eliminar o inimigo de Hamã termina sendo usada, poucos capítulos depois, para executar o próprio Hamã (). O conselho doméstico mais lembrado do livro se transforma no instrumento da queda do marido.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

O instrumento de morte preparado contra o inocente, que se volta contra quem o construiu, é um padrão que a Bíblia repete (Salmo 7:15-16), e que ecoa, de forma ampla e não específica a este texto, a lógica da cruz: o meio planejado para destruir Cristo torna-se, na ressurreição, o instrumento da derrota definitiva do mal. A ligação é temática, não uma tipologia direta que o Novo Testamento estabeleça a partir de Ester.

Em palavras simples

Zeres era a esposa de Hamã, o vilão do livro de Ester. Quando o marido ficou furioso porque Mardoqueu não se ajoelhava diante dele, ela deu uma sugestão: construir uma forca gigante e matar Mardoqueu logo pela manhã. Hamã adorou a ideia e mandou construir. Só que o plano deu errado: pouco depois, foi o próprio Hamã que acabou morrendo naquela mesma forca que a esposa sugeriu.

Contexto histórico

Zeres é mencionada como אֵשֶׂת הָמָן (esheth Haman), "mulher de Hamã", inserida num círculo íntimo de conselheiros chamado no texto de "seus amigos" (ohavav) e "todos os seus sábios" — uma espécie de gabinete informal que Hamã consulta em momentos de crise emocional, e não apenas política. A cena ocorre imediatamente depois de dois episódios humilhantes para Hamã: primeiro, ele é forçado a testemunhar Mardoqueu recusando-se a se prostrar diante dele mesmo depois da autorização real para o extermínio dos judeus; segundo, ele já havia se vangloriado, na mesma passagem, de sua riqueza, seus filhos e sua posição de destaque no banquete privado da rainha Ester — um contraste que a narrativa usa deliberadamente para amplificar o quanto a simples recusa de Mardoqueu o desestabiliza emocionalmente.

É nesse contexto de orgulho ferido que Zeres e os amigos de Hamã propõem a solução: erguer uma estrutura de execução com antecedência, antes mesmo de qualquer novo confronto, e conseguir a aprovação real de imediato, na manhã seguinte. O plano parece calculado para resolver o problema de Mardoqueu rapidamente e devolver a Hamã a sensação de controle que a cena da recusa lhe havia tirado. Hamã aprova a ideia com entusiasmo e manda construir a forca imediatamente — sem saber que, na mesma noite, o rei Assuero terá insônia, vai mandar ler os registros do reino, descobrirá o serviço não recompensado que Mardoqueu prestara anos antes (), e a manhã seguinte vai correr na direção oposta à que Zeres previu.

O texto não dá nenhum detalhe sobre a origem de Zeres, sua família ou seu papel social além do de esposa e conselheira doméstica de Hamã. Isso a coloca numa categoria comum no livro de Ester: personagens secundários que aparecem por poucos versículos, mas cuja fala tem peso desproporcional ao espaço que ocupam no texto — como os eunucos Harboná e Hataque, ou os próprios sábios anônimos que cercam Hamã. Zeres é a única mulher nomeada nesse círculo de conselheiros, o que sugere que sua opinião carregava peso real dentro da casa de Hamã, e não era apenas um comentário social sem consequência.

Aprofundamento

O termo hebraico traduzido como "forca" é עֵץ (ets), que significa literalmente "árvore" ou "madeira" — a mesma palavra usada para "madeiro" em outras passagens do Antigo Testamento. O verbo associado, תָּלָה (talah), "pendurar, suspender", torna provável que o texto descreva algo próximo de empalamento ou exposição pública do corpo sobre uma estaque de madeira, prática de execução documentada entre os persas por autores clássicos como Heródoto, mais do que o enforcamento por sufocamento comum em execuções ocidentais modernas. A altura mencionada, cinquenta côvados — algo entre vinte e um e vinte e três metros, dependendo do padrão de côvado adotado — é, segundo Michael V. Fox, mais um exemplo do estilo hiperbólico e quase cômico do livro de Ester, que já havia usado números exagerados para o banquete de Assuero (1:4) e para a fortuna oferecida por Hamã (3:9): uma estrutura dessa altura seria estruturalmente inviável e visualmente absurda, funcionando como exagero satírico da desproporção do próprio ódio de Hamã, não como medida arquitetônica literal.

Zeres reaparece uma segunda e última vez em , agora entre os "sábios" de Hamã, no momento em que ele volta humilhado depois de ser forçado a conduzir Mardoqueu, vestido com as vestes reais, pelas ruas de Susã. É esse mesmo grupo — Zeres incluída — que reconhece, antes do próprio desfecho, que a sorte de Hamã está decidida: "se Mardoqueu, diante de quem começaste a cair, é da linhagem dos judeus, não prevalecerás contra ele, mas certamente cairás diante dele". Adele Berlin observa que essa fala tem função estrutural precisa: coloca no papel de profetas involuntários exatamente os conselheiros pagãos que, poucas horas antes, haviam recomendado a forca — reforçando o padrão de reviravolta irônica que percorre todo o livro, em que cada instrumento de destruição planejado contra Mardoqueu e os judeus acaba se voltando contra quem o concebeu.

Essa estrutura de espelhamento — o conselho que se torna sentença — é um dos recursos literários mais estudados do livro de Ester. Jon D. Levenson chama esse padrão de "reversão" (peripeteia), tomando de empréstimo um termo da poética grega para descrever como a trama vira sistematicamente contra seus vilões: o decreto contra os judeus se transforma em decreto de autodefesa (), a data escolhida por sorteio para o extermínio se transforma na data da vitória judaica (), e a forca de Zeres se transforma no instrumento da execução de Hamã. Cada reviravolta reforça a mesma ideia sem nunca declará-la teologicamente: o mal planejado contra o inocente tende a recair sobre quem o planeja, mesmo sem qualquer intervenção divina visível no texto.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Zeres é uma personagem menor e irrelevante, só uma nota de rodapé na história de Hamã.

    Zeres não só propõe a ideia que desencadeia a queda de Hamã (a forca que depois o mata), como reaparece em 6:13 entre os que reconhecem, antes do próprio desfecho, que Hamã está condenado — um papel narrativo estruturalmente importante para o texto.

Como diferentes tradições cristãs leem1 leitura

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • judaísmo rabínico

    Tradições midráshicas expandem o papel de Zeres, atribuindo a ela, em algumas versões, dez filhos que morrem junto com Hamã (cf. ), reforçando literariamente a ideia de que toda a casa de Hamã é arrastada pela mesma reviravolta que ela ajudou a planejar.

No original2 termos
  • עֵץets6086

    "Árvore/madeira", termo usado para a estrutura de execução sugerida por Zeres, sugerindo empalamento ou exposição sobre estaca, prática persa de execução.

  • תָּלָהtalah8518

    "Pendurar, suspender"; verbo usado para a execução planejada contra Mardoqueu e, ironicamente, aplicada depois ao próprio Hamã.

O que fazer com isso

A história de Zeres é um estudo de caso sobre como conselhos dados por proximidade emocional, sem distanciamento crítico, podem acelerar a própria ruína de quem os recebe. Ela queria proteger o orgulho do marido e apressou exatamente o desfecho que o destruiu. É um alerta contra decisões tomadas sob impulso de vingança, mesmo quando vêm de quem só quer ajudar quem ama.

Passagens relacionadas4

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas2 obras
  • Michael V. Fox. Character and Ideology in the Book of Esther, 2001.
  • Adele Berlin. Esther (The JPS Bible Commentary), 2001.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O que aconteceu com a forca que Zeres sugeriu construir?

Ela foi usada para executar o próprio Hamã, depois que o rei descobriu que Mardoqueu havia salvado sua vida anos antes e decidiu honrá-lo em vez de puni-lo.

Zeres aparece mais vezes no livro de Ester?

Ela aparece apenas duas vezes: sugerindo a forca em 5:14 e reconhecendo, junto aos sábios de Hamã, que ele está condenado em 6:13.

Temas

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  • #ironia-biblica
  • #antigo-testamento

Publicado em 16/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 2 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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Por que Mardoqueu se recusou a se curvar diante de Hamã?

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