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Significado Bíblico
Teologia densaintermediária
Ilustração da categoria Teologia densa

Salmo 87: quando nações estrangeiras "nascem" em Sião

o que significa o salmo 87

Farei menção de Raabe e Babilônia aos que me conhecem; eis que da Filístia, Tiro e Cuxe se dirá: Este é nascido ali. E de Sião se dirá: Este e aquele outro nasceram ali. E o próprio Altíssimo a manterá firme. O SENHOR contará, quando escrever dos povos: Este nasceu ali. (Selá)

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

O Salmo 87 celebra Sião com uma declaração surpreendente: nações distantes ou hostis a Israel — Raabe, nome poético para o Egito, além de Babilônia, Filístia, Tiro e Cuxe — aparecem registradas como se tivessem nascido ali. A fórmula "este é nascido ali" (versículos 4 a 6) evoca a linguagem de um censo de cidadania, em que se anota a naturalidade de cada pessoa. Aplicada a estrangeiros, ela afirma que pertencer a Sião não depende de origem, mas de um ato soberano de Deus.

Essa visão ecoa, dentro do próprio Antigo Testamento, a promessa a Abraão de que todas as famílias da terra seriam abençoadas por meio dele. O salmo não explica o mecanismo; apenas a declara fato decidido por Deus, que "contará" os povos e lhes dará o mesmo registro de nascimento dos filhos naturais da cidade.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O Salmo 87 não é citado diretamente no Novo Testamento, mas antecipa um tema que atravessa toda a Escritura e chega ao seu ponto mais alto em Cristo: a ideia de que a cidadania no povo de Deus deixa de ser questão de nascimento físico e passa a ser concedida por um ato divino, disponível a pessoas de todas as nações. Paulo descreve os que antes eram "estrangeiros e forasteiros" agora como "concidadãos dos santos" (), e o autor de Hebreus fala da "Jerusalém celestial" à qual os crentes já se achegaram (). Apocalipse retoma a mesma imagem de Sião ao descrever a Nova Jerusalém recebendo "a glória e a honra das nações" (). O Salmo 87 não fala de Jesus, mas a trajetória que ele abre — Deus registrando estrangeiros como filhos de Sião — só se cumpre plenamente quando, em Cristo, judeus e gentios se tornam, de fato, um só povo, nascido não da carne, mas do Espírito.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

O Salmo 87 é um cântico sobre Jerusalém, chamada de Sião. Ele cita povos que eram estranhos ou até inimigos de Israel — Egito, Babilônia, os filisteus, a cidade de Tiro e a região de Cuxe — e diz algo incomum: Deus vai registrar pessoas desses povos como se tivessem nascido em Sião. É como ganhar uma cidadania por decisão divina, não por nascimento de sangue. A ideia central é que fazer parte do povo de Deus não depende da origem de cada um, mas de um chamado que atravessa fronteiras e inimizades antigas.

Contexto histórico

O Salmo 87 é atribuído aos "filhos de Coré", um grupo de levitas responsável por parte da música do templo (compare os títulos dos , 44-49, 84-85 e 88). É um salmo curto e denso, classificado por muitos comentaristas como um "cântico de Sião", categoria que celebra Jerusalém como a cidade escolhida por Deus (outros exemplos incluem os , 48 e 122).

Os versículos 4 a 6 citam cinco nomes que, juntos, cobrem os grandes poderes e povos ao redor de Israel. "Raabe" é um apelido poético para o Egito, usado também em e 51:9, associado a uma criatura mítica do caos nas tradições do antigo Oriente Próximo e empregado pelos poetas hebreus como figura de linguagem para a maior potência ao sul. "Cuxe" designa a região ao sul do Egito, aproximadamente a Núbia, no atual Sudão. A Filístia era a faixa de cidades-estado filisteias na costa a oeste; Tiro, a cidade fenícia ao norte; e Babilônia, o grande império ao leste. Citados juntos, esses nomes formam um panorama dos quatro pontos cardeais: o salmista está dizendo que povos de todas as direções, incluindo antigos opressores de Israel, serão contados entre os cidadãos de Sião.

A expressão "este nasceu ali" reflete uma prática documentada de registro de nascimento e genealogia usada para estabelecer direitos de cidadania e herança em cidades antigas (compare o uso de listas de naturalidade em textos como , em sentido negativo, e , em sentido de contagem de tribos). O salmista toma essa linguagem administrativa e a aplica, de forma poética e surpreendente, a estrangeiros: Deus mesmo atua como o escriba que registra a naturalidade espiritual de pessoas nascidas fora de Israel. O Selá ao final do versículo 6 marca uma pausa musical ou litúrgica, sugerindo que a comunidade original parava para refletir sobre essa afirmação antes de prosseguir ao verso final sobre as "fontes" que estão em Sião (v. 7).

Aprofundamento

O maior desafio de leitura do Salmo 87:4-6 está em decidir o que significa, na prática, "nascer" em Sião sem ter nascido ali fisicamente. O hebraico usa a raiz verbal ילד (yalad, "gerar", "dar à luz"), na forma passiva ("foi gerado", "nasceu"), a mesma raiz usada para nascimentos literais em todo o Antigo Testamento. O salmista não está falando de migração ou de conversão religiosa formal — ele está usando deliberadamente a linguagem de nascimento e registro civil para descrever algo que, para os padrões da época, seria da ordem do impossível: um egípcio ou um babilônio recebendo o mesmo status de naturalidade que um judeu nascido em Jerusalém.

Essa imagem ganha força quando se lembra quem são os povos citados. Raabe (Egito) escravizou Israel; Babilônia destruiu o templo e exilou o povo; a Filístia foi rival constante durante os séculos da monarquia; Tiro, aliada comercial ambígua; Cuxe, uma potência distante e exótica. Não são nações neutras, mas justamente aquelas que a memória histórica de Israel associava a opressão, exílio ou estranhamento cultural. O salmo não apaga essa história, mas a supera: os antigos adversários aparecem registrados no mesmo livro de nascimento da cidade de Deus.

Comentaristas como Peter Craigie (Word Biblical Commentary, Psalms 1-50) e Hans-Joachim Kraus (Psalms 60-150, A Continental Commentary) observam que o Salmo 87 é um dos textos mais abertamente universalistas do Saltério, ao lado de textos como , que também prevê Egito e Assíria unidos a Israel no culto ao mesmo Deus. Isso não significa que o salmo abandone a centralidade de Sião: pelo contrário, o texto reforça que Sião continua sendo o centro, a origem simbólica de todos — mas amplia radicalmente quem pode reivindicar essa origem.

Vale notar que os versículos 5 e 6 repetem a fórmula em formas ligeiramente distintas ("este e aquele outro nasceram ali", "este nasceu ali"), um recurso poético hebraico de repetição com variação que reforça a ideia sem apenas copiá-la. O salmo termina, no versículo 7, com a imagem de cantores e dançarinos declarando "todas as minhas fontes estão em ti" — uma metáfora de vida, alegria e sustento que tem origem em Sião, reforçando que pertencer a essa cidade é também uma fonte de identidade e alegria compartilhada por todos os que ali são "registrados", venham de onde vierem.

Outro ponto que costuma gerar confusão é achar que o salmo está prometendo a conversão religiosa formal desses povos, como se descrevesse um evento histórico específico e datável. O texto não afirma isso: ele fica no nível da imagem poética e teológica, sem indicar quando ou como a inclusão aconteceria na prática, deixando esse desdobramento em aberto para leituras posteriores. É essa mesma abertura que permite ao Salmo 87 ser lido, ao longo da história da interpretação, tanto como esperança para o futuro de Israel quanto, entre cristãos, como figura do alcance universal do evangelho — sem que o próprio salmo precise escolher entre essas leituras para manter sua força.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O Salmo 87 está prevendo a conversão de nações específicas ao judaísmo em algum momento histórico determinado.

    O texto não menciona conversão religiosa formal nem aponta um evento histórico datável; ele usa a linguagem de registro civil de forma poética e teológica, sem detalhar o "como" nem o "quando" dessa inclusão, algo que caberá a leituras posteriores, judaicas e cristãs, tentar precisar.

  • Dizem que:Raabe, no Salmo 87, é a mesma Raabe (Raabe de Jericó) mencionada no livro de Josué.

    São nomes hebraicos diferentes: a Raabe do Salmo 87 é רַהַב, um epíteto poético para o Egito ligado a uma tradição de figura do caos; a Raabe de Jericó, em e 6, é רָחָב, um nome próprio pessoal distinto, sem relação etimológica direta.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • católica

    A tradição patrística, com Agostinho à frente, leu Sião como figura da Igreja, mãe espiritual de todos os povos: assim como o salmo registra estrangeiros como nascidos em Sião, a Igreja gera filhos de todas as nações por meio do batismo, novo nascimento que independe da origem étnica de cada um.

  • reformada

    Teólogos reformados tendem a ler o Salmo 87 dentro da teologia da aliança, como antecipação da igreja formada por judeus e gentios eleitos, unidos não pela linhagem física de Abraão, mas pela graça soberana de Deus que registra seu povo independentemente de fronteiras nacionais.

  • luterana

    A leitura luterana enfatiza o contraste entre nascimento natural e nascimento espiritual: assim como ninguém nasce fisicamente cidadão de Sião por mérito ou esforço próprio, ninguém se torna filho de Deus por obras; a inclusão dos povos no salmo prefigura a justificação pela fé, oferecida igualmente a judeus e gentios.

  • pentecostal

    Parte da tradição pentecostal, especialmente em vertentes de leitura mais literal da profecia, entende o Salmo 87 como uma promessa que ainda terá cumprimento visível e futuro, quando nações da terra literalmente afluirão a uma Jerusalém restaurada no reinado messiânico, e não apenas como figura espiritual da igreja atual.

No original4 termos
  • רַהַבRahabH7294

    nome poético para o Egito nos textos proféticos e poéticos hebraicos, associado a uma figura de caos usada como metáfora para a grande potência ao sul

  • כּוּשׁKushH3568

    região ao sul do Egito, aproximadamente a Núbia, no atual Sudão

  • צִיּוֹןTsiyonH6726

    Sião, nome da colina e, por extensão, de Jerusalém como cidade escolhida por Deus

  • יֻלַּדyulladH3205

    forma passiva do verbo "gerar/dar à luz", usada aqui no sentido de ser registrado como natural de um lugar

O que fazer com isso

O Salmo 87 convida a rever que critérios usamos, hoje, para decidir quem pertence e quem não pertence a uma comunidade de fé. Antes de julgar alguém como estranho demais, distante demais ou com passado incompatível demais, vale lembrar que o próprio texto bíblico já registrou nações inteiras, com históricos de conflito real com Israel, como cidadãs plenas de Sião. Isso não anula diferenças de cultura ou de história, mas relativiza qualquer critério de pertencimento baseado em origem, nacionalidade ou passado.

Passagens relacionadas8

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Peter C. Craigie. Word Biblical Commentary: Psalms 1-50, 1983.
  • Hans-Joachim Kraus. Psalms 60-150: A Continental Commentary, 1989.
  • Derek Kidner. Psalms 73-150: An Introduction and Commentary, 1975.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Quem é "Raabe" no Salmo 87?

É um apelido poético para o Egito, também usado em e 51:9. Não tem relação com a Raabe de Jericó do livro de Josué, que é um nome hebraico diferente.

O que significa "este nasceu ali" no Salmo 87?

É uma fórmula de registro de cidadania ou naturalidade, como um assento de nascimento. O salmista a aplica a estrangeiros para dizer que Deus os conta como se tivessem nascido em Sião, concedendo-lhes pleno pertencimento.

O Salmo 87 fala sobre a igreja cristã?

O salmo, em seu sentido original, fala de nações estrangeiras sendo incluídas entre os cidadãos de Sião. Cristãos, em diferentes tradições, veem nessa inclusão uma antecipação da comunidade formada por judeus e gentios, mas essa é uma leitura teológica posterior, não uma afirmação explícita do próprio salmo.

Por que Babilônia e Filístia, inimigas de Israel, aparecem nesse salmo de forma positiva?

Justamente para mostrar o alcance da inclusão: o salmista escolhe nações historicamente hostis ou distantes de Israel para enfatizar que nenhuma barreira de história ou de origem impede alguém de ser contado entre o povo de Deus.

Temas

  • Israel
  • #salmos
  • #antigo-testamento
  • #siao
  • #nacoes
  • #profecia-messianica
  • #universalismo-biblico

Publicado em 08/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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