
As quatro promessas por trás dos quatro cálices da Páscoa
Por que o seder de Páscoa judaico tem quatro cálices de vinho?
Portanto dirás aos filhos de Israel: EU SOU O SENHOR; e eu vos tirarei de debaixo das cargas do Egito, e vos livrarei de sua servidão, e vos resgatarei com braço estendido, e com grandes juízos; E vos tomarei por meu povo e serei vosso Deus: e vós sabereis que eu sou o SENHOR vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas do Egito: E vos meterei na terra, pela qual levantei minha mão que a daria a Abraão, a Isaque e a Jacó: e eu vos a darei por herança. EU SOU O SENHOR.
Resposta curta
Em , Deus repete a Moisés quatro verbos de ação redentora sobre Israel: "eu vos tirarei", "vos livrarei", "vos resgatarei" e "vos tomarei" para si como povo. Não é linguagem decorativa: é uma sequência jurídica e emocional que descreve etapas distintas da libertação, da saída física da escravidão até a formação de um vínculo de aliança permanente.
A tradição judaica do Segundo Templo e, depois, rabínica, formalizou essa passagem na estrutura do seder de Páscoa, associando cada verbo a um dos quatro cálices de vinho bebidos durante a refeição ritual. É por isso que a Última Ceia de Jesus, celebrada nesse contexto litúrgico, provavelmente envolveu ao menos um desses cálices específicos, carregado de peso simbólico próprio.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaSe o terceiro cálice do seder, associado ao verbo "resgatar" de , é de fato o "cálice depois da ceia" citado por Paulo e Lucas, então Jesus teria ligado deliberadamente sua morte a essa linguagem específica de resgate familiar. Ele se apresenta como quem resgata seu povo do mesmo modo que Deus prometeu resgatar Israel do Egito.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Deus promete a Moisés que vai fazer quatro coisas por Israel: tirar o povo do Egito, livrar do trabalho forçado, resgatar como um parente resgataria alguém escravizado, e tomar Israel para si como seu próprio povo. Séculos depois, os judeus criaram a tradição de beber quatro copos de vinho na ceia de Páscoa, um para cada uma dessas quatro promessas. É provável que Jesus tenha usado um desses copos específicos na Última Ceia, dando a ele um novo significado.
Contexto histórico
vem depois do primeiro fracasso de Moisés diante do faraó (capítulo 5): a exigência de libertação só resultou em trabalho ainda mais pesado, e o próprio povo se voltou contra Moisés e Arão, culpando-os pela piora da situação (5:20-21). É nesse cenário de desânimo generalizado que Deus responde com uma reafirmação solene da aliança, abrindo com a fórmula de autoidentificação "Eu sou o Senhor" (Yahweh), repetida no início e no fim da unidade (6:2,8), moldura que sublinha a autoridade divina por trás da promessa em um momento de desespero coletivo.
O discurso recorda explicitamente a aliança com Abraão, Isaque e Jacó (6:3-4) e a promessa da terra de Canaã, situando a libertação do Egito não como evento isolado, mas como cumprimento de um compromisso divino muito mais antigo, já feito gerações antes de existir qualquer faraó opressor. Os quatro verbos centrais — hotseti (tirar), hitsalti (livrar), gaalti (resgatar) e laqachti (tomar) — aparecem em sequência quase litúrgica no hebraico, cada um descrevendo um estágio distinto: retirada física do território de opressão, libertação do controle e da força de trabalho egípcia, resgate mediante ato de poder equivalente ao de um parente que compra de volta a liberdade de um familiar escravizado, e por fim adoção formal como povo de Deus.
Essa estrutura de quatro verbos se tornou base textual para a Hagadá de Pessach, o texto que guia o seder judaico até hoje, que instrui os participantes a beberem quatro cálices de vinho durante a noite, cada um interpretado tradicionalmente como referência a uma dessas quatro promessas de libertação. Alguns comentaristas rabínicos acrescentam um quinto cálice, ligado a um quinto verbo que aparece depois, em 6:8 ("vos porei na terra"), reservado e não bebido — o chamado cálice de Elias, associado à esperança messiânica ainda não cumprida, e servido simbolicamente no seder até os dias de hoje em lares judeus praticantes.
Aprofundamento
O terceiro verbo, gaal (גָּאַל), "resgatar", é juridicamente carregado: descreve a ação de um goel, o "redentor" ou parente mais próximo que tem obrigação legal de resgatar terras, pessoas ou dívidas de um familiar em dificuldade (ver ; ). Aplicar esse termo a Deus e a Israel significa dizer que a libertação do Egito não é apenas ato de poder, mas cumprimento de uma obrigação de parentesco pactual — Deus age como goel de Israel porque já é, pela aliança patriarcal, uma espécie de parente com dever de resgate. Nahum Sarna, no comentário JPS sobre Êxodo, observa que essa é uma das primeiras vezes na Bíblia em que Deus é descrito com esse termo técnico de resgate familiar, abrindo caminho para seu uso extenso em sobre a redenção do exílio babilônico.
O segundo verbo, natsal (נָצַל), "livrar, arrancar", carrega conotação de resgate de perigo iminente ou de garras de um opressor, distinto do simples "tirar" (yatsa) do primeiro verbo, que descreve apenas o movimento de saída territorial. Já laqach (לָקַח), "tomar", no verbo final, é o mesmo usado para tomar uma esposa em casamento — sugerindo que a relação entre Deus e Israel formada nesse resgate tem qualidade de vínculo íntimo e exclusivo, não apenas administrativo, uma nuance destacada por comentaristas judeus clássicos como Rashi ao lerem essa passagem em paralelo com a linguagem nupcial de , onde Deus também descreve sua relação com Israel em termos de casamento e compromisso exclusivo.
A Mishná (Pessachim 10) já registra a prática dos quatro cálices como costume estabelecido antes da era da Hagadá escrita que conhecemos hoje, o que situa essa liturgia como plausivelmente vigente no primeiro século, no tempo de Jesus. Joachim Jeremias, em seu estudo clássico sobre a Eucaristia, defendeu que o "cálice depois da ceia" mencionado por Paulo em e por corresponde ao terceiro cálice do seder, tradicionalmente chamado "cálice da redenção" (kos shel geulah) — ligado precisamente ao verbo gaal de , o que daria à instituição da Ceia do Senhor uma camada adicional de significado ligada diretamente a esse texto do Êxodo, embora a reconstrução exata da liturgia do seder do século I permaneça objeto de debate acadêmico, já que a Hagadá escrita mais antiga que sobreviveu é posterior ao período do Novo Testamento e reflete também desenvolvimentos litúrgicos ocorridos depois da destruição do templo em 70 d.C.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Os quatro cálices do seder são uma invenção medieval sem relação direta com o texto bíblico.
A prática já aparece documentada na Mishná, texto rabínico do início da era cristã, e a tradição interpretativa liga explicitamente cada cálice aos quatro verbos de redenção de , não a uma criação tardia sem base textual.
Como diferentes tradições cristãs leem1 leitura
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Tradição judaica rabínica
Diversos comentaristas rabínicos acrescentam um quinto cálice, não bebido, ligado ao quinto verbo de ("vos porei na terra"), reservado à vinda de Elias e à esperança messiânica ainda não cumprida.
No original2 termos
גָּאַלgaal1350
"Resgatar"; termo jurídico de parentesco, usado para a obrigação de um familiar próximo (goel) de resgatar alguém escravizado ou terras perdidas — aplicado aqui à ação de Deus por Israel.
לָקַחlaqach3947
"Tomar"; o mesmo verbo usado para tomar uma esposa em casamento, sugerindo que Deus "toma" Israel como povo num vínculo de intimidade exclusiva, não apenas administrativa.
O que fazer com isso
A sequência dos quatro verbos ensina que libertação bíblica não é evento único e instantâneo, mas processo com etapas — sair, ser livrado do controle do opressor, ser resgatado por vínculo de parentesco e, por fim, pertencer. Para quem lê hoje, é um convite a não confundir alívio imediato de uma crise com o processo mais longo de pertencimento e identidade que Deus promete completar, mesmo quando o meio do caminho ainda parece, como para os israelitas em , pior do que o início.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas3 obras
- Nahum M. Sarna. The JPS Torah Commentary: Exodus, 1991.
- Joachim Jeremias. The Eucharistic Words of Jesus, 1966.
- Brevard S. Childs. The Book of Exodus: A Critical, Theological Commentary, 1974.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quais são os quatro verbos de redenção em Êxodo 6:6-8?
Tirar (hotseti), livrar (hitsalti), resgatar (gaalti) e tomar (laqachti) — cada um descrevendo uma etapa distinta do processo de libertação de Israel do Egito.
Qual cálice do seder Jesus teria usado na Última Ceia?
Estudiosos como Joachim Jeremias associam o "cálice depois da ceia" citado no Novo Testamento ao terceiro cálice do seder, o "cálice da redenção", ligado ao verbo gaal de .
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