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Significado Bíblico
Costumes da épocaintermediária
Ilustração da categoria Costumes da época

Por que a Bíblia proíbe adivinhação e contato com os mortos?

por que a bíblia proíbe adivinhação e consultar os mortos

Não seja achado em ti quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, nem praticante de adivinhações, nem agoureiro, nem interpretador de presságios, nem feiticeiro, Nem quem fale encantamentos, nem quem pergunte a espírito, nem mágico, nem quem pergunte aos mortos. Porque é abominação ao SENHOR qualquer um que faz estas coisas, e por estas abominações o SENHOR teu Deus as expulsou de diante de ti.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Antes de Israel entrar em Canaã, Moisés lista uma série de práticas religiosas dos povos daquela terra que o povo não deveria copiar: sacrificar filhos no fogo, adivinhação, leitura de presságios, feitiçaria, encantamentos e, principalmente, consultar espíritos e os mortos. A lista reúne quase todo o vocabulário hebraico conhecido para magia e ocultismo, mostrando o quanto essas práticas estavam entranhadas na cultura cananeia que Israel encontraria.

O texto não descreve um capricho arbitrário. Para Deuteronômio, buscar orientação por essas vias é abandonar a confiança em Deus, que já prometera guiar o povo por meio de profetas legítimos, tema que o próprio capítulo desenvolve em seguida. É esse pano de fundo que explica, mais tarde, por que a consulta do rei Saul a uma médium em En-Dor () foi registrada como parte do pecado que selou sua ruína.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

fecha o acesso a Deus por vias ilegítimas - adivinhação, feitiçaria, consulta aos mortos - mas o mesmo capítulo não deixa Israel sem resposta: nos versículos seguintes (18:15-19), Deus promete levantar um profeta como Moisés, a quem o povo deve ouvir. É esse texto que o Novo Testamento aplica diretamente a Jesus, apresentado como o profeta definitivo que cumpre a promessa (; 7:37). A trajetória bíblica caminha, assim, da proibição de buscar conhecimento oculto por vias humanas para a confiança na palavra que Deus revela através de seus mensageiros legítimos, e os cristãos leem essa trajetória culminando em Cristo como a Palavra final de Deus ao seu povo (; ).

Respaldo no Novo Testamento:

Contexto histórico

faz parte do segundo discurso de Moisés ao povo, às vésperas da entrada em Canaã. O capítulo trata de duas fontes de autoridade religiosa: a legítima, exercida por sacerdotes e profetas enviados por Deus (vv. 1-8 e 15-22), e as ilegítimas, listadas nos versículos 10-12. Essa segunda lista funciona como um inventário quase técnico das práticas divinatórias e mágicas conhecidas no mundo cananeu e mesopotâmico da época, atestadas também em textos ugaríticos e em manuais de adivinhação da Babilônia.

O primeiro item, "fazer passar seu filho ou sua filha pelo fogo", refere-se a um rito de sacrifício infantil associado ao culto a Moloque, mencionado também em e 20:2-5 e praticado mais tarde por reis de Judá como Manassés (). Os termos seguintes cobrem quase todo o espectro da mântica antiga: adivinhação por sortes ou sinais, leitura de presságios atmosféricos, interpretação de augúrios, feitiçaria com encantamentos e poções, e o uso de fórmulas mágicas ditas para amarrar ou desfazer situações. Os dois últimos - "quem pergunte a espírito" e "quem pergunte aos mortos" - descrevem a necromancia propriamente dita: consultar um médium que alegava dar acesso à voz dos falecidos, prática também vetada em e 20:6,27, ali com pena capital prevista para quem a exercesse dentro de Israel.

Comentaristas como Peter Craigie e Jeffrey Tigay observam que a lista funciona retoricamente por acúmulo: ao empilhar quase sinônimos, o texto não está distinguindo tecnicamente cada prática, mas afirmando que nenhuma forma de buscar conhecimento oculto por essas vias tem lugar em Israel. O termo usado para qualificá-las, "abominação" (to'evah), é o mesmo aplicado a outras violações graves da aliança em Deuteronômio, o que situa o problema no plano da fidelidade a Deus, não apenas no da eficácia ou fraude dessas técnicas. O versículo 12 reforça esse ponto ao dizer que foi por essas mesmas abominações que o SENHOR expulsou as nações anteriores da terra - a proibição, portanto, é apresentada como condição para que Israel permaneça nela.

Aprofundamento

A dureza da proibição fica mais compreensível quando se lê ao lado do episódio de . Ali, o rei Saul, já afastado de Deus e sem resposta por sonhos, urim ou profetas, procura secretamente uma médium em En-Dor para consultar o espírito de Samuel. O cronista resume o caso com clareza: Saul morreu por causa da transgressão que havia cometido contra o SENHOR, e também porque consultou uma médium buscando orientação, em vez de buscar orientação do SENHOR (, parafraseado). O texto de fornece exatamente o pano de fundo legal que torna esse ato tão grave: não é apenas curiosidade fora de lugar, é a escolha de uma fonte de autoridade que rivaliza com a palavra que Deus já havia dado ao seu povo.

Vale notar que o texto bíblico não gasta esforço filosófico para provar que essas práticas "não funcionam". A ênfase recai sobre a ilegitimidade da fonte, não sobre a eficácia da técnica - por isso comentaristas como Eugene Merrill e Keil & Delitzsch evitam tanto reduzir tudo a mera fraude quanto atribuir a essas práticas um poder equivalente ao de Deus. O ponto central é relacional: Israel foi chamado a depender exclusivamente da revelação que Deus mesmo concede, não de atalhos que prometem acesso privado ao futuro ou aos mortos. Essa distinção importa porque evita duas leituras erradas e opostas: tratar o texto como manual de exorcismo contra poderes ativos por trás de cada prática listada, ou esvaziá-lo como mera crítica cultural a superstições ingênuas do mundo antigo.

Essa ênfase ajuda a entender por que a proibição é tão ampla - ela cobre praticamente todas as formas conhecidas de mântica, da leitura de presságios à necromancia. Não se trata de banir apenas os casos mais extremos, como o sacrifício infantil, mas de fechar qualquer porta que colocasse o povo buscando controle sobre o desconhecido por vias alheias à aliança. Ao listar tantas variantes, o texto também sinaliza que a tentação não era marginal: cercar-se de adivinhos e encantadores fazia parte do cotidiano religioso dos povos vizinhos, e Israel precisava de uma fronteira clara para não absorver esses hábitos aos poucos. É significativo que, imediatamente depois dessa lista, o texto não deixe Israel sem resposta: promete o levantamento de um profeta fiel a quem o povo deveria dar ouvidos (). A proibição, portanto, não cria um vazio espiritual - ela redireciona a busca por orientação para o canal que Deus mesmo estabeleceu, tema que atravessa toda a história bíblica até culminar, segundo o Novo Testamento, na pessoa de Jesus como profeta definitivo ().

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:1 Samuel 28 prova que médiuns realmente têm poder de trazer os mortos de volta para conversar com os vivos.

    O texto é deliberadamente ambíguo sobre o mecanismo do que aconteceu, e a própria reação de susto da médium sugere que ela não esperava o resultado que teve. Tradições cristãs leem o episódio de formas diferentes (fraude, exceção divina, manifestação maligna), mas nenhuma delas trata o caso como prova geral de que a necromancia funciona - a proibição em já pressupõe que a prática é ilegítima, independentemente de sua eficácia real.

  • Dizem que:A lista de Deuteronômio 18:10-12 foi escrita porque essas práticas eram exclusividade dos cananeus e não existiam entre os hebreus.

    O próprio Antigo Testamento registra reis e o povo de Israel praticando essas coisas (, sobre Manassés; , sobre Saul), o que mostra que a proibição existia justamente porque a tentação de adotar essas práticas era real e recorrente, não porque fossem estranhas a Israel.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • católica

    O Catecismo da Igreja Católica (2116-2117) classifica adivinhação, magia e feitiçaria como pecados contra o primeiro mandamento, por buscarem poder sobre o tempo, a história e outras pessoas em vez de confiar na providência de Deus.

  • reformada

    Ênfase na suficiência da Escritura como única fonte legítima de revelação: buscar conhecimento oculto por essas práticas é tratado como rebelião contra a autoridade exclusiva da palavra de Deus revelada, não apenas como erro moral pontual.

  • pentecostal/carismática

    Tende a ler essas práticas como aberturas reais para atividade espiritual maligna, e não apenas como fraude humana, o que costuma motivar orientação pastoral de afastamento e, em alguns casos, oração de libertação para quem já se envolveu com elas.

  • ortodoxa

    Situa a proibição dentro de uma visão patrística de que buscar conhecimento oculto usurpa a vontade de Deus sobre a vida da pessoa, e aponta para a vida sacramental e ascética da Igreja como o caminho legítimo de aproximação do divino.

No original8 termos
  • קֹסֵם קְסָמִיםqosem qesamimH7080

    aquele que pratica adivinhação, buscando prever o futuro por técnicas mânticas como lançar sortes ou ler sinais

  • מְעוֹנֵןme'onen

    termo geralmente traduzido como agoureiro ou observador de tempos/sinais atmosféricos; a raiz exata é discutida entre os léxicos

  • מְנַחֵשׁmenachesh

    intérprete de presságios e augúrios, ligado a uma raiz também associada a observar e decifrar sinais

  • מְכַשֵּׁףmekhashefH3784

    praticante de feitiçaria, que usa encantamentos e preparos para manipular forças ocultas

  • חֹבֵר חָבֶרchover chaver

    literalmente algo como atador de encantamentos, alguém que profere fórmulas mágicas

  • אוֹבovH178

    termo usado tanto para o espírito consultado quanto para o médium que o invoca, associado à prática de necromancia

  • יִדְּעֹנִיyidde'oniH3049

    designa o adivinho que alegava ter conhecimento especial dos espíritos, quase sempre citado junto de ov

  • דֹּרֵשׁ אֶל־הַמֵּתִיםdoresh el-hametim

    literalmente aquele que consulta os mortos, a expressão que descreve a necromancia propriamente dita

O que fazer com isso

O texto convida a examinar onde se busca segurança diante do desconhecido. Hoje isso raramente aparece como necromancia explícita, mas como horóscopos, tarô, apps de "energia" ou correntes que prometem prever o futuro ou contatar quem já morreu. A questão que levanta não é sobre magia ter ou não poder real, mas sobre onde alguém deposita confiança quando o futuro é incerto - vale a pena notar essa tendência sem tratar quem já recorreu a essas coisas com julgamento.

Passagens relacionadas8

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Peter C. Craigie. The Book of Deuteronomy (NICOT), 1976.
  • Jeffrey H. Tigay. Deuteronomy (The JPS Torah Commentary), 1996.
  • Eugene H. Merrill. Deuteronomy (The New American Commentary), 1994.
  • C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament, vol. Pentateuco, 1996.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

A médium de En-Dor realmente trouxe o espírito de Samuel de volta?

O texto de é famoso justamente por sua ambiguidade: ele narra que Saul viu algo que o assustou, mas não explica o mecanismo por trás disso. Comentaristas cristãos divergem entre ler o episódio como fraude da médium, uma intervenção especial de Deus fora do padrão da mulher, ou uma manifestação demoníaca. O ponto de , porém, independe dessa resposta: a prática já era proibida antes de qualquer discussão sobre se "funciona".

Ler horóscopo no jornal é a mesma coisa que a Bíblia proíbe aqui?

Não no mesmo grau de gravidade cúltica descrita no texto, que fala de práticas cerimoniais formais dos povos cananeus. Ainda assim, muitos comentaristas veem no impulso por trás do horóscopo - buscar controle sobre o futuro fora da confiança em Deus - uma versão diluída da mesma tentação que o texto endereça.

Por que a Bíblia trata isso com tanta seriedade, a ponto de prever expulsão da terra?

Porque o texto liga essas práticas à fidelidade da aliança entre Deus e Israel, não apenas a um código de conduta isolado. Recorrer a fontes rivais de revelação era entendido como uma forma de infidelidade religiosa, comparável a outras quebras graves da aliança mencionadas em Deuteronômio.

Temas

  • #Deuteronômio
  • #adivinhação
  • #ocultismo
  • #necromancia
  • #rei Saul
  • #En-Dor
  • #leis do Antigo Testamento

Publicado em 19/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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