
Deus abençoou as parteiras egípcias por mentirem a Faraó?
Deus abençoou as parteiras egípcias por mentirem a Faraó?
E o rei do Egito falou às parteiras das hebreias, uma das quais se chamava Sifrá, e outra Puá, e disse-lhes: Quando fizerdes o parto das hebreias, e olhardes os assentos, se for filho, matai-o; e se for filha, então viva. Mas as parteiras temeram a Deus, e não fizeram como o rei do Egito lhes mandara; em vez disso, preservaram a vida dos meninos. E o rei do Egito mandou chamar às parteiras e lhes perguntou: Por que fizestes isto, que preservastes a vida dos meninos? As parteiras responderam a Faraó: As mulheres hebreias não são como as egípcias; pois são fortes, de maneira que dão à luz antes que a parteira chegue a elas. E Deus fez bem às parteiras. E o povo se multiplicou, e se fortaleceu muito. E por as parteiras terem temido a Deus, ele constituiu famílias a elas.
Resposta curta
No Egito, o rei ordena que as parteiras hebreias Sifrá e Puá matem todo menino hebreu ao nascer, mantendo vivas apenas as meninas. As parteiras, porém, temem a Deus e desobedecem: preservam a vida dos meninos. Chamadas por Faraó, elas dizem que as mulheres hebreias dão à luz antes que a parteira chegue. O texto registra que Deus fez bem a elas e, por temerem a Deus, lhes deu famílias.
O problema que o leitor sente é direto: parece que Deus recompensou uma mentira. Mas o versículo 21 é específico sobre o motivo: "por as parteiras terem temido a Deus". O texto narra a explicação dada a Faraó sem declará-la certa ou errada em si, e é essa lacuna que gerou séculos de debate cristão sobre mentira, obediência e proteção da vida inocente.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO padrão deste episódio — um governante tirano que decreta a morte de meninos hebreus recém-nascidos para eliminar uma ameaça ao seu poder, frustrado pela providência de Deus atuando por meio de pessoas comuns — reaparece de forma direta no nascimento de Jesus. Herodes, ao saber do nascimento de um rei em Belém, ordena a morte de todos os meninos pequenos da região (), e mais uma vez Deus preserva a vida da criança destinada a libertar seu povo, tirando-a do perigo. A Escritura não apresenta isso como coincidência estilística: Mateus já havia ligado a infância de Jesus ao êxodo ao citar sobre 'chamar meu filho do Egito' (). O tema maior que atravessa as duas narrativas é a fidelidade de Deus em proteger o portador da promessa contra o poder humano que tenta apagá-lo, um fio que corre do berço de Moisés ao berço de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
O capítulo 1 de Êxodo descreve a virada de sorte dos descendentes de Jacó no Egito: de família protegida por José, tornam-se um povo numeroso que o novo faraó, "que não conhecia a José" (1:8), passa a temer como ameaça política. A primeira tentativa de controle é o trabalho forçado; quando isso não impede o crescimento populacional, o rei recorre ao infanticídio seletivo, ordenando às parteiras que matem os meninos hebreus no parto e deixem viver as meninas — provavelmente porque meninas não seriam vistas como ameaça militar e poderiam ser absorvidas como mão de obra ou esposas.
Sifrá e Puá são as únicas parteiras nomeadas, o que já é significativo num texto que não nomeia o faraó. A expressão hebraica traduzida "parteiras das hebreias" é gramaticalmente ambígua: pode indicar parteiras que eram elas mesmas hebreias, ou parteiras egípcias que atendiam mulheres hebreias. Comentaristas como Cassuto e Keil & Delitzsch registram essa ambiguidade sem resolvê-la com certeza; a tradição judaica majoritária e boa parte da erudição cristã entendem que eram hebreias, dado o retrato de piedade que o texto faz delas.
"Temer a Deus" (yir'at Elohim) é uma expressão que no Antigo Testamento designa reverência que leva à obediência moral, mesmo sob risco pessoal — não medo religioso genérico, mas lealdade a Deus acima da ordem de um poder humano. É esse temor, não a explicação dada a Faraó, que o texto explicitamente credita como razão da bênção em 21.
A resposta das parteiras a Faraó — que as hebreias dão à luz rápido demais para a parteira chegar — é plausível culturalmente: mulheres acostumadas a trabalho físico pesado, como era o caso de escravas em regime de trabalho forçado, de fato podem ter partos mais rápidos, e essa observação aparece em outras fontes antigas sobre populações submetidas a trabalho duro. O relato, portanto, mistura desobediência civil, uma explicação evasiva e a preservação da vida, sem que o texto pare para avaliar cada elemento separadamente.
Aprofundamento
A dificuldade central do texto é hermenêutica antes de ser ética: o Antigo Testamento com frequência narra uma ação sem emitir um veredicto moral explícito sobre cada detalhe dela. Aqui, o narrador diz duas coisas com clareza — que as parteiras desobedeceram a ordem de matar por temerem a Deus, e que Deus lhes fez bem por causa desse temor (v. 21). O texto não diz "Deus as abençoou porque mentiram". A recompensa está ligada explicitamente à reverência que motivou a desobediência, não a uma avaliação da resposta dada a Faraó.
Essa distinção entre narrar e aprovar tem paralelo em outro caso clássico: Raabe, em , também engana seus perseguidores para proteger vidas, e o Novo Testamento a elogia — mas por fé () e por obras de acolhimento (), não citando a mentira como o ato louvado. O padrão bíblico tende a celebrar a coragem e a lealdade a Deus por trás da ação, deixando em aberto o julgamento sobre o método específico usado.
Historicamente, isso dividiu comentaristas cristãos. Agostinho, numa linha que atravessou boa parte da teologia moral cristã posterior, sustentava que mentir é sempre errado, mesmo por boa causa, e por isso via o louvor do texto recaindo sobre o temor a Deus e a coragem das parteiras, não sobre a mentira em si — um ato que a narrativa registra sem exigir que o leitor o imite. João Calvino, em seu comentário sobre Êxodo, chega a conclusão semelhante: elogia a piedade das parteiras enquanto trata a mentira como uma falha misturada a uma boa ação, não como modelo.
Outra linha, presente em parte da ética evangélica contemporânea — como o chamado "absolutismo gradual" defendido por autores como Norman Geisler —, lê o episódio como um caso de conflito real de deveres: diante da ordem de matar inocentes, o dever maior de proteger a vida se sobrepõe ao dever de dizer a verdade a um tirano genocida, e a ação das parteiras seria moralmente correta em bloco, incluindo a explicação dada a Faraó.
O texto de não resolve esse debate para o leitor; ele relata resistência corajosa a uma ordem de extermínio, motivada por lealdade a Deus, e deixa a reflexão ética sobre os meios em aberto — o que convida à humildade diante de tradições que discordam nesse ponto sem que nenhuma delas negue o essencial: o texto celebra o temor a Deus acima do medo do poder humano.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A Bíblia diz explicitamente que Deus abençoou as parteiras porque elas mentiram para Faraó.
O versículo 21 especifica o motivo da bênção com clareza: 'por as parteiras terem temido a Deus'. O texto não credita a mentira como razão da recompensa; ele credita o temor a Deus que motivou a desobediência à ordem de matar.
Dizem que:Esse episódio estabelece uma regra bíblica geral de que mentir é permitido sempre que a intenção for proteger alguém.
É um relato narrativo de um caso específico, não uma instrução ética sistemática. A Escritura em outros lugares condena a mentira (; ) sem revogar esse mandamento aqui, o que é justamente a razão do debate entre tradições cristãs sobre como interpretar o caso.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada/agostiniana (histórica majoritária)
Mentir permanece um mal, mesmo com boa intenção; o texto elogia o temor a Deus e a coragem das parteiras em desobedecer a uma ordem de matar, não a explicação enganosa dada a Faraó. A narrativa descreve o que aconteceu sem aprovar cada elemento da ação.
Católica
A recompensa divina recai sobre a virtude da coragem e da fidelidade das parteiras diante de uma lei injusta; a mentira em si é tratada como uma fraqueza humana misturada a um ato de bem, coerente com o ensino de que faltar à verdade é sempre desordenado, mesmo quando a intenção geral é boa.
Evangélica (absolutismo gradual)
Diante de um conflito real entre dizer a verdade e proteger vidas inocentes de um tirano genocida, o dever maior de preservar a vida prevalece; nessa leitura, a ação das parteiras, incluindo a resposta dada a Faraó, é vista como moralmente correta como um todo.
Pentecostal/carismática
Ênfase recai sobre a soberania e a proteção ativa de Deus sobre quem o teme: o texto é lido primariamente como testemunho do poder de Deus para frustrar planos de destruição contra seu povo, com o debate sobre a mentira tratado como secundário ao propósito central da narrativa.
No original5 termos
מְיַלְּדֹתmeyalledotH3205
parteiras; particípio do verbo 'yalad' (dar à luz), na forma causativa: 'as que fazem nascer' ou 'as que ajudam no parto'.
יָרֵאyareH3372
temer, reverenciar; usado aqui para descrever a reverência a Deus que levou as parteiras a desobedecer à ordem de matar os meninos.
בָּתִּיםbattimH1004
casas, no sentido de 'famílias' ou 'linhagens'; em 1:21, indica que Deus concedeu descendência e estabilidade às parteiras.
שִׁפְרָהShiphrah
nome próprio de uma das parteiras; associado por alguns léxicos à raiz de 'beleza' ou 'formosura', sem consenso definitivo.
פּוּעָהPuah
nome próprio da segunda parteira; a etimologia é incerta entre os léxicos, sem uma tradução consolidada.
O que fazer com isso
O ponto central do texto não é uma licença genérica para mentir por boas intenções, mas o exemplo de pessoas comuns que colocaram lealdade a Deus acima da ordem de uma autoridade que mandava fazer o mal. Isso ainda acontece hoje em versões menores: recusar participar de algo injusto no trabalho, na família ou na comunidade, mesmo sob pressão. O texto não convida a decidir sozinho quando mentir é aceitável; convida a reconhecer, como Sifrá e Puá, que há ordens que a consciência formada por Deus não deve obedecer.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- Umberto Cassuto. A Commentary on the Book of Exodus, 1967.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: The Pentateuch, 1866.
- João Calvino. Commentary on the Harmony of the Law (Êxodo), 1563.
- Norman L. Geisler. Christian Ethics: Options and Issues, 1989.
- Douglas K. Stuart. Exodus (New American Commentary), 2006.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
A Bíblia está dizendo que é certo mentir se a intenção for boa?
O texto não afirma isso como regra geral. Ele liga a recompensa das parteiras explicitamente ao fato de terem temido a Deus (v. 21), não a uma avaliação da explicação que deram a Faraó. Tradições cristãs divergem sobre como julgar a mentira em si, como mostra o campo de interpretações desta passagem.
Sifrá e Puá eram hebreias ou egípcias?
O texto hebraico é ambíguo nesse ponto e pode ser lido das duas formas. A leitura mais comum, adotada pela maioria dos comentaristas e pela tradição judaica, é que eram parteiras hebreias, dado o retrato de piedade e lealdade que a narrativa faz delas.
O que significa Deus ter 'constituído famílias' para as parteiras?
A expressão do versículo 21 indica que Deus lhes concedeu descendência e estabilidade doméstica — o equivalente, na cultura da época, a uma bênção de continuidade e segurança para a própria família das parteiras, em contraste com as famílias hebreias que Faraó tentava destruir.
Por que só duas parteiras são citadas para todo o povo hebreu no Egito?
É possível que Sifrá e Puá fossem as líderes ou chefes de um grupo maior de parteiras, representando a categoria profissional diante do rei, e não as únicas duas parteiras de toda a população hebreia.
Temas
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