
Por que o publicano desceu justificado e o fariseu não?
O que a parábola do fariseu e do publicano ensina?
E o publicano, estando em pé de longe, nem mesmo queria levantar os olhos ao céu, mas batia em seu peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador. Digo-vos que este desceu mais justificado à sua casa do que aquele outro; porque qualquer que a si mesmo se exalta, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilha, será exaltado.
Resposta curta
A parábola é frequentemente lida como um elogio à humildade — seja humilde e Deus te aceita. Isso transforma a humildade numa nova qualificação, que é exatamente o que a história desmonta.
O fariseu não mentiu. Ele jejuava mesmo, dizimava mesmo, e o texto não sugere o contrário. O problema não foi a lista estar errada; foi ela existir.
E a oração do publicano não é genérica. O verbo grego que ele usa é cúltico: "sê propiciado para comigo" — a linguagem do sacrifício do templo, onde ele estava.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO publicano pede que a propiciação valha para ele, usando a palavra do propiciatório. aplica exatamente esse termo a Cristo — "ao qual Deus propôs para propiciação" — e desenvolve a imagem da tampa da arca. O que o homem pediu no templo sem saber o que pediria depois é o que o Novo Testamento diz ter sido dado.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Essa história costuma ser lida como elogio à humildade — seja humilde, e Deus te aceita. Mas isso transforma a humildade numa nova lista de méritos, que é exatamente o que a história desmonta. O homem religioso não estava mentindo: ele realmente jejuava e dava mais do que a lei pedia. O problema não era a lista estar errada. Era ela existir.
O outro homem, malvisto por todos, não tinha lista nenhuma. Só pediu que o perdão funcionasse para ele, usando uma linguagem ligada ao sacrifício que acontecia ali no templo. E não se compara com ninguém — é o único que não menciona outra pessoa.
O aviso se aplica a si mesmo: é possível sair da leitura agradecendo por não ser como o primeiro homem — e nesse instante a história recomeça, com outro elenco.
Contexto histórico
Lucas informa o alvo antes de contar: "e disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, como se fossem justos, e desprezavam os outros".
Os dois elementos andam juntos, e não por acaso. Confiar na própria justiça e desprezar os outros são a mesma operação vista de dois ângulos, porque uma lista de méritos só significa alguma coisa comparada com a de alguém.
O fariseu, no primeiro século, não era o vilão que a palavra virou em português. Era o leigo devoto, o sujeito que levava a fé a sério num tempo em que a maioria não levava. A audiência original o admirava.
O publicano era o oposto: cobrador de impostos para Roma, tratado como colaboracionista e ladrão, sem direito a testemunhar em juízo segundo a Mishná.
Jesus escolheu o par para que ninguém errasse quem era o bom da história — e então inverteu o resultado.
Aprofundamento
A oração do fariseu tem cinco verbos, e todos na primeira pessoa: não sou, jejuo, dou. Lucas registra ainda que ele "orava consigo mesmo", expressão que alguns comentaristas leem como orava *para* si mesmo.
O conteúdo é factualmente correto. A lei exigia um jejum anual, no Dia da Expiação; ele jejuava duas vezes por semana. O dízimo era sobre a produção agrícola; ele dizimava tudo o que adquiria. Ele fazia mais do que era pedido.
É importante não suavizar isso. A parábola não é sobre um hipócrita que fingia — é sobre alguém que de fato cumpria, e cuja conta estava certa.
A oração do publicano tem três palavras em grego, e a do meio é decisiva. Ele não diz *eleeson me*, "tem piedade de mim", que é a fórmula comum dos mendigos nos evangelhos. Diz *hilastheti moi* — do verbo ligado a *hilasterion*, o propiciatório, a tampa da arca aspergida com sangue no Dia da Expiação.
Ele está no templo, provavelmente na hora do sacrifício, e pede que aquilo funcione para ele.
O outro detalhe está no artigo. O grego traz "o pecador", com artigo definido — não "um pecador entre outros". Ele não se compara com ninguém, e é o único personagem da história que não menciona outra pessoa.
O verbo do desfecho é *dedikaiomenos*, "justificado" — termo jurídico de declaração de inocência, e a mesma palavra que Paulo usaria em Romanos. Lucas a coloca na boca de Jesus antes de Paulo escrever uma linha.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:O fariseu era um hipócrita que mentia na oração.
Nada no texto sugere que ele não fizesse o que dizia — e ele fazia mais do que a lei exigia, com jejum duas vezes por semana e dízimo sobre tudo. A parábola é sobre alguém cuja conta estava certa.
Dizem que:A lição é que humildade é o que Deus aceita.
Essa leitura transforma a humildade numa nova qualificação a apresentar, que é a estrutura que a parábola desmonta. O publicano não apresenta humildade — ele não apresenta nada.
Dizem que:Fariseus eram, em geral, gente má.
Eram o grupo leigo mais comprometido com a lei no primeiro século, admirados pela população. Nicodemos e Paulo eram fariseus. O uso da palavra como insulto é posterior e distorce a leitura das cenas.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Crítica à justiça própria
O alvo é confiar no próprio desempenho diante de Deus, e Lucas o declara no versículo 9. É a leitura consensual.
Contraste entre dois modos de orar
A parábola opõe a oração que informa a Deus o que se fez à que pede o que não se tem. Sustentada pela estrutura das duas falas e pelo uso do verbo cúltico.
No original3 termos
ἱλάσθητιhilastheti
"Sê propiciado". Ligado a *hilasterion*, o propiciatório aspergido no Dia da Expiação. Não é o verbo comum de pedir piedade nos evangelhos.
τῷ ἁμαρτωλῷto hamartolo
"O pecador", com artigo definido. Ele não se coloca entre outros — é o único personagem que não menciona mais ninguém.
δεδικαιωμένοςdedikaiomenos
"Justificado". Termo jurídico de declaração de inocência, e a mesma palavra central do argumento de Paulo em Romanos.
O que fazer com isso
A armadilha desta parábola é que ela se aplica a si mesma. É possível sair da leitura agradecendo por não ser como o fariseu — e nesse instante a história recomeça, com outro elenco.
Ela não pede que ninguém deixe de jejuar ou de dizimar. O fariseu não é repreendido pelo que fazia; o texto sequer sugere que ele parasse.
O que muda de lugar é o que a lista serve para provar. Quando ela existe para estabelecer posição, ela precisa de alguém abaixo — e por isso o desprezo pelos outros aparece na mesma frase que a confiança em si.
O publicano não tinha lista. É a única coisa que ele não tinha, e é a única diferença que a história registra entre os dois.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Jejuar e dizimar é errado, então?
A parábola não critica nenhuma das duas coisas, e Jesus pressupõe jejum em . O que ela examina é para que serve a lista quando ela é apresentada.
Por que a palavra "fariseu" virou insulto?
Pelo uso posterior nos evangelhos e na pregação cristã. No primeiro século eram o grupo devoto e respeitado, e ler as cenas com o sentido moderno inverte o efeito que elas tinham.
O publicano mudou de vida depois?
A parábola não diz, e o silêncio é deliberado. Ela termina no que aconteceu na oração, não no que veio depois — Zaqueu, dois capítulos adiante, é o caso em que Lucas conta a sequência.
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