
Como Sansão matou mil homens com uma queixada de jumento?
Sansão realmente matou mil homens com uma queixada de jumento?
E achando uma queixada de asno fresca, estendeu a mão e tomou-a, e feriu com ela a mil homens. Então Sansão disse: Com a queixada de um asno, um amontoado, dois amontoados; Com a queixada de um asno feri mil homens. E acabando de falar, lançou de sua mão a queixada, e chamou a aquele lugar Ramate-Leí.
Resposta curta
Depois de se soltar das cordas com que o povo de Judá o entregou aos filisteus, Sansão encontrou uma queixada fresca de jumento, pegou-a e matou mil homens. Em seguida, recitou um dito curto, cheio de repetição e jogo de palavras, e deu ao lugar o nome de Ramate-Leí. O trecho tem a marca de um canto popular de proeza: o hebraico faz um trocadilho entre “jumento” e “montão”, e o nome do lugar guarda a lembrança da arma. O texto não explica como um só homem derrotou mil, e atribui a força ao Espírito do Senhor que viera sobre ele pouco antes. Resta ao leitor decidir se o número é exato ou um modo de dizer, mas o narrador apresenta o feito como obra de Deus por meio de um libertador falho.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaSansão é anunciado como alguém que “começará” a livrar Israel, e seu ciclo termina sem libertação completa. O libertador imperfeito desperta a pergunta por um libertador definitivo. O Novo Testamento cita Sansão entre os que, pela fé, receberam força, mas não o apresenta como figura direta de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Sansão estava preso por cordas e entregue aos filisteus. O Espírito do Senhor veio sobre ele, as cordas se soltaram, e ele pegou uma queixada fresca de jumento e matou mil homens. Depois, cantou uma frase curta com jogo de palavras e batizou o lugar de Ramate-Leí, “colina da queixada”. O texto não diz se o número é exato ou um modo de contar feitos de guerra, mas deixa claro que a força veio de Deus.
Contexto histórico
A cena pertence ao ciclo de Sansão, o último e mais estranho dos juízes. Antes de nascer, ele foi anunciado como nazireu, consagrado a Deus desde o ventre, e dele se disse que “começará a livrar Israel da mão dos filisteus” (). O texto, porém, mostra um libertador movido por desejos pessoais e vingança, e raramente por zelo declarado. A briga com os filisteus nasceu de um casamento desfeito em Timna: Sansão queimou as plantações dos filisteus com raposas de cauda atada, eles queimaram a mulher e o sogro, e ele reagiu com “grande carnificina” (15:8).
Então os filisteus subiram e acamparam em Judá, num lugar chamado Leí. Os homens de Judá, em vez de resistir, foram buscar Sansão. Três mil deles desceram à fenda do rochedo de Etã e lhe disseram que sabiam que os filisteus dominavam sobre eles. Sansão deixou-se atar com duas cordas novas e foi entregue aos inimigos. Quando se aproximou de Leí, os filisteus vieram gritando ao seu encontro, e o texto diz que “o Espírito do Senhor veio sobre ele” (15:14). As cordas se tornaram como linho queimado e os laços se soltaram.
Foi nesse momento que ele achou a queixada fresca de jumento, estendeu a mão, tomou-a e com ela feriu mil homens. O adjetivo “fresca” indica osso ainda úmido, ainda resistente, e não seco e quebradiço. Pouco depois, o texto mostra o herói exausto, com sede, clamando a Deus: “Tu deste este grande livramento por meio de teu servo, e agora morrerei de sede?” (15:18). Deus abre uma fonte numa cavidade do lugar, e Sansão revive.
Em meio a tudo isso, os versículos 15 a 17 funcionam como a peça central: um ato violento, seguido de uma fala em verso e de uma explicação do nome do lugar. Quem lê a passagem precisa ter essa moldura em mente, porque o trecho se apresenta menos como crônica militar e mais como memória celebrada do que ali aconteceu.
Aprofundamento
O primeiro ponto é o gênero do trecho. Sansão pronuncia uma frase em hebraico que, segundo os estudiosos, é poesia curta: “Com uma queixada de jumento, montão, dois montões; com uma queixada de jumento feri mil homens”. A tradução “montão sobre montão” tenta preservar o efeito, mas o original joga com o fato de que a palavra para “jumento” (hamor) soa quase igual à palavra para “montão” (chomer). É um lema de vitória, de som fácil, que fica na memória e pode ser repetido em festa.
O segundo ponto é o nome do lugar. O texto diz que Sansão lançou fora a queixada e chamou o lugar Ramate-Leí. “Leí” significa “queixada” ou “maxilar”, e Ramate pode ser entendido como “altura” ou “colina” ou, pelo verbo que acabou de aparecer (“lançou”), como “lançamento”. O narrador, portanto, faz o lugar guardar o episódio. Aqui a toponímia é uma espécie de monumento: quem passava pelo local lembrava da história pelo nome.
O terceiro ponto é a questão do número. Há três caminhos de leitura. O primeiro é literal: o Espírito do Senhor deu a Sansão força sobre-humana e mil filisteus morreram, em desordem e pânico, talvez com a arma improvisada servindo mais para causar medo do que para matar um a um. O segundo entende “mil” como número redondo de poesia e hipérbole, comum nos cantos de guerra do Antigo Testamento, como no verso de que Davi feriu “dez milhares” (). O terceiro lembra que a palavra para “mil” (elef) também pode designar um clã ou uma unidade militar, e o número exato seria menos importante do que o impacto. O texto não escolhe entre elas, e a pergunta fica aberta honestamente.
O quarto ponto é o que o texto diz sobre a origem da força. O narrador não atribui o feito à queixada nem ao braço de Sansão. Atribui-o ao Espírito do Senhor (v. 14), e o próprio Sansão, depois, reconhece que foi Deus quem deu o livramento (v. 18). Ao mesmo tempo, o herói canta como se a proeza fosse sua, e o contraste entre o canto orgulhoso e a sede logo em seguida é o tom irônico do ciclo: o forte precisa de água.
O quinto ponto é uma tensão que o texto deixa sem comentário. Sansão era nazireu, e a lei dos nazireus proibia tocar em cadáver (). A queixada era de um animal morto, e ele a segurou. Os comentaristas observam que o narrador não menciona o problema, nem para absolver nem para condenar, e que o capítulo apresenta um herói cuja consagração é sistematicamente tratada com descuido. O resultado é um retrato realista, sem idealizações, de um libertador usado por Deus apesar de suas falhas.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A Bíblia diz que Sansão tinha força sobre-humana por causa do cabelo, e a queixada era só um detalhe.
Neste episódio, o texto atribui a força ao Espírito do Senhor, que veio sobre ele (). O cabelo só entra em cena no capítulo 16, como sinal do voto de nazireu. O feito da queixada é explicado por outra causa.
Dizem que:O texto diz que Sansão matou mil homens de uma vez só, golpe por golpe, com a queixada.
O trecho afirma o resultado (mil mortos), mas não descreve o desenrolar da luta. Também não afirma que cada morte foi um golpe individual. Parte do que as pessoas imaginam vem da arte e de hábitos de leitura, e não do hebraico.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura literal
O Espírito do Senhor deu a Sansão força extraordinária, e mil filisteus morreram, em meio a pânico e confusão, pela mão de um homem armado com uma queixada ainda resistente. A tradição vê aqui um milagre de livramento.
Leitura poética e hiperbólica
O trecho é um dito de vitória em verso, com repetição e rima, em que “mil” funciona como número redondo de celebração. A ênfase está na façanha lembrada e cantada, e não na contagem exata.
Leitura narrativa crítica (Block, Webb)
O ciclo de Sansão mostra um juiz que age por impulso e vingança e que, mesmo assim, é usado por Deus. O episódio da queixada é a altura do ciclo, mas já traz a ironia da sede logo depois.
No original3 termos
לְחִיlechi
Queixada, maxilar ou bochecha. Dá nome ao lugar Leí e a Ramate-Leí, “altura” ou “lançamento da queixada”. O nome guarda a memória do episódio.
חֲמוֹרchamor
Jumento, burro. Em soa quase como chomer, “montão”, e o texto aproveita o parecido de som no dito poético de Sansão.
רוּחַ יְהוָהruach YHWH
Espírito do Senhor. Em vem sobre Sansão e lhe dá força para romper as cordas. É a expressão que o narrador usa para explicar a origem do poder do herói.
O que fazer com isso
O trecho convida a distinguir o gênero do texto antes de discutir se tal número é literal. Também lembra que Deus pode agir por meio de pessoas imperfeitas sem aprovar tudo o que elas fazem. A força de Sansão vem de cima, e a sede que vem depois mostra o limite humano. Quem se sente forte, ou apenas usado, faz bem em reconhecer de onde vem o socorro e em dar crédito a quem o dá.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Daniel I. Block. Judges, Ruth (New American Commentary), 1999.
- Barry G. Webb. The Book of Judges (NICOT), 2012.
- Trent C. Butler. Judges (Word Biblical Commentary), 2009.
- Robert G. Boling. Judges (Anchor Bible), 1975.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que o lugar se chama Ramate-Leí?
Porque Sansão lançou fora a queixada ali (). “Leí” significa queixada ou maxilar, e “Ramate” pode ser lido como altura ou como lançamento. O nome conserva a lembrança do episódio.
Sansão violou o voto de nazireu ao tocar na queixada?
A lei do nazireu proibia contato com cadáver (), e a queixada era de um animal morto. O texto não comenta a questão, e os estudiosos veem nisso mais um sinal do descuido de Sansão com sua consagração.
A queixada era mesmo de um jumento?
Sim, segundo o texto: “uma queixada fresca de jumento” (15:15). O detalhe de ser fresca sugere osso ainda úmido e firme, e não seco e quebradiço.
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