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Significado Bíblico
Costumes da épocaintermediária
Ilustração da categoria Costumes da época

O que significava passar entre os pedaços dos animais num pacto antigo?

Por que Deus passou entre os animais cortados na aliança com Abrão?

E sucedeu que, depois de posto o sol, e já estando escuro, apareceu um fogo fumegando, e uma tocha de fogo que passou por entre os animais divididos. Naquele dia fez o SENHOR um pacto com Abrão dizendo: À tua descendência darei esta terra desde o rio do Egito até o rio grande, o rio Eufrates;

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Depois de mandar Abrão preparar e cortar em duas partes uma novilha, uma cabra e um carneiro, além de uma rola e um pombinho inteiros, o texto descreve, ao cair da noite, um forno fumegante e uma labareda de fogo passando por entre as peças dispostas no chão. Esse gesto reproduz um rito de aliança conhecido no Antigo Oriente Próximo, em que as duas partes contratantes normalmente caminhavam juntas entre os pedaços do animal sacrificado como sinal de compromisso mútuo, aceitando o mesmo destino do animal morto caso quebrassem o acordo. Aqui, porém, só o fogo — símbolo da presença de Deus — atravessa o caminho; Abrão, dormindo em sono profundo, não participa do gesto. O detalhe transforma o que seria um pacto entre iguais numa promessa que Deus assume sozinho.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Uma aliança que Deus jura cumprir sozinho, sem depender do desempenho humano, aponta para a lógica que o Novo Testamento aplicaria à salvação pela graça: assim como aqui só Deus atravessa o corredor entre os pedaços, a obra decisiva da nova aliança também é realizada inteiramente por Deus, em Cristo, não pelo mérito de quem a recebe.

Respaldo no Novo Testamento: ;

Em palavras simples

Deus pediu que Abrão cortasse alguns animais em duas partes e os organizasse formando um corredor entre as peças, seguindo um costume antigo de fazer pactos importantes. Depois do pôr do sol, algo parecido com fogo e fumaça passou sozinho por esse corredor. Num pacto comum da época, as duas partes caminhariam juntas entre os pedaços; aqui, só a presença de Deus passa, enquanto Abrão dorme profundamente. Isso mostra que essa promessa específica dependia só de Deus cumprir, não de Abrão fazer sua parte para ela valer.

Contexto histórico

chega num momento de dúvida concreta de Abrão: ele já recebeu a promessa de uma grande descendência, mas continua sem filho, e chega a sugerir que seu herdeiro seja Eliezer, servo nascido em sua casa. Deus responde reafirmando a promessa de uma descendência tão numerosa quanto as estrelas, e o texto registra que Abrão "creu no Senhor, e isso lhe foi atribuído como justiça" — um dos versículos mais citados do livro em toda a tradição posterior.

Abrão, ainda assim, pede um sinal mais concreto: "como saberei que hei de possuí-la?", referindo-se à terra prometida. É nesse ponto que Deus instrui um rito específico: trazer uma novilha, uma cabra e um carneiro, cada um de três anos, além de uma rola e um pombinho, e cortar os três animais maiores em duas partes cada, deixando as aves inteiras — dispondo as peças de modo que se formasse um corredor entre elas.

O procedimento é interrompido por um detalhe incômodo: aves de rapina começam a descer sobre a carne exposta, e Abrão precisa enxotá-las repetidamente até o entardecer. Então cai sobre ele um sono profundo, acompanhado de "grande espanto e trevas", e é nesse estado que recebe uma revelação prévia sobre o futuro de sua descendência: quatrocentos anos de escravidão no Egito antes do retorno à terra prometida.

Só depois do pôr do sol, com a terra já escura, o texto descreve o forno fumegante e a labareda de fogo passando sozinhos por entre os pedaços dos animais. É esse momento que o texto identifica como o pacto sendo formalmente estabelecido, e é imediatamente seguido pela delimitação geográfica da promessa: da terra do Egito até o grande rio Eufrates, incluindo a lista de povos que já ocupavam essa terra e que seriam, com o tempo, desapropriados em favor da descendência de Abrão.

O capítulo, portanto, combina três elementos que costumam ser lidos separadamente: a reafirmação da promessa de descendência, um aviso profético sobre um longo período de escravidão antes da posse da terra, e um rito formal de aliança que sela tudo isso com a presença visível de Deus, sem exigir contrapartida imediata de Abrão.

Aprofundamento

Arqueólogos e historiadores do Antigo Oriente Próximo documentaram rituais de aliança muito parecidos em tratados hititas e em textos de Mari, do segundo milênio antes de Cristo, em que as partes contratantes cortavam um animal e caminhavam juntas entre as peças, num gesto que dramatizava a consequência da quebra do acordo: 'que eu seja cortado como este animal se eu não cumprir o que jurei'. O termo hebraico para 'fazer um pacto', karat berit, significa literalmente 'cortar uma aliança', preservando na própria linguagem a memória desse tipo de rito.

O que torna teologicamente incomum dentro desse pano de fundo cultural comum é justamente quem participa do gesto. Num pacto convencional do período, as duas partes humanas caminhariam juntas entre os pedaços, assumindo mutuamente o risco simbólico de destruição em caso de quebra. Aqui, Abrão está em sono profundo — incapaz de participar — e apenas uma manifestação da presença divina, descrita como forno fumegante e labareda de fogo, atravessa o corredor de carne. Deus assume, sozinho, o papel que caberia às duas partes.

Comentaristas como John Walton e Gordon Wenham observam que esse detalhe transforma a natureza do compromisso: não é um contrato bilateral condicionado à fidelidade de Abrão, e sim uma promessa incondicional que Deus jura cumprir por conta própria, independentemente do desempenho futuro do patriarca ou de seus descendentes. Isso ajuda a explicar por que a aliança abraâmica, ao longo do Antigo Testamento, é tratada como garantia mais estável do que a aliança mosaica posterior, que sim inclui bênçãos e maldições condicionadas à obediência de Israel.

O fogo e a fumaça também carregam ressonância teofânica que reaparece depois no Sinai — nuvem, fumaça e fogo voltam a marcar a presença de Deus em e 20 — sugerindo que o leitor original já reconheceria esses elementos como linguagem convencional de manifestação divina, e não como fenômeno atmosférico aleatório. A imagem das aves de rapina que Abrão precisa enxotar antes do pacto se completar também não é decorativa: tradições judaicas antigas já a leram como prenúncio das nações que tentariam impedir ou corromper a promessa ao longo da história de Israel, exigindo vigilância constante até o cumprimento.

Vale notar ainda que o próprio texto encaixa, dentro desse rito de aliança, uma previsão detalhada sobre quatrocentos anos de opressão estrangeira antes da posse efetiva da terra — o que significa que a garantia divina não promete ausência de sofrimento no meio do caminho, mas certeza do desfecho final. A aliança cobre o resultado de longo prazo, não a experiência imediata dos descendentes de Abrão nas gerações seguintes.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Passar entre os animais cortados era um costume exclusivo e único deste episódio bíblico.

    Tratados de aliança do Antigo Oriente Próximo, incluindo textos hititas e de Mari, registram rituais semelhantes de cortar um animal como parte da formalização de pactos, mostrando que o gesto era linguagem cultural reconhecível na época, não invenção isolada do relato de Gênesis.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura da aliança incondicional

    Enfatiza que só Deus, e não Abrão, passa entre os pedaços, o que tornaria essa aliança específica uma promessa incondicional, distinta da aliança mosaica posterior, que inclui bênçãos e maldições dependentes da obediência de Israel.

  • Leitura tipológica judaica antiga

    Algumas tradições rabínicas associam as aves de rapina que atacam a carne exposta às futuras nações opressoras de Israel, lendo o gesto de Abrão de enxotá-las como prenúncio da necessidade de resistência ao longo da história do povo.

No original1 termo
  • כָּרַת בְּרִיתkarat berit

    Literalmente "cortar uma aliança" — a expressão hebraica padrão para "fazer um pacto", que preserva na própria linguagem a memória do rito de cortar um animal como parte da formalização do compromisso.

O que fazer com isso

O rito revela algo específico sobre a natureza da promessa feita a Abrão: ela não depende do desempenho dele para se manter válida, porque só Deus atravessa o corredor entre os pedaços. Isso não elimina a necessidade de fé e obediência ao longo da vida de Abrão, mas muda onde repousa a garantia final do acordo — na fidelidade de quem promete, não na capacidade de quem recebe a promessa.

Passagens relacionadas4

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas2 obras
  • John H. Walton. Genesis (NIV Application Commentary), 2001.
  • Gordon J. Wenham. Genesis 1-15 (Word Biblical Commentary), 1987.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que Abrão não participa do rito, caminhando entre os pedaços junto com Deus?

O texto o coloca em sono profundo justamente nesse momento, o que a maioria dos comentaristas lê como sinal deliberado de que essa aliança específica é incondicional: só Deus assume o compromisso simbolizado pelo gesto, e não as duas partes em conjunto.

Temas

Publicado em 27/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 2 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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