
Deus endureceu o coração dos cananeus para a guerra?
Deus obrigou os cananeus a guerrear para poder exterminá-los depois?
Porque isto veio do SENHOR, que endurecia o coração deles para que resistissem com guerra a Israel, para destruí-los, e que não lhes fosse feita misericórdia, antes fossem desarraigados, como o SENHOR o havia mandado a Moisés.
Resposta curta
Depois de narrar a conquista do norte de Canaã, termina com uma observação incômoda: nenhuma cidade fez paz com Israel, exceto os heveus de Gibeão, que usaram um estratagema (). O texto explica essa recusa geral com uma frase direta: "isto veio do SENHOR, que endurecia o coração deles para que resistissem com guerra a Israel [...] e que não lhes fosse feita misericórdia". O mesmo verbo hebraico aqui aparece em Êxodo para o coração de Faraó, aproximando os dois episódios.
A dificuldade é clara: como responsabilizar quem teve o coração endurecido por Deus? O próprio texto dá uma pista, ao situar esse endurecimento depois de descrever a hostilidade que essas nações já haviam escolhido, e ao lembrar que o motivo remonta a uma ordem dada a Moisés décadas antes, ligada à maldade religiosa dessas cidades.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteEm Josué, a paz só chegava a quem a buscasse ativamente — como os gibeonitas, mesmo por engano, ou Raabe, que escondeu os espias e depois foi incorporada a Israel (; 6:25). As cidades que endureceram o coração e resistiram foram julgadas, sem misericórdia. O evangelho inverte a direção do movimento: em vez de exigir que os inimigos de Deus tomem a iniciativa de buscar paz sob risco de destruição, é Deus quem, em Cristo, toma a iniciativa de ir ao encontro dos hostis para reconciliá-los — "ele mesmo é a nossa paz [...] e destruiu a barreira, a parede da inimizade que nos separava" (). A própria Raabe, cananeia poupada em Josué, aparece depois na genealogia de Jesus () — sinal de que a linha entre julgamento e misericórdia nunca foi étnica, mas de resposta ao chamado de Deus, resposta que em Cristo passa a ser oferecida a toda nação, e não apenas aguardada de quem a procurasse primeiro.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Contexto histórico
fecha o relato da conquista do norte de Canaã. Depois de narrar as batalhas contra a coalizão liderada por Jabim de Hazor (vv. 1-15) e o resumo da campanha (vv. 16-19), o texto chega a uma observação teológica que intriga o leitor moderno: nenhuma cidade fez paz com Israel, exceto os heveus de Gibeão (v. 19), "porque isto veio do SENHOR, que endurecia o coração deles" (v. 20).
O verbo hebraico por trás de "endurecia" é חזק (chazaq), o mesmo usado repetidamente em Êxodo para o endurecimento do coração de Faraó (; 10:20). Nos dois casos, o texto atribui a Deus um papel ativo num processo em que os seres humanos já estavam inclinados à resistência. Em Josué, essa afirmação vem logo depois de o autor deixar claro, no versículo anterior, que a iniciativa da guerra partiu das próprias cidades cananeias — nenhuma delas buscou um acordo de paz, ao contrário dos gibeonitas, que negociaram por meio de um ardil ().
O pano de fundo legal dessa guerra está em e 20, onde Moisés instrui Israel a impor o herem — a destruição total, dedicada a Deus como sentença de julgamento — sobre certas cidades cananeias. é explícito quanto ao motivo: não é a justiça de Israel, mas a perversão religiosa dessas nações, incluindo práticas cultuais condenadas em , que justifica o julgamento. não descreve, portanto, um capricho divino repentino, mas o cumprimento de uma sentença já anunciada por Moisés décadas antes.
Para o leitor original, ouvir que "isto veio do SENHOR" funcionava como confirmação de que a conquista, apesar da violência, seguia um plano anunciado e moralmente justificado dentro da narrativa — não uma guerra de conquista territorial comum, mas a execução de um juízo específico contra povos já identificados por sua idolatria e violência, com precedente histórico e datado, e não um modelo permanente de guerra a ser copiado depois.
Aprofundamento
A dificuldade de é a mesma que atormenta leitores de Êxodo: se Deus endurece o coração de alguém, como responsabilizá-lo pelo que esse coração endurecido faz? A tradição cristã lida com essa tensão de formas diferentes (ver interpretações), mas alguns elementos do próprio texto ajudam a situar a pergunta.
Primeiro, a Bíblia hebraica costuma atribuir um mesmo evento tanto à ação humana quanto à ação divina, sem tratar isso como contradição — o que estudiosos chamam de causalidade dupla. Keil e Delitzsch, em seu comentário clássico sobre Josué, observam que o endurecimento de 11:20 pressupõe a hostilidade já presente nos reis cananeus: o texto não descreve Deus implantando um ódio inexistente, mas confirmando e intensificando uma disposição de guerra que essas nações já haviam assumido diante da chegada de Israel (cf. , onde a reação natural dos reis vizinhos, ao saberem das vitórias israelitas, foi se unir para lutar, não para negociar). Esse padrão — Deus "entregando" pessoas ao caminho que já haviam escolhido — reaparece em , quando Paulo descreve Deus entregando a humanidade idólatra às próprias paixões, e em , sobre os filhos de Eli, que não deram ouvidos à repreensão do pai "porque o SENHOR os queria matar".
Segundo, o comentarista Richard Hess observa que o verbo empregado (chazaq) é o mesmo do endurecimento de Faraó, e que os dois episódios compartilham a mesma estrutura narrativa: um poder político se recusa a negociar diante de sinais claros do poder de Deus, e essa recusa se torna, na leitura teológica do narrador, instrumento da justiça divina contra a violência e a idolatria dessas nações (cf. ; ).
Terceiro, é importante notar que o texto não apresenta o herem como determinismo absoluto e sem exceção. Os próprios gibeonitas () e, antes deles, Raabe em Jericó () mostram que havia caminho de misericórdia para quem buscasse aliança com Israel, mesmo por meio de um ardil, no caso dos gibeonitas. O endurecimento, portanto, recai sobre quem já havia decidido resistir, não sobre todo cananeu indistintamente; a narrativa preserva espaço para a resposta humana dentro da soberania afirmada em 11:20.
Por fim, vale lembrar que o herem em Josué é um mandamento específico, ligado a um momento e a um propósito históricos anunciados décadas antes por Moisés (v. 20; ) — não um princípio geral de conduta bélica que a tradição cristã tenha adotado, historicamente, como norma permanente para a guerra.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Deus fabricou ódio artificial em pessoas inocentes só para ter um motivo de exterminá-las.
O texto situa o endurecimento depois de descrever a hostilidade que as cidades cananeias já haviam escolhido (v. 19), e o motivo legal remonta a , que atribui o juízo à perversão religiosa dessas nações, não à inocência delas transformada artificialmente em culpa.
Dizem que:Todos os cananeus, sem exceção, foram exterminados por ordem direta de Deus nessa campanha.
O próprio livro de Josué registra exceções: os gibeonitas () e Raabe (; 6:25) foram poupados, e menciona que anaquins continuaram vivendo em Gaza, Gate e Asdode. A conquista, além disso, é descrita como incompleta em .
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
reformada
Lê o endurecimento como ato soberano e justo de Deus, entregando judicialmente ao próprio caminho quem já se opunha a ele — a mesma lógica vista no endurecimento de Faraó e retomada por Paulo em como exemplo do direito soberano de Deus sobre a criação.
arminiana/wesleyana
Enfatiza que Deus não gera a hostilidade, mas confirma e entrega ao seu curso natural uma disposição já escolhida livremente pelos reis cananeus, preservando a responsabilidade moral humana — o endurecimento é retirada de restrição, não implantação de maldade.
católica
Situa o episódio dentro da economia específica da Antiga Aliança e da providência divina, que ordena os meios sem ser autora do mal moral; o herem é lido como juízo histórico datado, ligado à corrupção religiosa cananeia, e não como padrão permanente de ação divina ou humana.
ortodoxa
Recorre à imagem patrística de que a mesma ação divina amolece a cera e endurece o barro — o efeito depende da disposição de quem a recebe; o endurecimento não é causação direta do mal, mas o resultado natural, permitido por Deus, de um coração já fechado à sinergia com ele.
No original4 termos
חָזַקchazaqH2388
ser forte, fortalecer; no contexto, endurecer (o coração) — o mesmo verbo usado para o endurecimento do coração de Faraó em Êxodo.
לֵבlevH3820
coração — sede da vontade, do entendimento e da decisão no pensamento hebraico, não apenas das emoções.
חָרַםcharamH2763
devotar à destruição total, colocar sob o herem — o banimento/consagração de algo à destruição como ato religioso de julgamento.
שָׁמַדshamadH8045
destruir, exterminar, aniquilar.
O que fazer com isso
Esse texto não ensina que Deus fabrica ódio em pessoas neutras, nem que toda violência tem aval divino automático. Ele mostra, dentro da narrativa de Josué, que a recusa persistente em buscar paz tem consequências — e que havia, mesmo ali, uma porta aberta para quem procurasse aliança, como fizeram Raabe e os gibeonitas. Vale perguntar, na própria vida, o que fazer diante de situações endurecidas: insistir na resistência raramente evita o desfecho que se teme; buscar reconciliação, mesmo tarde, costuma ser o caminho mais sábio.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament: Joshua, Judges, Ruth, 1863.
- Hess, Richard S.. Joshua: An Introduction and Commentary (Tyndale Old Testament Commentaries), 1996.
- Henry, Matthew. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Block, Daniel I.. Deuteronomy (The NIV Application Commentary), 2012.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Isso significa que os cananeus não tinham escolha própria?
O texto não apresenta isso como manipulação de pessoas neutras. O endurecimento vem depois de o autor já ter descrito a hostilidade que essas nações escolheram diante de Israel (v. 19); a leitura tradicional é que Deus confirmou uma disposição já existente, não que criou do nada uma vontade que não estava lá.
Por que os gibeonitas foram poupados e as outras cidades não?
Os gibeonitas usaram um estratagema para negociar um tratado de paz com Israel (), enquanto as demais cidades se uniram para guerrear. A narrativa liga a sobrevivência à busca por aliança, não a mérito étnico ou moral superior.
Esse texto pode ser usado para justificar guerra santa hoje?
Não é assim que a tradição cristã majoritária o lê. O herem é apresentado como mandamento específico, ligado a um momento histórico e a uma ordem dada a Moisés (v. 20), não como modelo permanente de conduta bélica.
É o mesmo tipo de endurecimento que aconteceu com Faraó?
O texto usa o mesmo verbo hebraico (chazaq) e a mesma lógica narrativa: um poder que se recusa a negociar diante de sinais claros de Deus. As duas passagens são tradicionalmente lidas em paralelo, inclusive por Paulo em .
Temas
- #Josué
- #endurecimento do coração
- #herem
- #guerra santa
- #Antigo Testamento
- #soberania de Deus