
Asa: um rei reto com uma reforma incompleta
Por que Asa é chamado de reto mesmo sem remover os altos?
E Asa fez o que era correto diante dos olhos do SENHOR, como o seu pai Davi. Porque tirou os sodomitas da terra, e tirou todas as imundícies que seus pais haviam feito. E também tirou de sua avó Maaca a posição de rainha-mãe, porque havia feito um ídolo num bosque. Além disso, Asa destruiu o ídolo dela, e o queimou junto ao ribeiro de Cedrom. Porém os altos não foram tirados. Contudo, o coração de Asa foi completo com o SENHOR durante toda a sua vida.
Resposta curta
Em , o rei Asa de Judá recebe uma avaliação marcante: o texto diz que ele "fez o que era correto diante dos olhos do SENHOR", à semelhança de Davi. A aprovação vem com ações concretas: Asa expulsou os sodomitas cultuais, removeu os ídolos herdados dos reis anteriores e destituiu a própria avó, Maaca, do cargo de rainha-mãe, por causa de um ídolo que ela mandara fazer, destruindo-o e queimando-o no ribeiro de Cedrom.
Mesmo assim, o relato registra uma falha: os altos, santuários em lugares elevados usados havia gerações, não foram removidos. Ainda assim, o texto conclui que o coração de Asa permaneceu completo com o SENHOR por toda a vida. Essa combinação intriga porque mostra que a Bíblia avalia reis por direção sustentada e lealdade de coração, não por um placar de perfeição sem falha alguma.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteAsa ilustra o padrão dos melhores reis de Judá antes de Cristo: uma fidelidade real, reconhecida por Deus, mas sempre parcial. Ele expulsa cultos estrangeiros, disciplina a própria família e ainda assim deixa os altos de pé — um problema que reis posteriores como Josafá também não resolveriam, e que só seria tratado de forma definitiva séculos depois, no reinado de Josias (2Reis 23:8). Essa insuficiência repetida, geração após geração, expõe um limite estrutural da monarquia davídica histórica: nenhum rei consegue completar a purificação que o povo de Deus precisa, por mais sincero que seja seu coração. A tradição cristã lê nessa lacuna recorrente uma preparação para um Rei cuja fidelidade não seria apenas "completa" no sentido de sincera e indivisa, mas sem nenhuma área não resolvida — o que o Novo Testamento reconhece unicamente em Jesus, descrito como quem "não cometeu pecado" (1Pedro 2:22). É uma leitura teológica construída pela tradição a partir do conjunto da narrativa dos reis, e não uma afirmação que o texto de 1 Reis faça sobre si mesmo.
Em palavras simples
Asa foi um dos reis de Judá elogiados na Bíblia: ele tirou ídolos do país, acabou com práticas de cultos pagãos e até puniu sua própria avó por causa de um ídolo que ela tinha feito. Mas o texto também admite que ele deixou de fora um problema: alguns lugares de culto antigos, chamados de altos, continuaram existindo. Mesmo assim, a Bíblia diz que o coração de Asa foi fiel ao SENHOR a vida inteira. Ou seja, ser considerado fiel não exigia ter feito tudo perfeito, e sim manter uma direção constante de lealdade a Deus.
Contexto histórico
Asa foi o terceiro rei de Judá após a divisão do reino, filho de Abias e neto de Roboão. O texto o chama de neto de Absalão por meio de sua avó Maaca — no hebraico bíblico, termos como "pai" e "filha" cobrem também avô, bisavô e outros ancestrais, um hebraísmo comum em genealogias e que explica por que Davi é chamado "pai" de Asa mesmo sendo seu bisavô. Maaca ocupava o cargo oficial de guebirá, a rainha-mãe, posição de peso político e religioso na corte de Judá, o que torna sua destituição por Asa um gesto de consequência real, não apenas doméstica.
Os "altos" (bamot, no hebraico) eram santuários situados em colinas ou lugares elevados, usados para sacrifícios e adoração desde antes da construção do templo em Jerusalém. Nem todo alto era dedicado a deuses estrangeiros — alguns serviam ao próprio SENHOR, como registra a vida do jovem Samuel — mas, depois da centralização do culto no templo, esses locais se tornaram associados a práticas sincréticas absorvidas da religião cananeia, incluindo cultos de fertilidade. Por isso os relatos de Reis costumam medir a fidelidade de cada rei também pela permanência ou remoção dos altos.
Os "sodomitas" do versículo 12 traduzem o hebraico qedeshim, termo técnico para prostitutos cultuais ligados a santuários de fertilidade — o mesmo campo semântico da palavra qedeshá, usada para a contraparte feminina. A tradução mais antiga reflete a associação bíblica entre esse tipo de prática e o relato de Sodoma, mas o sentido primário do termo hebraico é "consagrado" a um culto, não uma descrição de orientação sexual. O relato paralelo em detalha ainda mais a reforma de Asa, incluindo a reunião do povo para renovar a aliança com o SENHOR, o que sugere que 1 Reis oferece aqui um resumo compacto de um movimento de reforma mais amplo, relatado com mais extensão pelo cronista.
Aprofundamento
O elogio a Asa em usa o termo hebraico yashar ("reto", "correto"), a mesma palavra usada para descrever Davi e, mais tarde, reis como Ezequias e Josias. É um vocabulário de avaliação repetido ao longo de todo o livro de Reis: cada monarca é medido por essa régua, em contraste com o refrão negativo aplicado à maioria dos reis do reino do Norte, que "fizeram o que era mau aos olhos do SENHOR". Colocar Asa nesse grupo positivo já é significativo, porque ele é apenas o quarto rei depois da divisão do reino e o primeiro de Judá a merecer esse veredito sem ressalva na introdução do seu reinado.
As ações concretas listadas — expulsar os qedeshim, remover os ídolos (gillulim, termo hebraico de forte carga pejorativa, associado a "coisas repugnantes") e destituir Maaca — mostram que a reforma de Asa não foi apenas retórica. O detalhe de que ele destruiu pessoalmente o ídolo da própria avó e o queimou no ribeiro de Cedrom (o mesmo local onde reis posteriores, como Ezequias e Josias, também destruiriam objetos idólatras) indica coragem política: agir contra a família real, especialmente contra quem ocupava um cargo tão relevante quanto o de rainha-mãe, tinha custo.
Mas o versículo 14 introduz uma tensão deliberada: "os altos não foram tirados". Comentaristas como Keil e Delitzsch já notavam que esse tipo de ressalva aparece de forma recorrente nas avaliações dos reis de Judá — o mesmo padrão se repete com Josafá (1Reis 22:43) e outros — sugerindo que a permanência dos altos era um problema estrutural, quase cultural, e não apenas uma falha pessoal de caráter. Um rei podia empreender uma reforma real e sincera sem necessariamente enfrentar essa questão específica, talvez por resistência popular ou por não perceber os altos dedicados ao SENHOR como um problema equivalente à idolatria explícita.
O que torna o texto teologicamente rico é a frase final: o coração de Asa "foi completo" (shalem) com o SENHOR todos os seus dias. Shalem não significa isento de erro, mas íntegro, indiviso, leal por inteiro — a mesma raiz de shalom. A Bíblia aqui separa dois eixos de avaliação que às vezes confundimos: a extensão da obediência (o que foi feito) e a direção do coração (a quem se está leal). Asa erra no primeiro eixo e é aprovado no segundo, o que os relatos de Reis tratam como compatível — um padrão que ajuda a entender por que a Escritura elogia figuras imperfeitas sem contradição, e evita tanto o perfeccionismo quanto a indiferença moral.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:"Sodomitas" no versículo 12 é uma referência direta à orientação sexual das pessoas expulsas por Asa.
O termo hebraico qadesh (plural qedeshim) designa tecnicamente um "consagrado" a um culto de fertilidade, isto é, um prostituto cultual ligado a santuários pagãos. Tradutores mais antigos escolheram "sodomitas" pela associação bíblica com o relato de Sodoma, mas léxicos hebraicos padrão (como BDB) definem o termo pela função religiosa que exercia, não por orientação sexual.
Dizem que:Ser chamado de "reto" ou ter o "coração perfeito" com Deus significa que o rei não cometia nenhum erro.
O próprio texto que elogia Asa registra, na sequência imediata, que ele deixou os altos de pé — uma falha reconhecida. A palavra hebraica shalem ("completo", "perfeito") descreve integridade e lealdade indivisa de coração, não ausência de falhas práticas.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
reformada
O coração "completo" de Asa é lido como sinceridade de disposição diante de Deus, não perfeição sem pecado. A permanência dos altos ilustra que até os reis mais fiéis carregam resíduos de desobediência que só a graça de Deus cobre — coerente com a ideia de que ninguém, nem o mais reto dos reis, alcança obediência total por si mesmo.
católica
A reforma parcial de Asa é entendida como parte de um processo de cooperação com a graça: a santificação é progressiva, e um rei pode agir com sinceridade genuína e ainda precisar crescer. O relato prefigura a necessidade de conversão contínua, e não de uma ruptura única e definitiva com todo pecado.
arminiana/wesleyana
O termo shalem ("completo") é lido como devoção íntegra e não dividida — o coração de Asa estava voltado para um só lado, sem lealdades concorrentes. Essa leitura aproxima o texto da ideia de "perfeição cristã" como amor pleno e intenção reta, e não como ausência total de erro ou falha de execução.
pentecostal/carismática
Os altos que permanecem são lidos de forma aplicada, como símbolo de áreas da vida ainda não plenamente entregues, mesmo após uma experiência real de reforma espiritual. A ênfase recai sobre o processo contínuo de consagração, em que novas áreas de rendição a Deus vão sendo reveladas e tratadas ao longo do tempo.
No original6 termos
יָשָׁרyasharH3477
reto, correto, íntegro — termo de avaliação usado para julgar a conduta dos reis de Judá e Israel diante do SENHOR
קָדֵשׁqadeshH6945
prostituto cultual (masculino), literalmente "consagrado" a um culto de fertilidade pagão; traduzido nas versões mais antigas como "sodomita"
גִּלּוּלִיםgillulimH1544
ídolos; termo hebraico de conotação pejorativa aplicado com frequência a imagens de culto estrangeiro
אֲשֵׁרָהasherahH842
poste ou bosque sagrado dedicado à deusa cananeia Aserá, associado a cultos de fertilidade
בָּמוֹתbamotH1116
"lugares altos", santuários situados em colinas usados para sacrifícios, nem sempre dedicados a deuses estrangeiros
שָׁלֵםshalemH8003
completo, íntegro, leal por inteiro — descreve a lealdade indivisa do coração de Asa para com o SENHOR
O que fazer com isso
É comum medir a própria fé pelo que ainda falta corrigir, como se um ponto cego não resolvido anulasse tudo o que já mudou. O texto sugere outro critério: perguntar para que lado o coração está voltado, não apenas quanto já foi ajustado. Isso não é desculpa para acomodação — Asa realmente agiu, inclusive contra a própria família —, mas um lembrete de que reforma genuína pode conviver, por um tempo, com áreas ainda não resolvidas, sem que isso invalide o que já foi obedecido.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (The Books of the Kings), 1876.
- Donald J. Wiseman. 1 and 2 Kings: An Introduction and Commentary (Tyndale Old Testament Commentaries), 1993.
- Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que eram os "altos" (bamot) que Asa não removeu?
Eram santuários em colinas ou lugares elevados, usados para sacrifícios desde antes de o culto ser centralizado no templo de Jerusalém. Alguns eram dedicados ao próprio SENHOR, mas muitos absorveram práticas cananeias, o que os tornava um risco constante de sincretismo mesmo quando não eram diretamente pagãos.
Quem eram os "sodomitas" mencionados no versículo 12?
O termo hebraico qadesh designa prostitutos cultuais ligados a santuários pagãos de fertilidade, não uma referência à orientação sexual como se entende hoje. A tradução "sodomitas" reflete uma associação bíblica antiga com o relato de Sodoma, mas o sentido técnico do termo é "consagrado" a um culto de fertilidade.
Como Asa pôde ser chamado de "reto" se não completou a reforma?
O texto avalia reis por direção geral e lealdade sustentada, não por perfeição absoluta na execução. Asa é elogiado porque sua trajetória e sua fidelidade ao SENHOR foram constantes, mesmo com uma falha reconhecida — um padrão de avaliação que reaparece com outros reis, como Josafá.
Por que Asa foi tão duro com a própria avó?
Maaca ocupava o cargo oficial de rainha-mãe (guebirá), posição de influência política e religiosa na corte de Judá. Ao removê-la do cargo por causa do ídolo que havia feito, Asa mostrou que sua reforma alcançava até os membros mais poderosos da família real, não só o povo comum.
O que significa o coração de Asa ter sido "completo" com o SENHOR?
A palavra hebraica shalem, traduzida como "completo" ou "perfeito", indica integridade e lealdade indivisa, não ausência de erros. Descreve a disposição constante do coração de Asa, voltado para o SENHOR ao longo de toda a vida, apesar de uma reforma religiosa incompleta.
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