Simeão, o ancião do templo
quem foi simeão na bíblia / cântico de simeão
Ficha do personagem
nascimento de Jesus, início do séc. I d.C.
Aparece em
Relações
- abençoou e profetizou sobre Jesus
- profetizou sobre a dor de Maria, mãe de Jesus
- encontrou-se com José, esposo de Maria
- contemporâneo de, no mesmo episódio Ana, a profetisa
Resposta curta
Simeão era um homem justo e piedoso de Jerusalém, sobre quem repousava o Espírito Santo. Lucas registra que lhe fora revelado que ele não morreria sem antes ver o Cristo do Senhor, promessa que o mantinha à espera da "consolação de Israel". O evangelho não lhe atribui cargo algum: nem sacerdote, nem membro de qualquer grupo religioso reconhecido, apenas um homem movido pelo Espírito.
Guiado ao templo no dia em que José e Maria levaram Jesus para a cerimônia de purificação, Simeão tomou o menino nos braços e declarou, no cântico conhecido como Nunc Dimittis, que já podia morrer em paz, pois seus olhos haviam visto a salvação prometida. Na mesma cena, voltou-se a Maria e anunciou que aquele filho seria motivo de queda e levantamento para muitos, e que uma espada atravessaria a própria alma dela.
Onde ele aparece
O nome
Simeão — o Senhor ouviu (do hebraico shama, "ouvir"), com o texto de Gênesis 29:33 explicando o nome pela fala de Lia: "o Senhor ouviu que eu era desprezada"
Significado, origem e variantes →Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoAo tomar Jesus nos braços, Simeão declara publicamente, sob a ação do Espírito Santo, que aquela criança é "a tua salvação" e "luz para revelação aos gentios" — linguagem que retoma diretamente os cânticos do Servo em Isaías (42:6; 49:6), onde se promete um enviado que levaria a luz de Deus às nações, além de restaurar Israel. O que em Isaías era promessa futura, no templo se torna reconhecimento presente: Simeão não anuncia um Messias que virá, mas testemunha, com os próprios olhos, que ele já chegou. É um dos poucos momentos do Novo Testamento em que um observador humano identifica, dentro da narrativa, o cumprimento de uma profecia messiânica específica no instante em que ele acontece.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Simeão foi um homem idoso e devoto de Jerusalém que, segundo o evangelho de Lucas, tinha a promessa de que não morreria antes de ver o Messias. Quando Maria e José levaram o bebê Jesus ao templo, Simeão o reconheceu, pegou-o no colo e disse que agora podia morrer em paz, porque já tinha visto a salvação. Ele também avisou Maria que aquele filho traria alegria para muitos, mas também dor profunda para ela mesma.
O mundo dele
A cena de Simeão está em , no episódio da apresentação de Jesus no templo de Jerusalém. A lei de Moisés (; ) exigia que, quarenta dias após o nascimento de um primeiro filho homem, a mãe fizesse uma oferta de purificação e a criança fosse formalmente "consagrada ao Senhor". José e Maria cumprem esse rito trazendo um par de rolinhas ou dois pombinhos — a oferta prevista pela lei para famílias sem recursos para comprar um cordeiro () —, um detalhe que situa a família de Jesus entre os pobres de Israel logo nas primeiras páginas do evangelho.
É nesse contexto que Simeão aparece, sem qualquer apresentação prévia. Lucas não lhe atribui cargo oficial algum: não é chamado sacerdote, nem levita, nem membro do Sinédrio, nem sequer é dito explicitamente que fosse idoso. É descrito apenas como "homem justo e temente a Deus", sobre quem estava o Espírito Santo, e que "esperava a consolação de Israel" — expressão que remete a e à esperança judaica corrente de que Deus enviaria alguém para libertar e restaurar seu povo, sob domínio romano havia décadas. A tradição posterior o apelidou de "o ancião", título que se tornou comum na liturgia e na arte cristã, mas que nasce do tom de despedida do seu cântico — de quem sente que sua missão, e sua vida, estão chegando ao fim — e não de uma informação que o texto grego afirme diretamente.
Logo depois de Simeão, na mesma cena, Lucas apresenta Ana, uma profetisa de idade avançada, viúva havia muitos anos, que vivia praticamente no templo e também reconhece a criança, falando dela "a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém" (). Os dois personagens funcionam como testemunhas duplas — prática valorizada no judaísmo do período, que exigia mais de uma voz para confirmar um testemunho () — atestando publicamente, dentro do próprio templo, a identidade messiânica do menino apresentado por seus pais. O episódio constitui o primeiro reconhecimento formal de Jesus como o Cristo dentro do relato de Lucas, feito por duas vozes proféticas independentes, em um espaço sagrado, poucas semanas depois do nascimento em Belém.
A história
O momento central da cena é o cântico de Simeão, conhecido pela tradição latina como Nunc Dimittis, por suas primeiras palavras na Vulgata ("Agora despedes..."). É um dos três grandes hinos que abrem o evangelho de Lucas, ao lado do Magnificat de Maria e do Benedictus de Zacarias, e desde os primeiros séculos do cristianismo foi incorporado às liturgias noturnas da Igreja, como a Completas, cantado até hoje em diversas tradições litúrgicas.
O que torna esse hino incomum é o seu conteúdo: não pede vida, nem bênção futura, nem promete continuidade. Pede autorização para morrer. "Despedes em paz o teu servo" usa um verbo que descrevia a liberação de um soldado ou de um escravo do seu dever. Simeão trata sua própria existência como uma tarefa cumprida: viu o que precisava ver, e agora está livre. É uma nota rara no Novo Testamento, que normalmente celebra promessas de vida e ressurreição, não a permissão para partir.
Na mesma respiração, porém, o texto muda de tom. Depois de abençoar José e Maria, Simeão se volta especificamente para ela e anuncia duas coisas: que o menino está posto "para queda e levantamento de muitos em Israel" — uma imagem que ecoa a pedra de tropeço de , o mesmo Cristo que salva uns e faz outros tropeçarem — e que ele será "sinal que será contradito", isto é, alvo de controvérsia pública. Só então vem a frase mais lembrada: "uma espada atravessará também a tua própria alma". O texto grego (rhomphaía, uma espada longa e larga) sugere uma dor profunda e cortante, não um ferimento qualquer. É a primeira vez, em toda a narrativa da infância de Jesus, que a sombra do sofrimento futuro — o que culminará na cruz — toca diretamente a figura de Maria.
Alguns intérpretes do século XIX, como Alfred Edersheim, levantaram a hipótese de que esse Simeão fosse o mesmo Simeão ben Hillel, filho do influente rabino Hillel e, segundo a tradição rabínica, pai de Gamaliel (o mestre de Paulo em ). É uma identificação sugestiva, mas especulativa: Lucas não fornece dado genealógico algum sobre Simeão, e a cronologia dessa hipótese é discutida entre os próprios estudiosos. Comentaristas como Matthew Henry preferem apenas destacar o caráter do homem — "justo e piedoso" — sem identificá-lo com nenhuma figura histórica fora do evangelho; já comentaristas mais recentes, como I. Howard Marshall e Joseph Fitzmyer, tratam a passagem sobretudo como composição literária de Lucas, que usa Simeão para ligar teologicamente a chegada do Messias ao conjunto das Escrituras de Israel, sem se deter em sua biografia.
Vale notar ainda que a bênção de Simeão a José e Maria, no versículo 34, antecede a palavra dirigida somente a Maria — detalhe que passa despercebido numa leitura rápida. Simeão não profetiza sobre José; sua fala muda de destinatário exatamente quando passa da alegria da salvação para o anúncio da dor futura, como se o texto marcasse quem carregaria esse peso de modo mais direto.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Simeão era sacerdote ou algum líder religioso oficial do templo.
Lucas não lhe atribui nenhum título ou função religiosa formal. Ele é apresentado apenas como "homem justo e temente a Deus" sobre quem estava o Espírito Santo, morador de Jerusalém — não como sacerdote, levita ou autoridade do templo.
Dizem que:A Bíblia diz que Simeão era um velho encanecido, próximo da morte.
O texto grego de não menciona a idade de Simeão em nenhum momento. A imagem tradicional de um ancião vem do tom do seu cântico, que soa como uma despedida, e foi consolidada por séculos de arte e liturgia cristãs, não pela narrativa bíblica em si.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo
A espada anunciada a Maria é lida como o início da compassio — a participação de Maria no sofrimento do Filho, tema que alimenta a devoção às Sete Dores de Nossa Senhora e vê em Simeão o primeiro a revelar publicamente esse papel de Maria na história da salvação.
Ortodoxia
A cena integra a festa da Hypapante (Apresentação do Senhor), celebrada liturgicamente com ênfase no encontro entre o Antigo e o Novo Testamento: Simeão representa a lei e os profetas reconhecendo, em pessoa, aquele a quem toda a Escritura anterior apontava.
Protestantismo evangélico
O foco recai sobre o cumprimento profético em si e sobre a fé pessoal de Simeão; a espada na alma de Maria é lida sobretudo como imagem da dor humana e real de uma mãe diante da rejeição e da morte violenta do filho, sem atribuir a esse sofrimento função salvífica própria.
Tradição reformada
Destaca a expressão "para que se manifestem os pensamentos de muitos corações" como o propósito central da profecia: Jesus funcionaria como critério que revela a condição espiritual de quem o encontra, e a dor de Maria é uma das primeiras ilustrações desse princípio dentro da narrativa.
O que fazer com isso
A cena de Simeão registra um tipo pouco comum de expectativa religiosa: uma vida inteira de espera que termina, não em conquista, mas em reconhecimento. O relato também não esconde o custo desse reconhecimento — a mesma passagem que celebra a chegada do Messias já anuncia sofrimento para quem estará mais perto dele. Lucas une, na mesma cena, a alegria do cumprimento e o aviso da dor que viria, sem separar as duas coisas.
Passagens relacionadas9
Fontes consultadas4
- Alfred Edersheim. The Life and Times of Jesus the Messiah, 1883.
- Matthew Henry. Exposition of the Old and New Testaments (comentário sobre Lucas), 1710.
- I. Howard Marshall. The Gospel of Luke: A Commentary on the Greek Text (NIGTC), 1978.
- Joseph A. Fitzmyer. The Gospel According to Luke I-IX (Anchor Bible), 1981.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi Simeão na Bíblia?
Foi um homem justo e piedoso de Jerusalém, sobre quem estava o Espírito Santo, a quem havia sido revelado que não morreria antes de ver o Messias. Ele aparece uma única vez, em , quando reconhece o bebê Jesus no templo.
Simeão era sacerdote do templo?
Não. O texto de Lucas não lhe atribui nenhum cargo oficial — nem sacerdote, nem levita, nem membro do Sinédrio. Ele é descrito simplesmente como um homem justo movido pelo Espírito Santo.
O que é o cântico de Simeão, ou Nunc Dimittis?
É o hino que Simeão canta ao segurar Jesus no colo, começando com "Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo". O nome latino vem da Vulgata e o cântico é usado até hoje em liturgias cristãs de várias tradições.
O que significa a profecia da espada que atravessaria a alma de Maria?
Simeão anuncia a Maria que o sofrimento futuro do filho também a atingiria diretamente, de forma profunda e dolorosa. Tradições cristãs divergem sobre o alcance exato dessa dor, mas todas a ligam ao papel de Maria como testemunha da vida e da morte de Jesus.
Simeão era realmente muito velho?
A Bíblia não afirma explicitamente sua idade. A imagem de um ancião vem do tom de despedida do seu cântico, que soa como quem sente a vida chegando ao fim, e se tornou tradição na arte e na liturgia cristã.