Tito e a sucessão de presbíteros em 1 Clemente
Tito nomeou presbíteros em Creta — isso aparece de novo na carta de Clemente de Roma aos coríntios?
Resposta curta
Em , Paulo deixa Tito em Creta com uma tarefa concreta: nomear presbíteros em cada cidade, gente irrepreensível, testada na vida familiar e no caráter, capaz de ensinar a sã doutrina. É uma instrução pastoral pontual, dada por um colaborador apostólico a um discípulo, para organizar igrejas ainda novas numa ilha conhecida por sua reputação difícil.
Cerca de trinta anos depois, em Roma, Clemente escreve aos coríntios para resolver outro problema: presbíteros legitimamente nomeados pelos apóstolos, ou por homens autorizados por eles, tinham sido depostos sem justa causa. Em 1 Clemente 42 e 44, ele defende que os apóstolos, sabendo que haveria disputas pelo cargo de bispo, já haviam previsto uma sucessão ordenada. O pano de fundo é diferente, mas o vocabulário de liderança se encontra.
O que diz Primeira Epístola de Clemente
1 Clemente 42, 44
A Epístola a Tito integra o grupo das chamadas cartas pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito), voltadas à organização de igrejas locais e ao perfil de quem deveria liderá-las. Em , Paulo relembra por que deixou Tito em Creta: para "pôr em ordem as coisas que estavam faltando" e "constituir presbíteros" cidade por cidade. Os versículos 6 a 9 trazem os critérios: vida familiar estável, caráter equilibrado, hospitalidade e apego à doutrina recebida. No versículo 7, o mesmo cargo é chamado de "supervisor" (episkopos), termo que na maior parte do Novo Testamento é sinônimo funcional de presbítero, não um posto hierarquicamente superior.
1 Clemente é uma carta enviada pela igreja de Roma à igreja de Corinto, geralmente datada de cerca de 96 d.C., no fim do reinado de Domiciano ou logo depois. A tradição eclesiástica antiga, atestada por Dionísio de Corinto (citado por Eusébio de Cesareia) e por Inácio de Antioquia, atribui a carta a um certo Clemente, presbítero ou bispo de Roma; alguns escritores posteriores o identificaram, sem certeza histórica, com o Clemente mencionado por Paulo em . O motivo da carta é uma crise concreta: alguns membros da igreja de Corinto haviam removido presbíteros que exerciam seu ministério de forma irrepreensível. Nos capítulos 42 e 44, Clemente argumenta que os apóstolos, ao pregarem cidade por cidade, nomeavam os primeiros convertidos como bispos e diáconos, citando uma leitura de na Septuaginta, e que, prevendo disputas futuras pelo cargo, deixaram instruções para que homens aprovados sucedessem aos primeiros líderes quando estes morressem. A carta não é canônica no Novo Testamento, mas foi lida em voz alta em Corinto ainda no século II, segundo o próprio Dionísio, e aparece copiada ao final do Novo Testamento no Códice Alexandrino, do século V, ao lado de outro texto atribuído a Clemente, sinal do alto prestígio que a obra teve nos primeiros séculos do cristianismo, mesmo sem jamais ter sido tratada como Escritura pelas igrejas do Ocidente.
O que diz a Bíblia
Por esta causa eu te deixei em Creta, para que tu continuasses a pôr em ordem as coisas que estavam faltando, e de cidade em cidade constituísses presbíteros, conforme eu te mandei. Se alguém for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de serem devassos ou desobedientes. Porque o supervisor deve ser irrepreensível, como administrador da casa de Deus, não arrogante, que não se ira facilmente, não beberrão, não agressivo, nem ganancioso. Mas que ele seja hospitaleiro, ame aquilo que é bom, moderado, justo, santo, e tenha domínio próprio; Retendo firme a fiel palavra que é conforme o que foi ensinado; para que ele seja capaz, tanto para exortar na sã doutrina, como também para mostrar os erros dos que falam contra ela.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Ambos os textos usam 'presbítero' (presbyteros) e 'bispo/supervisor' (episkopos) como nomes intercambiáveis para o mesmo ofício local: Tito 1:5 e 1:7 alternam os dois termos para a mesma pessoa, assim como 1 Clemente 44:4-5 chama de 'presbíteros' os mesmos homens nomeados 'bispos e diáconos' em 42:4-5.
- Ambos tratam da nomeação/estabelecimento de líderes locais por uma autoridade ligada aos apóstolos: em Tito, é Paulo instruindo Tito a constituir presbíteros cidade por cidade em Creta; em 1 Clemente 42, são os próprios apóstolos que nomeiam os primeiros bispos e diáconos ao evangelizarem cidade por cidade.
- Ambos ligam a legitimidade do cargo à conduta irrepreensível de quem o ocupa: Tito 1:6-7 exige que o presbítero seja 'irrepreensível'; 1 Clemente 44:3-6 defende que os presbíteros depostos em Corinto haviam servido 'sem repreensão' e por isso não podiam ser removidos com justiça.
- Nenhum dos dois textos apresenta um bispo monárquico superior aos presbíteros de uma mesma cidade — a hierarquia entre um único bispo e vários presbíteros subordinados, que aparece logo depois nas cartas de Inácio de Antioquia, está ausente de ambos.
Onde divergem
- Tito 1:5-9 é uma instrução de ocasião para a primeira nomeação de presbíteros em igrejas novas de Creta; 1 Clemente 44 desenvolve uma ideia de sucessão contínua e prevista pelos apóstolos para quando os primeiros nomeados morressem, ausente de Tito.
- 1 Clemente 42 fundamenta a origem do ofício numa citação da Septuaginta de Isaías 60:17 ('estabelecerei seus bispos em justiça, e seus diáconos em fé'); Tito não recorre a nenhuma citação profética para justificar a nomeação de presbíteros.
- Tito 1:6-9 detalha uma lista extensa e individualizada de qualificações morais e domésticas (marido de uma só mulher, filhos fiéis, não violento, não ganancioso, hospitaleiro, apegado à sã doutrina); 1 Clemente 42 e 44 não repetem esse checklist, falando de forma mais geral em servir 'sem repreensão' e 'com humildade'.
- Tito não trata de nenhum conflito de remoção de líderes; 1 Clemente 44 responde a uma crise real e específica em que presbíteros legitimamente nomeados foram depostos em Corinto, chamando esse ato de pecado e injustiça — situação sem paralelo no texto de Tito.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A ideia explícita de que os próprios apóstolos, prevendo disputas futuras pelo cargo de bispo, deixaram uma provisão (epinomē) para que homens aprovados sucedessem aos primeiros nomeados quando estes morressem (1 Clemente 44:2).
- O uso de Isaías 60:17 (na leitura da Septuaginta) como texto profético que fundamenta a origem do ofício de bispo e diácono.
- O relato e a defesa de um episódio disciplinar concreto em Corinto — a deposição injusta de presbíteros específicos — usado como argumento histórico e pastoral, algo que não existe em forma alguma na carta a Tito.
Em palavras simples
mostra Paulo mandando Tito escolher presbíteros (líderes) nas igrejas de Creta, com uma lista de qualidades que essa pessoa precisa ter. Décadas depois, uma carta chamada 1 Clemente, escrita de Roma para Corinto, defende que esses líderes, uma vez nomeados corretamente, não podiam ser removidos sem motivo justo. As duas fontes tratam do mesmo tipo de liderança na igreja, mas com objetivos e situações bem diferentes.
Aprofundamento
O ponto de contato mais preciso entre os dois textos é terminológico e estrutural, não literário — nada indica que Clemente estivesse citando Tito diretamente. Em , Paulo manda "constituir presbíteros" (presbyteroi); dois versículos depois, o mesmo ofício é chamado de "supervisor" (episkopos, v. 7). Essa alternância despreocupada entre os dois termos para a mesma função aparece igualmente em 1 Clemente 44:4-5, onde os "presbíteros" removidos em Corinto são os mesmos que, em 42:4-5, tinham sido nomeados "bispos e diáconos" pelos apóstolos. Em nenhum dos dois textos há um bispo monárquico distinto e superior aos presbíteros de uma cidade — essa distinção mais nítida só aparece com clareza nas cartas de Inácio de Antioquia, escritas poucos anos depois.
O ângulo de cada texto, porém, diverge de forma real. é uma instrução de ocasião: Paulo dá a Tito uma lista de critérios morais e domésticos para escolher presbíteros pela primeira vez em igrejas recém-formadas em Creta. Não há, ali, nenhuma teoria sobre o que fazer quando esses presbíteros morrerem ou sobre disputas pelo cargo. Já 1 Clemente 44 vai além do ato de nomear: afirma que os próprios apóstolos, "tendo pleno conhecimento" de que haveria conflito pelo título de bispo, teriam deixado uma provisão (epinomē) para que, ao falecerem os primeiros nomeados, outros homens aprovados pela igreja lhes sucedessem no ministério. Essa ideia de sucessão prevista e organizada não está em Tito — é um desenvolvimento posterior, motivado pela necessidade concreta de defender presbíteros específicos em Corinto contra sua remoção.
Outra diferença está na fundamentação. apoia sua lista de qualificações apenas na razão prática ("para que seja capaz de exortar na sã doutrina"). 1 Clemente 42 recorre a uma citação da Septuaginta de ("estabelecerei seus bispos em justiça, e seus diáconos em fé") como base profética para a origem do ofício — um recurso exegético ausente da carta a Tito. Por fim, Tito nunca menciona um conflito de remoção de líderes; 1 Clemente escreve exatamente para reverter uma dessas remoções, chamando-a de injustiça grave contra homens que serviam "sem repreensão". São dois momentos do mesmo tipo de preocupação institucional, cerca de três décadas ou mais separados, cada um respondendo a uma necessidade diferente da igreja primitiva.
Vale notar ainda que 1 Clemente não cita Tito nem qualquer outra carta pastoral como autoridade escrita, embora demonstre familiaridade com cartas de Paulo, como 1 Coríntios, dirigida à mesma cidade. Isso sugere que a semelhança de vocabulário entre os dois textos reflete uma prática compartilhada nas igrejas do primeiro século, e não dependência literária de um texto sobre o outro — o que torna o paralelo mais valioso como testemunho independente de como se falava sobre liderança eclesiástica naquele período, e não como prova de que um autor conhecia o outro.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:1 Clemente chegou a fazer parte do cânon do Novo Testamento em algum momento oficial.
A carta foi muito respeitada e até copiada ao final do Novo Testamento no Códice Alexandrino (século V), e Dionísio de Corinto relata que ainda era lida em voz alta na igreja no século II, mas as listas canônicas que se consolidaram nos séculos IV e V, como a de Atanásio, não a incluem entre os livros do Novo Testamento.
Dizem que:1 Clemente já descreve um bispo monárquico, com autoridade superior aos presbíteros de uma mesma cidade, como nas igrejas de séculos posteriores.
Nos capítulos 42 e 44, Clemente usa "bispo" (episkopos) e "presbítero" (presbyteros) para o mesmo cargo, exatamente como Paulo faz em e 1:7. A distinção clara entre um bispo e vários presbíteros subordinados a ele aparece de forma mais definida só nas cartas de Inácio de Antioquia, escritas nos anos seguintes.
Como diferentes tradições leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo Romano
Vê em 1 Clemente 42 e 44 um dos primeiros testemunhos claros da doutrina da sucessão apostólica, entendida como transmissão ordenada de autoridade ministerial a partir dos apóstolos, e lê a defesa dos presbíteros de Corinto como precedente para a autoridade da sé de Roma em questões de outras igrejas.
Tradições Reformadas e Evangélicas
Reconhece o valor histórico de 1 Clemente como testemunha do vocabulário eclesiástico do fim do século I, mas resiste a lê-lo como fundamento de uma sucessão hierárquica formal, notando que a carta, como Tito, ainda trata bispo e presbítero como o mesmo ofício, e não atribui à carta autoridade normativa igual à das Escrituras.
Ortodoxia Oriental
Também valoriza altamente 1 Clemente, incluído por algumas listas canônicas antigas do Oriente e preservado como leitura eclesiástica de peso, entendendo a continuidade do ministério ali descrita como parte da vida orgânica e conciliar da igreja, sem separá-la do testemunho apostólico das Escrituras.
O que fazer com isso
Ler Tito ao lado de 1 Clemente ajuda a notar que a organização das igrejas do primeiro século foi um processo, não um sistema pronto de uma só vez. É saudável reconhecer continuidade real de vocabulário e preocupação sem projetar sobre Paulo estruturas eclesiásticas que só ficaram mais definidas décadas depois, nem tratar 1 Clemente como extensão automática do texto bíblico.
Fontes consultadas4 obras
- Michael W. Holmes. The Apostolic Fathers: Greek Texts and English Translations, 2007.
- Bart D. Ehrman. The Apostolic Fathers, Vol. I (Loeb Classical Library), 2003.
- Everett Ferguson. The Church of Christ: A Biblical Ecclesiology for Today, 1996.
- Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, 325.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
1 Clemente é a mesma pessoa citada por Paulo em Filipenses 4:3?
É possível, e alguns escritores antigos fizeram essa ligação, mas não há como confirmar historicamente que se trata da mesma pessoa. O nome Clemente era comum em Roma no primeiro século.
Tito 1:7 já usa "bispo" no sentido que a palavra ganhou depois?
Não. Em Tito, "supervisor" (episkopos) é outro nome para o mesmo cargo de presbítero do versículo 5, não um posto superior distinto, como o termo passou a designar em estruturas eclesiásticas posteriores.
1 Clemente 42 e 44 provam que existia sucessão apostólica formal já no século I?
Os capítulos mostram que a ideia de continuidade ordenada de ministério já estava presente por volta de 96 d.C., mas o texto responde a uma disputa concreta em Corinto, não apresenta uma doutrina sistemática completa como a que se desenvolveu em séculos posteriores.
Por que ler 1 Clemente se ele não está na Bíblia?
Porque é um dos documentos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento, escrito por alguém que viveu perto da geração apostólica, e ajuda a entender como as igrejas do fim do século I liam e aplicavam ensinos como os de Tito e das demais cartas pastorais.
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