Um endemoninhado ou dois? Marcos e Mateus na região dos gadarenos
Afinal, Jesus curou um endemoninhado ou dois em Gadara?
Resposta curta
diz que, ao desembarcar na terra dos gadarenos, "veio das sepulturas ao seu encontro um homem com um espírito imundo" — relato que repete quase palavra por palavra. , porém, fala de "dois endemoninhados" no mesmo episódio. É uma das divergências numéricas mais conhecidas entre os evangelhos sinóticos, e por séculos intrigou leitores atentos ao texto.
A explicação mais aceita entre comentaristas cristãos, desde Agostinho de Hipona, é que Marcos e Lucas concentram a narrativa no mais atormentado e falante dos dois homens — aquele cuja história pessoal, vivendo nos sepulcros e gritando dia e noite, merecia destaque dramático — sem negar a presença do segundo. Mateus, mais conciso, preserva o número completo sem detalhar a biografia de nenhum. Não há contradição lógica: dizer "um homem veio" não exclui que outro estivesse ali.
O que diz o texto de fora
Harmonização popular dos relatos sinóticos
O episódio ocorre logo depois de Jesus acalmar a tempestade no mar da Galileia (), quando ele e os discípulos desembarcam do lado oriental do lago, em território majoritariamente gentio — daí a presença de uma criação incomum para judeus, uma manada de porcos (). A região é identificada de formas ligeiramente diferentes nos manuscritos dos três evangelhos: "gadarenos" (ligada à cidade de Gadara), "gerasenos" (ligada a Gerasa) ou "gergesenos", variações que refletem tanto a geografia imprecisa da margem leste do lago quanto pequenas oscilações na transmissão manuscrita do Novo Testamento.
O relato faz parte de um conjunto de milagres que Marcos agrupa nos capítulos 4 e 5 — a tempestade acalmada, a cura do endemoninciado, a cura da mulher com hemorragia e a ressurreição da filha de Jairo — todos ilustrando a autoridade de Jesus sobre a natureza, os espíritos impuros, a doença e a morte. Mateus, por sua vez, organiza seu evangelho de forma temática, não estritamente cronológica, e no capítulo 8 reúne uma sequência de milagres de cura (o leproso, o servo do centurião, a sogra de Pedro, os endemoninhados) para demonstrar a autoridade messiânica de Jesus logo após o Sermão do Monte.
É nesse contexto de composição diferente — Marcos mais narrativo e detalhista, Mateus mais conciso e organizado por temas — que surge a divergência numérica: um endemoninhado em Marcos e Lucas, dois em Mateus. Essa é uma das discrepâncias mais citadas entre os evangelhos sinóticos, ao lado de outras como o número de anjos no túmulo vazio ou a ordem exata de certos eventos da paixão. Comentaristas desde a Antiguidade, como Agostinho de Hipona, já discutiam esse tipo de variação, sem vê-la como contradição real, mas como reflexo do processo natural de composição literária: cada evangelista, com testemunhas e fontes próprias, seleciona os detalhes que servem ao seu propósito narrativo e teológico. Entender esse pano de fundo ajuda a ler os evangelhos não como registros notariais idênticos, mas como quatro testemunhas complementares do mesmo Jesus.
O que diz a Bíblia
E chegaram ao outro lado do mar, à terra dos Gadarenos. Assim que Jesus saiu do barco, veio das sepulturas ao seu encontro um homem com um espírito imundo,
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Todos os três relatos (Marcos 5:1-2, Mateus 8:28, Lucas 8:26-27) situam o encontro na travessia do mar da Galileia, numa região gentia a leste, associada a sepulcros.
- Nos três relatos o(s) endemoninhado(s) reconhece(m) Jesus como "Filho de Deus" antes de qualquer palavra dele, e pedem que não sejam atormentados.
- Nos três relatos os demônios são enviados para uma manada de porcos, que se precipita no mar e morre — o desfecho é idêntico nos três textos.
Onde divergem
- Marcos 5:2 e Lucas 8:27 mencionam "um homem" que veio ao encontro de Jesus vindo das sepulturas; Mateus 8:28 fala de "dois endemoninhados" no mesmo episódio.
- Marcos 5:1 e Lucas 8:26 localizam o evento na terra dos "gadarenos"; muitos manuscritos de Mateus 8:28 trazem "gergesenos" — nome de região ligeiramente diferente para o mesmo local geográfico.
- Marcos e Lucas dedicam vários versículos à biografia do endemoninhado (viver nos sepulcros, ser acorrentado, gritar e ferir-se — Marcos 5:3-5); Mateus resume o encontro em poucas linhas, sem detalhar a história pessoal de nenhum dos dois.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A tradição de que o segundo endemoninhado de Mateus era "menos importante" ou um mero acompanhante não está em nenhum dos evangelhos — é preenchimento popular para explicar por que só um deles fala.
- Comentários patrísticos, como os de João Crisóstomo (século IV), já discutiam essa diferença numérica entre os sinóticos, propondo explicações harmonizadoras que continuam sendo repetidas, com variações, até hoje em materiais apologéticos.
Em palavras simples
Marcos e Lucas contam que um homem endemoninhado veio ao encontro de Jesus na terra dos gadarenos; Mateus diz que eram dois. Não é uma contradição: Marcos e Lucas provavelmente focaram no mais marcante dos dois, sem negar que houvesse outro. É como quando alguém conta uma história de grupo mas destaca só a pessoa mais importante para o que quer contar.
Aprofundamento
Os três evangelhos sinóticos narram o mesmo episódio com variações que intrigam leitores atentos. e falam de um único endemoninhado, cujo nome — "Legião" — e cuja história pessoal (viver nos sepulcros, ser acorrentado sem sucesso, gritar dia e noite) são narrados com riqueza de detalhes. , por outro lado, é mais econômico: menciona "dois endemoninhados" e resume o diálogo com Jesus em poucas linhas, sem nomear nenhum dos dois nem contar sua história prévia.
Essa diferença é um exemplo clássico do que os estudiosos chamam de "problema sinótico" — as pequenas discrepâncias de detalhe entre relatos paralelos dos evangelhos, que intérpretes cristãos têm discutido desde a Antiguidade. Já Agostinho de Hipona, em "De Consensu Evangelistarum" (c. 400 d.C.), tratou de casos semelhantes, argumentando que um evangelista falar de um só indivíduo não nega a existência de outro; ele simplesmente concentra a narrativa na figura mais notável ou mais relevante para o propósito do seu relato. Essa é ainda a explicação mais aceita entre comentaristas: Marcos e Lucas, escrevendo de forma mais narrativa e pastoral, focam no homem mais atormentado — aquele cuja possessão era pública e extrema, o que também poderia ser o coadjuvante da amizade da comunidade local com aquele homem, se o houvesse — enquanto Mateus, cujo evangelho é conhecido por comprimir e resumir eventos (compare-se, por exemplo, sua narrativa mais breve da cura do cego de Jericó, , contra o relato individualizado de ), preserva o dado numérico completo sem se deter na biografia de nenhum dos dois.
Não há, portanto, contradição lógica: dizer "um homem veio ao encontro de Jesus" não exclui que um segundo estivesse presente, apenas não o menciona. É a mesma lógica que usamos ao contar um evento em que várias pessoas participaram, mas focamos naquela cuja ação foi mais marcante para a história que queremos contar. A "harmonização" desses relatos não é um artifício moderno para salvar a inerrância do texto; é uma leitura que reconhece que cada evangelista selecionou e organizou o material segundo seu propósito literário e teológico, prática comum na historiografia antiga.
Outro ponto de variação, ainda mais discutido pelos críticos textuais, é o nome do território: Marcos e Lucas nos manuscritos mais antigos falam da terra dos "gerasenos" (ligada à cidade de Gerasa) ou "gadarenos" (ligada a Gadara), enquanto Mateus, em muitos manuscritos, usa "gergesenos". Essas variantes refletem tanto diferenças geográficas reais na região (várias cidades disputavam proximidade com o lago) quanto ajustes de copistas ao longo da transmissão do texto — um fenômeno bem documentado na crítica textual do Novo Testamento, mas que não afeta a substância teológica do episódio.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Os evangelhos se contradizem sobre quantos endemoninhados Jesus curou em Gadara — um erro que mostraria falta de confiabilidade histórica no texto.
e dizem que "um homem" veio ao encontro de Jesus, mas nenhum dos dois afirma que havia apenas um. menciona dois. Um relato mencionar uma pessoa não é o mesmo que negar a existência de outra — é apenas uma escolha narrativa de foco, comum entre testemunhas independentes do mesmo evento.
Dizem que:A harmonização entre os relatos dos evangelhos é uma invenção moderna dos apologistas para "salvar" a Bíblia de contradições.
A prática de harmonizar relatos paralelos remonta pelo menos a Agostinho de Hipona no século V, que discutiu casos como esse em sua obra sobre a concordância dos evangelistas — mais de mil anos antes do debate moderno sobre inerrância bíblica.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Segue a leitura patrística clássica de Agostinho: Mateus não contradiz Marcos e Lucas, apenas menciona ambos os homens, enquanto os outros dois evangelistas destacam o mais notório para fins narrativos e pastorais.
Ortodoxa
Entende os quatro evangelhos como testemunhas complementares e inspiradas do mesmo evento, cujas ênfases distintas revelam facetas diferentes do mesmo milagre, sem que isso comprometa a unidade da tradição apostólica.
Protestante evangélica
Defende a harmonização histórica-literária: os relatos são compatíveis porque relatam o mesmo evento sob perspectivas seletivas, prática comum e aceita na historiografia antiga, preservando a inerrância do texto em seus termos originais.
Protestante histórico-crítica
Reconhece a divergência como resultado de fontes e tradições orais distintas usadas por cada evangelista, sem que isso enfraqueça o valor teológico do relato; a diferença é vista como parte natural do processo de composição literária dos evangelhos.
O que fazer com isso
Quando um relato bíblico parece "não bater" com outro, vale perguntar primeiro que pergunta cada autor estava respondendo, antes de presumir erro ou contradição. Marcos escreve para contar uma história vívida; Mateus, mais conciso, preserva o dado numérico. Ler os quatro evangelhos como testemunhas complementares, cada uma com sua ênfase, evita tanto a harmonização forçada quanto a desconfiança precipitada do texto.
Fontes consultadas3 obras
- Agostinho de Hipona. De Consensu Evangelistarum, 400.
- Craig S. Keener. The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary, 2009.
- R.T. France. The Gospel of Mark (New International Greek Testament Commentary), 2002.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Marcos e Mateus se contradizem sobre quantos endemoninhados Jesus curou?
Não é uma contradição lógica: Marcos e Lucas descrevem um homem, mas nenhum dos dois diz que havia só um. Mateus, mais conciso, menciona dois. Dizer que um estava presente não nega que o outro também estivesse.
Por que Marcos e Lucas só falam de um homem, se havia dois?
Provavelmente porque um dos dois era o mais atormentado e o mais notável — aquele que vivia nos sepulcros, gritava e se ferira, conforme descrito em . Os evangelistas concentram a narrativa nele por seu impacto dramático e teológico, sem negar a existência do segundo.
Essa diferença compromete a confiabilidade dos evangelhos?
A maioria dos comentaristas cristãos, desde Agostinho de Hipona, entende que não. Cada evangelho é escrito com propósito e estilo próprios, e pequenas variações de detalhe — como quantas pessoas foram mencionadas — são normais em relatos independentes do mesmo evento, sem afetar a mensagem central do episódio.
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