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Significado Bíblico
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A parteira Salomé e o teste da virgindade de Maria

A parteira que testou a virgindade de Maria é verdade? Está na Bíblia?

Resposta curta

narra o cenário do nascimento de Jesus com extrema economia narrativa: um decreto de censo de César Augusto obriga José a viajar de Nazaré até Belém com Maria, sua noiva grávida, porque ele era descendente de Davi. O evangelho não menciona nenhuma testemunha durante o parto em si; o texto simplesmente registra que, chegando lá, "completaram-se os dias" para ela dar à luz, sem qualquer detalhe do processo.

O Protoevangelho de Tiago, texto cristão do século II que não entrou no Novo Testamento, preenche esse vazio narrativo com um episódio dramático: José busca uma parteira, que testemunha o parto de forma sobrenatural; uma segunda mulher, Salomé, duvida da virgindade de Maria depois do parto, tenta comprová-la com as próprias mãos e tem a mão ressecada por sua incredulidade, sendo curada só ao tocar o recém-nascido.

O que diz Protoevangelho de Tiago

Protoevangelho de Tiago 19-20

situa o nascimento de Jesus dentro da política do Império Romano: um "decreto de César Augusto" determina o recenseamento de toda a população, e Lucas associa esse censo ao governo de Quirino na Síria. Historiadores discutem há muito tempo os detalhes exatos dessa datação — não há consenso sobre um recenseamento romano que cobrisse toda a Judeia justamente nesse período com as características descritas, e estudiosos como Craig Evans e F. F. Bruce reconhecem essa dificuldade cronológica sem que isso comprometa o essencial da cena: José, "da casa e família de Davi", precisa se deslocar de Nazaré, na Galileia, até Belém, a "cidade de Davi", levando Maria, já grávida. O texto termina exatamente no momento em que "se completaram os dias" do parto — e para por aí, sem descrever o nascimento em si, que só aparece resumido no versículo seguinte (fora do recorte aqui tratado).

É exatamente nesse silêncio que entra o Protoevangelho de Tiago (também chamado Natividade de Maria), um texto cristão de autoria desconhecida, atribuído pseudonimamente a Tiago, "irmão do Senhor". A maioria dos estudiosos, como Ronald Hock e J. K. Elliott, situa sua composição em algum momento da segunda metade do século II, escrito originalmente em grego. Não é um relato de testemunha ocular nem pretende concorrer com os evangelhos canônicos: é antes uma obra devocional, voltada a exaltar a santidade de Maria — sua concepção milagrosa, sua infância dedicada ao templo e, no trecho que interessa aqui (capítulos 17 a 20), os detalhes do parto em Belém, incluindo a busca de José por uma parteira e o episódio de Salomé. O texto circulou de forma muito popular no Oriente cristão, moldando hinos, ícones e festas marianas, mas foi listado como apócrifo no chamado Decreto Gelasiano, documento ocidental antigo cuja autoria e datação exatas os pesquisadores ainda debatem. Ele nunca integrou o cânon de nenhuma grande tradição cristã.

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O que diz a Bíblia

E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo a terra se registrasse. (Esse primeiro censo foi feito quando Quirino era o governador da Síria.) E todos foram se registrar, cada um à sua própria cidade. E José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré à Judeia, à cidade de Davi, que se chama Belém; (porque ele era da casa e família de Davi.) Para se registrar com Maria, sua mulher, com ele prometida em casamento, que estava grávida. E aconteceu que, enquanto eles ali, completaram-se os dias em que ela havia de dar à luz.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Ambos os textos concordam que um censo/recenseamento ordenado por Augusto foi o motivo da viagem de José e Maria a Belém (Lucas 2:1-5; Protoevangelho de Tiago 17).
  • Ambos situam o nascimento em Belém, cidade associada a José por sua descendência davídica, enquanto a família ainda estava em trânsito, longe de casa.
  • Ambos concordam que Maria já estava visivelmente grávida e prestes a dar à luz no momento da chegada a Belém.
  • Nenhum dos dois textos apresenta Maria dando à luz dentro de uma casa normal: Lucas menciona uma manjedoura por falta de lugar na hospedaria (Lucas 2:7), e o Protoevangelho de Tiago concorda que o parto ocorreu fora de um ambiente doméstico comum.

Onde divergem

  • Lucas não menciona nenhuma testemunha do parto além do que se pode supor sobre José; o Protoevangelho de Tiago introduz duas parteiras, uma sem nome e Salomé, presentes especificamente para testemunhar e verificar o nascimento.
  • Lucas localiza o nascimento numa manjedoura, sugerindo abrigo de animais associado a uma hospedaria (Lucas 2:7); o Protoevangelho de Tiago é explícito ao dizer que o parto aconteceu dentro de uma caverna que José encontrou no caminho, antes mesmo de chegar à cidade.
  • Lucas não levanta nenhuma questão sobre a integridade física de Maria depois do parto; o Protoevangelho de Tiago introduz um teste físico deliberado feito por Salomé, com consequência sobrenatural imediata (a mão ressecada) e uma cura igualmente sobrenatural ao tocar o menino.
  • Em Lucas, José é uma figura passiva no relato do nascimento em si; no Protoevangelho de Tiago, José tem um papel ativo, saindo em busca de uma parteira antes do parto.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • A personagem da parteira Salomé e todo o episódio de sua descrença e cura não aparecem em nenhum evangelho canônico.
  • O detalhe de que o nascimento ocorreu numa caverna, e não num estábulo ou anexo de hospedaria, vem do Protoevangelho de Tiago, não dos evangelhos.
  • A cena de suspensão do tempo e da natureza (pessoas, animais e o próprio movimento do céu parando) momentos antes do parto, narrada nos capítulos anteriores do Protoevangelho de Tiago, é inteiramente extrabíblica.
  • A formulação teológica posterior da virginitas in partu, embora inspirada em parte pela recepção deste episódio, é um desenvolvimento doutrinário de séculos posteriores, não uma afirmação do texto bíblico em si.
Em palavras simples

A Bíblia conta que Maria e José viajaram até Belém por causa de um recenseamento, e que lá nasceu Jesus — mas não explica como foi o parto nem diz quem estava presente. Um livro antigo, escrito bem depois dos evangelhos e que nunca fez parte da Bíblia, inventou uma cena a mais para preencher essa lacuna: José teria chamado uma parteira, e uma segunda mulher, Salomé, duvidou que Maria continuava virgem depois de dar à luz. Ao tentar comprovar isso com a própria mão, a mão dela teria secado na hora, curando só quando tocou o bebê.

Aprofundamento

A comparação entre os dois textos revela algo comum na literatura cristã antiga: quando um evangelho canônico é lacônico sobre um momento carregado de significado espiritual, comunidades posteriores tendem a produzir narrativas que preenchem esse espaço com detalhes edificantes. é propositalmente contido — o evangelista está interessado em ligar o nascimento de Jesus à profecia messiânica associada a Belém e à linhagem davídica de José, não em descrever fisiologicamente o parto. O Protoevangelho de Tiago, escrito para um público que já tinha ouvido as histórias sobre Jesus e queria saber mais sobre Maria, resolve essa lacuna com uma cena de comprovação: a parteira sem nome que primeiro testemunha o parto e proclama publicamente o milagre, e Salomé, que exige prova física antes de acreditar.

Estudiosos da recepção do texto, como Stephen J. Shoemaker, observam que esse episódio de Salomé funciona de modo semelhante ao relato de Tomé no Evangelho de João (20:24-29): a personagem representa a voz do ceticismo razoável, que só se convence pelo contato direto, e é repreendida — no caso de Salomé, com uma mão ressecada — antes de ser restaurada pela fé. A diferença é que, enquanto o episódio de Tomé está dentro do cânon e serve à teologia da fé cristã diante da ressurreição, o de Salomé nunca teve esse status; ele alimentou, sim, uma tradição paralela riquíssima na arte cristã oriental, em que os ícones da Natividade tradicionalmente incluem duas parteiras banhando o menino Jesus num canto da composição — uma convenção visual que remonta diretamente a esse texto apócrifo, não aos evangelhos.

Esse episódio também alimentou, ao longo dos séculos, uma discussão teológica mais ampla sobre a natureza física do parto de Maria, chamada por teólogos posteriores de "virginitas in partu" (virgindade durante o próprio ato do parto, não apenas antes e depois dele). Autores como Jerônimo, já no século IV, defenderam essa ideia com base numa leitura teológica da perpetuidade da virgindade mariana, ainda que sem citar diretamente o Protoevangelho como autoridade de Escritura. É importante notar que essa doutrina tem histórias de recepção bem diferentes nas tradições cristãs, algo que este verbete detalha adiante — o ponto aqui é apenas registrar que uma cena de um texto não canônico ajudou a moldar, historicamente, um debate teológico que ainda hoje divide interpretações cristãs, sem que isso implique julgar qual delas está certa.

Vale notar também que a erudição histórico-crítica trata o Protoevangelho de Tiago como um documento valioso por outro motivo: ele revela como comunidades cristãs do século II já discutiam, com seriedade devocional, questões sobre a família de Jesus, o papel de Maria e os limites entre relato histórico e narrativa edificante — um debate que, de certa forma, continua presente sempre que alguém pergunta o que, exatamente, "está" ou "não está" na Bíblia.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:A parteira Salomé que aparece nessa história é a mesma Salomé que dançou diante de Herodes ou a mãe dos apóstolos Tiago e João.

    São três figuras diferentes que compartilham apenas o nome, comum na época. A Salomé do Protoevangelho de Tiago é uma personagem exclusiva desse texto do século II; ela não é identificada ali com nenhuma outra Salomé mencionada nos evangelhos canônicos.

  • Dizem que:A cena da parteira e da mão ressecada de Salomé está descrita, mesmo que resumidamente, em algum lugar da Bíblia.

    Nenhum dos quatro evangelhos menciona parteiras, testemunhas do parto ou qualquer teste físico da virgindade de Maria. encerra a cena com a chegada a Belém e retoma só depois do nascimento, sem esse episódio; ele vem inteiramente do Protoevangelho de Tiago, texto que nunca fez parte do Novo Testamento.

Como diferentes tradições leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Catolicismo

    O episódio de Salomé é lido como uma expressão devocional antiga, embora não canônica, de uma verdade que a tradição e o magistério da Igreja afirmam por outras vias: a virgindade perpétua de Maria, incluindo a integridade física durante o próprio parto (virginitas in partu). O texto não é tratado como prova histórica, mas como testemunho de que essa crença já circulava e era celebrada entre os cristãos desde muito cedo.

  • Ortodoxia Oriental

    A tradição bizantina incorporou boa parte da narrativa do Protoevangelho de Tiago à sua liturgia, hinografia e iconografia — inclusive a cena das duas parteiras, presente até hoje na maioria dos ícones tradicionais da Natividade. Para essa tradição, o valor do texto está em sua recepção espiritual contínua na vida da Igreja, e não depende de estar incluído no cânon das Escrituras para ser honrado como Sagrada Tradição.

  • Protestantismo

    Tradições protestantes, de modo geral, afirmam o nascimento virginal com base em e , mas não reconhecem a virginitas in partu como doutrina necessária, nem tratam o episódio de Salomé como algo além de uma lenda edificante posterior. O silêncio de Lucas é visto como suficiente: o evangelho não precisa de um teste físico narrado para que a afirmação da concepção virginal seja considerada verdadeira.

O que fazer com isso

Saber dessa diferença ajuda a responder com precisão quando alguém cita a "parteira Salomé" como se fosse parte da Bíblia: não é. Lucas escolheu não detalhar o parto porque seu interesse era outro — ligar Jesus a Belém e à linhagem de Davi. Reconhecer essa lacuna narrativa, e como ela foi preenchida séculos depois por devoção popular, evita tanto rejeitar o interesse histórico do Protoevangelho quanto confundi-lo com relato bíblico.

Fontes consultadas4 obras
  • Ronald F. Hock. The Infancy Gospels of James and Thomas, 1995.
  • J. K. Elliott. The Apocryphal New Testament, 1993.
  • Bart D. Ehrman. Lost Scriptures: Books that Did Not Make It into the New Testament, 2003.
  • Stephen J. Shoemaker. Mary in Early Christian Faith and Devotion, 2016.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

A parteira Salomé é um personagem bíblico?

Não. Ela aparece apenas no Protoevangelho de Tiago, texto cristão do século II que nunca entrou no Novo Testamento. Os evangelhos canônicos não mencionam nenhuma parteira presente no nascimento de Jesus.

Por que Lucas não conta detalhes do parto de Jesus?

Porque o interesse do evangelista era outro: ligar o nascimento de Jesus à profecia messiânica de Belém e à linhagem de Davi, através do censo que levou José e Maria até lá. Detalhes do parto em si simplesmente não faziam parte do que ele queria registrar.

O Protoevangelho de Tiago é considerado herético?

Não é herético; é apócrifo, ou seja, ficou fora do cânon do Novo Testamento nas grandes tradições cristãs. Isso não significa que seu conteúdo tenha sido condenado como falso — significa apenas que não foi reconhecido como Escritura inspirada.

A história da mão ressecada de Salomé influenciou a arte cristã?

Sim, bastante. Ícones tradicionais da Natividade, especialmente na tradição bizantina e ortodoxa, costumam incluir duas parteiras banhando o menino Jesus, uma referência direta a essa cena do Protoevangelho de Tiago.

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Publicado em 23/08/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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