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Significado Bíblico
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"A farei macho": o dito mais controverso do Evangelho de Tomé sobre Maria e as mulheres

Evangelho de Tomé diz que a mulher precisa virar homem para entrar no céu?

Resposta curta

Em , Paulo diz que, pela fé e pelo batismo em Cristo, os crentes se "revestem" dele e se tornam um só grupo, sem distinção entre judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher — todos herdeiros da promessa feita a Abraão. É um dos textos mais citados quando se fala em igualdade dentro da igreja mais antiga.

Já o dito 114 do Evangelho de Tomé, um texto do século 2 encontrado em Nag Hammadi, narra Pedro pedindo que Maria seja afastada do grupo porque mulheres "não são dignas da Vida"; Jesus responde que vai fazê-la "macho" para que ela também entre no Reino. A comparação expõe duas lógicas diferentes sobre gênero: uma de igualdade recíproca, outra de transformação de um lado só, rumo a um ideal masculino de perfeição.

O que diz Evangelho de Tomé

Evangelho de Tomé, dito 114

Gálatas foi escrita por Paulo, provavelmente entre 48 e 55 d.C., para igrejas da região da Galácia (atual Turquia central) em meio a uma disputa concreta: pregadores estavam ensinando que cristãos não judeus precisavam se circuncidar e seguir a lei mosaica para pertencer plenamente ao povo de Deus. No capítulo 3, Paulo argumenta o contrário, usando o próprio Abraão: a promessa feita a ele foi recebida pela fé, não pela lei, e essa mesma fé — selada no batismo — é o que agora une judeus e gentios, homens e mulheres, livres e escravos numa só família de herdeiros (3:26-29).

O Evangelho de Tomé pertence a um universo bem diferente. É uma coleção de 114 ditos atribuídos a Jesus, sem relatos de nascimento, milagres ou ressurreição, preservada por completo apenas num manuscrito copta encontrado em 1945 entre os códices de Nag Hammadi, no Alto Egito. Fragmentos gregos do mesmo texto, achados décadas antes em Oxirrinco, já circulavam por volta do ano 200, o que indica uma composição grega anterior ao manuscrito copta — a maioria dos estudiosos situa alguma forma do texto no século 2, embora haja debate sobre se um núcleo de ditos seja ainda mais antigo. O texto é atribuído a "Dídimo Judas Tomé", nome que já sinaliza pseudonímia: "Dídimo" e "Tomé" significam "gêmeo" em grego e aramaico, ecoando uma tradição do cristianismo sírio sobre um Tomé "irmão gêmeo" de Jesus.

O dito 114, último da coleção, é um dos mais comentados do texto porque toca diretamente numa questão sensível: o valor da mulher diante de Deus. A maior parte dos estudiosos também associa o Evangelho de Tomé, com reservas, a círculos de pensamento cristão que hoje chamamos de gnósticos ou próximos deles, embora essa classificação continue sendo debatida, já que boa parte dos ditos não trata de temas tipicamente gnósticos. Colocado ao lado de , o dito 114 permite ver, com precisão histórica, como dois textos do primeiro cristianismo — um dentro do Novo Testamento, outro fora dele — trataram de forma bem diferente a mesma pergunta sobre gênero e inclusão.

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O que diz a Bíblia

pois todos vós sois filhos de Deus por meio da fé em Cristo Jesus; pois todos vós que fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Assim, não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea. Pois todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se vós sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Os dois textos usam a mesma dupla de palavras da criação em Gênesis 1:27 ("macho e fêmea") para falar do que acontece com a diferença de gênero na experiência de salvação ou entrada no Reino.
  • Ambos ligam a superação das categorias de gênero ao ato de "entrar" em algo — Paulo fala em ser batizado e "revestir-se" de Cristo (Gl 3:27), o dito 114 fala em "entrar no Reino dos Céus" — sugerindo que os dois textos ecoam uma reflexão cristã primitiva sobre o que muda no batismo ou na conversão.
  • O historiador Wayne Meeks já notou que tanto Gálatas 3:28 quanto a ideia de "fazer do macho e da fêmea um só" do dito 22 de Tomé parecem se apoiar num mesmo pano de fundo judaico-helenístico sobre um retorno à unidade original do ser humano descrita em Gênesis.

Onde divergem

  • Em Gálatas 3:28, a fórmula "não há mais macho nem fêmea" é recíproca e simétrica — nenhum dos lados precisa se tornar o outro; no dito 114, apenas a mulher (Maria) precisa ser transformada "em macho", o que preserva a masculinidade como padrão de perfeição espiritual.
  • Gálatas 3:26-29 não contém nenhum movimento de exclusão: o texto começa afirmando que "todos" são filhos de Deus pela fé. O dito 114 abre com Pedro tentando expulsar Maria do grupo dos discípulos por ela ser mulher — um conflito ausente do texto paulino.
  • Paulo insere a afirmação sobre gênero dentro de um argumento jurídico sobre herança da promessa feita a Abraão, que ocupa todo o capítulo 3; o dito 114 é uma sentença isolada, o último de 114 ditos soltos, sem argumento teológico que a sustente no restante do texto.
  • Gálatas é uma carta com autoria e data razoavelmente seguras (Paulo, provavelmente entre 48 e 55 d.C.); o Evangelho de Tomé sobrevive num manuscrito copta de meados do século 4, traduzido de um original grego que a maioria dos estudiosos situa no século 2, e não foi escrito pelo apóstolo Tomé, apesar do nome no título.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • O Evangelho de Tomé foi encontrado em 1945 entre os manuscritos de Nag Hammadi, no Egito, dentro de um códice copta que reúne 114 ditos atribuídos a Jesus, sem relato de nascimento, milagres, morte ou ressurreição.
  • O título completo do texto o atribui a "Dídimo Judas Tomé" — "Dídimo" (grego) e "Tomé" (aramaico) significam ambos "gêmeo", refletindo uma tradição, forte no cristianismo sírio antigo, que via Tomé como irmão gêmeo de Jesus.
  • Fragmentos gregos do mesmo texto (os Papiros de Oxirrinco 1, 654 e 655) já circulavam por volta do ano 200, mostrando que alguma forma do Evangelho de Tomé é anterior ao manuscrito copta completo, embora sua composição original também seja debatida entre os estudiosos.
  • O dito 22 do mesmo evangelho já preparava o tema do dito 114 ao falar em "fazer do macho e da fêmea um só", para que "o macho não seja macho nem a fêmea seja fêmea" — sugerindo que superar o gênero é um fio condutor da coleção, não um dito isolado.
  • A maioria dos estudiosos identifica a Maria do dito 114 como Maria Madalena, que aparece em papel de destaque em outro dito do próprio Tomé (dito 21) e em outros textos não canônicos, como o Evangelho de Maria, também retratada em tensão com Pedro.
Em palavras simples

A carta de Paulo aos Gálatas diz que, em Cristo, não importa se a pessoa é homem ou mulher, judeu ou estrangeiro, escravo ou livre: todos têm o mesmo valor e a mesma herança diante de Deus. Já um texto antigo que não faz parte da Bíblia, o Evangelho de Tomé, conta uma cena em que Pedro quer expulsar do grupo uma mulher chamada Maria, e Jesus diz que vai transformá-la em homem para que ela possa entrar no Reino. São duas ideias bem diferentes sobre o valor da mulher.

Aprofundamento

A frase "torná-la macho" do dito 114 intriga estudiosos há décadas. Uma leitura, defendida por parte da erudição (como aponta April DeConick em seus estudos sobre Tomé), toma a expressão de forma mais literal: ecoa ideias helenístico-judaicas — presentes também em Fílon de Alexandria — que tratavam o masculino como símbolo do espírito e da perfeição racional, e o feminino como símbolo da matéria e da paixão a ser superada. Nessa chave, "tornar-se macho" seria alcançar completude espiritual, não virar homem no sentido físico. Outra leitura, discutida por Marvin Meyer e Elaine Pagels, liga o dito 114 ao dito 22 do próprio Tomé, que fala em fazer "do macho e da fêmea um só, para que o macho não seja macho nem a fêmea seja fêmea" — um retorno à unidade original do ser humano de , antes da diferenciação dos sexos. Mesmo nessas leituras mais simbólicas, porém, o padrão de perfeição continua sendo nomeado como masculino, e é isso que atrai a maior parte das críticas ao dito.

Vale notar que a cena de abertura — Pedro pedindo a exclusão de Maria porque "mulheres não são dignas da Vida" — não é exclusiva de Tomé. Um conflito parecido entre Pedro e uma discípula chamada Maria (provavelmente Madalena, que também aparece com destaque no dito 21 de Tomé) surge em outros textos não canônicos, como o Evangelho de Maria e a Pistis Sophia. A historiadora Ann Graham Brock reuniu essas cenas para argumentar que refletem disputas reais, em alguns círculos do segundo e terceiro século, sobre a autoridade de mulheres na liderança de comunidades cristãs.

nasce de uma discussão totalmente diferente. Paulo não está comentando quem lidera o quê; está descrevendo o efeito do batismo sobre o status de herdeiro da promessa abraâmica, dentro de um argumento jurídico sobre lei e fé que ocupa todo o capítulo 3. A fórmula "não há mais judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea" é simétrica: nenhuma das partes é chamada a virar a outra, e as três duplas (etnia, condição social, sexo) recebem o mesmo tratamento igualitário. O historiador Wayne Meeks já observou que pode ecoar, como Tomé, uma reflexão cristã primitiva sobre o retorno à unidade de — mas Paulo a emprega para afirmar igualdade de acesso à herança, não uma hierarquia de gênero a ser corrigida ou uma transformação que uma das partes precisa sofrer para ser aceita.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O Evangelho de Tomé foi escrito pelo apóstolo Tomé, então merece o mesmo peso histórico dos evangelhos canônicos.

    O nome no título segue o costume antigo de atribuir escritos a uma autoridade reconhecida; a maioria dos estudiosos data o texto grego do século 2 e o manuscrito copta sobrevivente de cerca de 340 d.C., séculos depois da vida do apóstolo, sem evidência de autoria direta dele.

  • Dizem que:O dito 114 prova que os primeiros cristãos, incluindo Paulo, achavam que a mulher era um homem incompleto.

    Essa ideia aparece num único texto não canônico do século 2, ligado a um pano de fundo filosófico específico. , escrito décadas antes por Paulo, não pede transformação de nenhum dos sexos e trata homem e mulher como igualmente herdeiros — o oposto do que o mito generaliza.

  • Dizem que:Como o dito 114 termina incluindo Maria, o texto é uma defesa clara das mulheres na liderança cristã.

    A inclusão é condicionada a Maria deixar de ser mulher espiritualmente, o que estudiosos como April DeConick e Elaine Pagels leem como reforço, e não superação, da ideia de que o feminino é uma condição deficiente diante do ideal masculino de perfeição.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Evangélica complementarista

    fala do status espiritual igual de todo crente diante de Deus — mesma salvação, mesma herança —, sem eliminar a distinção de papéis entre homem e mulher na família e na liderança da igreja, que essa tradição entende reguladas em outras passagens do Novo Testamento.

  • Evangélica igualitária

    A mesma frase é lida como tendo implicações também para a prática: se em Cristo não há mais macho nem fêmea quanto ao acesso à promessa, isso sustenta que homens e mulheres podem exercer os mesmos ministérios e funções de liderança na igreja.

  • Católica

    é associada à imagem batismal de "revestir-se de Cristo": todo batizado recebe a mesma dignidade e o mesmo destino diante de Deus, o que a tradição distingue da organização do sacerdócio ministerial, mantida por razões próprias de outra ordem — sacramental, não de valor da pessoa.

  • Ortodoxa

    A ênfase recai sobre a igual capacidade de todo batizado, independente de sexo, condição social ou origem, de participar da vida em Cristo e da theosis (comunhão com Deus), preservando ao mesmo tempo distinções de função litúrgica dentro da vida da igreja.

O que fazer com isso

Ler os dois textos lado a lado ajuda a responder com precisão quando alguém cita o dito 114 como se fosse equivalente — ou pior, mais autêntico — ao ensino bíblico sobre gênero. Permite mostrar, com dados e não com defesa emocional, que fala de igualdade recíproca de herdeiros, enquanto o dito de Tomé pede transformação de um lado só rumo a um ideal masculino — duas lógicas diferentes, cada uma com sua própria história.

Fontes consultadas6 obras
  • April D. DeConick. The Original Gospel of Thomas in Translation, 2006.
  • Elaine Pagels. Beyond Belief: The Secret Gospel of Thomas, 2003.
  • Marvin Meyer. The Gnostic Discoveries: The Impact of the Nag Hammadi Library, 2005.
  • Bart D. Ehrman. Lost Scriptures: Books that Did Not Make It into the New Testament, 2003.
  • Wayne A. Meeks. The Image of the Androgyne: Some Uses of a Symbol in Earliest Christianity, 1974.
  • Ann Graham Brock. Mary Magdalene, The First Apostle: The Struggle for Authority, 2003.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Evangelho de Tomé é uma versão alternativa dos quatro evangelhos da Bíblia?

Não exatamente. Ele não conta uma história de vida de Jesus — não há nascimento, milagres, morte ou ressurreição. É uma lista de 114 ditos curtos atribuídos a Jesus, um gênero literário diferente do de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Quem é a Maria do dito 114?

A maioria dos estudiosos identifica essa Maria como Maria Madalena, que já aparece em papel de destaque no dito 21 do mesmo texto e também protagoniza cenas de tensão com Pedro em outros escritos não canônicos, como o Evangelho de Maria.

Paulo achava que homem e mulher deixavam de existir em Cristo?

Não. "Não há mais macho nem fêmea" descreve igualdade de acesso à salvação e à herança da promessa, não o apagamento das pessoas como homens ou mulheres. Diferentes tradições cristãs hoje divergem sobre o que essa igualdade implica na prática da igreja.

Por que o dito 114 é tão criticado?

Porque a solução que ele apresenta para incluir Maria — transformá-la "em macho" — trata o feminino como uma condição a ser superada, algo que soa, e para muitos estudiosos é, desigual, em contraste com a linguagem recíproca e simétrica de .

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Publicado em 23/08/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 6 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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