O costume de soltar um preso na Páscoa era real?
Existia mesmo essa lei romana de soltar um prisioneiro na Páscoa que aparece na história de Barrabás?
Resposta curta
fala de um "costume" de Pilatos soltar, na festa, um preso pedido pela multidão. Nenhuma lei romana geral, válida para todo o império ou mesmo só para a Judeia, documenta uma anistia periódica assim, e isso levanta uma pergunta legítima: os evangelhos inventaram esse costume ou ele reflete algo que realmente acontecia?
O historiador judeu Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas, Livro 20, registra dois episódios em que o procurador Albino, governador da Judeia entre 62 e 64 d.C., libertou prisioneiros por conveniência política — um deles atendendo a um pedido direto do sumo sacerdote Ananias. Os casos não são o mesmo evento nem a mesma prática de Marcos, mas mostram que ceder a pedidos e soltar presos por interesse próprio era algo que procuradores romanos na região realmente faziam.
O que diz Flávio Josefo
Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro 20
O relato de diz que Pilatos "na festa lhes soltava um preso, qualquer um que pedissem" (v. 6), e a multidão pede a libertação de Barrabás em vez de Jesus. e repetem a mesma informação, cada um chamando isso de "costume". Nenhum dos três evangelhos afirma que se tratava de uma lei escrita do império romano; a palavra usada aponta para um hábito local, algo que se fazia por tradição, não por estatuto.
Esse detalhe intriga historiadores porque não sobrevive nenhum documento romano — nem um édito, nem uma lei, nem uma menção em historiadores romanos como Tácito ou Suetônio — que descreva uma anistia oficial e periódica de prisioneiros em festas religiosas provinciais. Isso não significa que o costume seja invenção: o governo romano nas províncias funcionava, em grande parte, por meio do "imperium" pessoal do governador, que tinha ampla liberdade para conceder clemência caso a caso, sobretudo quando isso ajudava a manter a ordem pública em datas de grande movimento de multidões, como era a Páscoa em Jerusalém.
É nesse ponto que entra Flávio Josefo (c. 37-100 d.C.), historiador judeu que serviu como oficial na Judeia antes da guerra contra Roma e depois escreveu, em grego, sob patrocínio romano, duas grandes obras: "Guerra dos Judeus" e "Antiguidades Judaicas" (concluída por volta de 93-94 d.C.). No Livro 20 de Antiguidades, ele narra a administração de procuradores romanos que governaram a Judeia poucas décadas depois de Pilatos, entre eles Albino (procurador de 62 a 64 d.C.). Josefo relata que Albino libertou prisioneiros em mais de uma ocasião: uma vez atendendo a um pedido do sumo sacerdote Ananias, outra vez por dinheiro, ao final de seu mandato. Nenhum dos dois episódios acontece na Páscoa nem é apresentado como uma prática anual fixa — mas ambos mostram governadores romanos da mesma província, décadas depois de Pilatos, exercendo esse tipo de poder discricionário sobre prisioneiros por pressão externa ou conveniência própria.
O que diz a Bíblia
Na festa, Pilatos lhes soltava um preso, qualquer um que pedissem. E havia um chamado Barrabás, preso com outros revoltosos, que numa rebelião havia cometido uma morte. E a multidão, gritando, começou a pedir, como sempre lhes havia feito. E Pilatos lhes respondeu: Quereis que eu vos solte o Rei dos Judeus? (Porque ele sabia que os chefes dos sacerdotes haviam o entregue por inveja). Mas os chefes dos sacerdotes incitaram a multidão, para que, em vez disso, lhes soltasse Barrabás. E Pilatos, respondendo, disse-lhes outra vez: Que, pois, quereis que eu faça com aquele a quem chamais Rei dos Judeus? E eles voltaram a clamar: Crucifica-o! Mas Pilatos lhes disse: Por quê? Que mal ele fez? E eles gritavam ainda mais: Crucifica-o! Então Pilatos, querendo satisfazer à multidão, soltou-lhes Barrabás; e entregou Jesus açoitado, para que fosse crucificado.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Ambos os contextos envolvem um governador romano da mesma província (a Judeia) exercendo poder pessoal e discricionário para libertar prisioneiros, sem que uma lei escrita obrigue esse gesto.
- Em ambos os casos há pressão externa levando à libertação: em Marcos, a multidão reunida na festa; em Antiguidades 20.208-210, o pedido direto do sumo sacerdote Ananias a Albino.
- Em ambos os casos o governador usa a libertação de presos como forma de administrar a relação com a população local ou com lideranças judaicas, um padrão de conduta política característico dos procuradores romanos na região.
Onde divergem
- Os episódios de Josefo envolvem o procurador Albino (62-64 d.C.), quase trinta anos depois do mandato de Pilatos (26-36 d.C.) — não é o mesmo governador nem a mesma década.
- Nenhum dos dois episódios de Josefo está ligado à festa da Páscoa ou a qualquer celebração religiosa; um decorre de uma negociação de reféns, o outro do fim do mandato de Albino.
- Em Antiguidades 20.215, os presos libertados por Albino pagaram (por meio de parentes) para conseguir a soltura — um elemento de suborno ausente do relato de Marcos, onde a libertação é apresentada como concessão gratuita à multidão.
- Josefo não descreve nenhuma prática anual ou repetida de soltura de presos; os dois casos que ele narra são eventos isolados e específicos, não uma instituição fixa como o "costume" mencionado por Marcos.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- O episódio do sequestro do secretário do capitão do Templo por Eleazar, filho de Ananias, e a troca por dez prisioneiros sicários (Antiguidades 20.208-210) — um capítulo da crescente violência política na Judeia às vésperas da guerra judaico-romana, sem qualquer paralelo nos evangelhos.
- O relato de que Albino, ao saber que seria substituído por Géssio Floro, executou presos condenáveis e libertou outros mediante pagamento, esvaziando as prisões e agravando a criminalidade no campo (Antiguidades 20.215) — um retrato da corrupção administrativa romana tardia na Judeia que os evangelhos não abordam.
- A caracterização geral que Josefo faz da administração de Albino como um período de deterioração da ordem pública na Judeia, antecedendo diretamente a revolta judaica de 66 d.C. — pano de fundo histórico ausente do Novo Testamento.
Em palavras simples
A Bíblia diz que Pilatos tinha o costume de soltar um preso na Páscoa, a pedido do povo. Não existe nenhuma lei romana escrita que comprove essa regra. Mas o historiador judeu Josefo conta que, anos depois, outro governador romano da Judeia, chamado Albino, também soltou presos por pressão de líderes judeus e por interesse político. Não é o mesmo caso do evangelho, mas mostra que esse tipo de gesto de governadores romanos na região era real, mesmo sem ser uma lei fixa.
Aprofundamento
Josefo descreve dois episódios distintos em Antiguidades Judaicas, Livro 20, ambos envolvendo o procurador Albino, que administrou a Judeia entre 62 e 64 d.C. — quase três décadas depois de Pôncio Pilatos (26-36 d.C.).
O primeiro (Antiguidades 20.208-210) ocorre quando Eleazar, filho do ex-sumo sacerdote Ananias, sequestra o secretário do capitão do Templo e o mantém refém, exigindo em troca a libertação de dez sicários (um grupo de resistentes judeus radicais) que Albino havia capturado. Ananias intercede junto a Albino, e o procurador atende ao pedido, soltando os dez prisioneiros para garantir a liberação do refém. É um caso de negociação e petição direta a um governador romano da Judeia resultando na soltura de presos — mas se trata de uma troca de reféns por motivos de segurança, não de um gesto para agradar a multidão numa festa.
O segundo episódio (Antiguidades 20.215) é mais parecido, em espírito, com o que Marcos descreve. Quando Albino soube que Géssio Floro viria substituí-lo, quis deixar boa impressão entre os habitantes de Jerusalém antes de partir. Josefo conta que ele mandou executar os presos que considerava claramente culpados de crimes graves, mas libertou, mediante pagamento de seus parentes, aqueles detidos por acusações menores — o que, segundo o próprio Josefo, esvaziou as prisões e lançou muitos criminosos de volta às ruas. Aqui há um paralelo real com Marcos: um governador romano da Judeia libertando presos por cálculo político, buscando a boa vontade da população antes de um momento delicado — só que motivado por corrupção e proximidade do fim do mandato, não por um costume de festa.
Nenhum dos dois casos de Josefo é idêntico ao que Marcos descreve: não há festa envolvida, não há uma "regra" repetida todo ano, e o gesto de Albino em 20.215 foi negociado com dinheiro, não concedido de graça a pedido espontâneo da multidão. Também é importante notar que Josefo, tão minucioso ao narrar a administração romana da Judeia, nunca menciona explicitamente um costume de soltura de presos na Páscoa — nem para confirmá-lo, nem para negá-lo; ele simplesmente não fala sobre esse assunto específico.
O valor histórico da comparação, portanto, não está em provar que o "costume" de Marcos existiu exatamente como descrito, mas em mostrar que o tipo de gesto que os evangelhos atribuem a Pilatos — um governador romano da Judeia cedendo a pressão popular ou política para libertar um prisioneiro fora dos trâmites formais — está dentro do padrão real de comportamento desses procuradores na mesma província, algo que Josefo documenta em mais de uma ocasião, décadas depois.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Havia uma lei romana oficial, válida em toda a Judeia ou em todo o império, obrigando os governadores a soltar um prisioneiro por ocasião de festas religiosas.
Não existe nenhum édito, lei ou registro administrativo romano com esse teor. Nem os evangelhos afirmam isso — eles falam em "costume", termo que designa hábito local, não estatuto formal. Josefo, apesar de narrar detalhadamente a administração romana da Judeia, também nunca menciona tal lei.
Dizem que:Josefo descreve o mesmo costume de soltar presos na Páscoa mencionado nos evangelhos.
Os dois episódios que Josefo narra em Antiguidades Judaicas 20 envolvem o procurador Albino, décadas depois de Pilatos, não estão ligados à Páscoa, e um deles envolveu pagamento de dinheiro pelos familiares dos presos — uma dinâmica bem diferente de um gesto anual gratuito por ocasião da festa.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Aceita Flávio Josefo como fonte histórica valiosa para iluminar o pano de fundo político dos evangelhos, sem lhe atribuir qualquer autoridade inspirada; vê nos episódios de Albino um indício cultural que ajuda a situar a plausibilidade do gesto de Pilatos, sem tratá-lo como prova.
Protestante evangélica
Costuma sublinhar que a ausência de uma lei romana documentada não fragiliza a confiabilidade histórica de Marcos, já que evangelhos e Josefo cobrem governadores e décadas diferentes; usa o paralelo para reforçar que o tipo de gesto descrito era culturalmente verossímil na Judeia romana.
Ortodoxa
Tende a situar esse episódio dentro do sentido litúrgico da Semana Santa e do mistério pascal, lendo a soltura de Barrabás sobretudo como parte do relato da Paixão, sem depender de corroboração documental externa para reconhecer seu peso teológico.
Histórico-crítica
Chama atenção para o fato de nenhum documento romano, incluindo Josefo, atestar diretamente uma anistia pascal fixa, e por isso trata esse detalhe do relato evangélico com mais cautela, como um costume local possivelmente informal ou de curta duração, e não uma instituição jurídica ampla.
O que fazer com isso
Ao ler comparações como essa, vale lembrar que a ausência de uma lei escrita não é o mesmo que a ausência de uma prática. Governadores romanos tinham margem pessoal considerável para conceder favores e clemências fora de qualquer código formal. Josefo mostra o tipo de gesto — não o mesmo evento — sendo praticado por outro procurador da mesma província décadas depois, o que ajuda a situar o relato bíblico dentro de comportamentos administrativos plausíveis da época, sem transformar essa semelhança em prova definitiva de nenhum lado do debate.
Fontes consultadas3 obras
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas, Livro 20, 94.
- Josef Blinzler. The Trial of Jesus, 1959.
- E. P. Sanders. The Historical Figure of Jesus, 1993.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Existe alguma lei romana escrita sobre soltar presos na Páscoa?
Não. Nenhum documento romano conhecido — édito, lei ou menção em historiadores como Tácito ou Suetônio — registra essa prática como lei oficial. Os evangelhos a chamam de "costume", um hábito local, não um estatuto.
Josefo confirma diretamente o costume de Marcos 15?
Não diretamente. Josefo nunca menciona um costume de soltura de presos na Páscoa em Jerusalém. O que ele registra, em Antiguidades Judaicas 20, são dois episódios distintos, décadas depois de Pilatos, em que outro procurador romano da Judeia, Albino, soltou prisioneiros por motivos políticos.
Qual é a relação entre os episódios de Albino e o caso de Barrabás?
Não é o mesmo evento. Mas ambos mostram governadores romanos da mesma província cedendo, por interesse próprio ou pressão externa, a pedidos de libertação de prisioneiros fora de qualquer lei formal — o que torna o gesto atribuído a Pilatos administrativamente plausível para a época.
Por que essa comparação importa para quem lê a Bíblia hoje?
Porque mostra como avaliar afirmações históricas dos evangelhos com equilíbrio: a falta de uma lei documentada não prova que o relato seja invenção, e um paralelo parcial em outra fonte não prova que ele seja exatamente verdadeiro como narrado. Ajuda a ler o texto com mais precisão histórica.
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