O bezerro de Samaria e as óstracas do palácio
As óstracas de Samaria provam o bezerro de ouro citado por Oseias?
Resposta curta
Em , o profeta condena o "bezerro de Samaria" — alusão ao culto ao bezerro de ouro instituído por Jeroboão I em Betel e Dã (1Reis 12:28-29) — como ídolo fabricado por mãos humanas que "será desfeito em pedaços", denúncia que mira o coração religioso da capital do Reino do Norte no século VIII a.C.
As Óstracas de Samaria, mais de cem fragmentos de cerâmica com inscrições em hebraico antigo achados nas ruínas do palácio real em 1910, não mencionam bezerro, ídolo ou culto algum: são recibos de remessas de vinho e azeite enviadas por aldeias vizinhas ao palácio. Datadas, na leitura mais aceita, do reinado de Jeroboão II, revelam a mesma Samaria em sua rotina burocrática — retrato que não confirma nem contradiz a acusação de Oseias, apenas ilumina outra camada da capital que o profeta denunciava.
O que diz Óstracas de Samaria
Óstracas de Samaria, registros administrativos do palácio
O livro de Oseias documenta a pregação de um profeta que atuou no Reino do Norte (Israel) durante décadas turbulentas do século VIII a.C., do reinado de Jeroboão II até os anos que precederam a queda de Samaria para a Assíria, em 722 a.C. Um dos alvos recorrentes de sua denúncia é o culto ao bezerro, herdado da decisão de Jeroboão I de erguer santuários com imagens de bezerro em Betel e Dã como alternativa ao templo de Jerusalém (1Reis 12:28-29). Em , o profeta chama esse objeto de culto de "teu bezerro" e prevê que ele "será desfeito em pedaços" — verbo que sublinha sua fragilidade material diante do Deus vivo que Oseias proclama.
Samaria, a cidade nomeada no oráculo, era a capital do Reino do Norte desde o reinado de Onri, no século IX a.C., construída num monte comprado por ele (1Reis 16:24). Em 1908-1910, uma expedição de Harvard liderada por George Andrew Reisner escavou o platô do antigo palácio real em Sebastia, o sítio da Samaria bíblica, e encontrou, num depósito perto das estruturas do palácio, mais de cem fragmentos de cerâmica com inscrições em tinta — as chamadas Óstracas de Samaria. Escritas em hebraico antigo, a variante paleo-hebraica do alfabeto fenício, cerca de 63 delas preservam texto legível.
O conteúdo é estritamente administrativo: cada óstraca registra o ano de um reinado (os números 9, 10, 15 e 17 aparecem), o nome de uma aldeia ou clã de origem, o destinatário no palácio e a mercadoria enviada, via de regra vinho velho ou azeite fino. A maioria dos estudiosos, com base na paleografia e nos anos de reinado citados, associa os textos ao reinado de Jeroboão II (c. 788-747 a.C.), o mesmo rei mencionado no cabeçalho de Oseias (), embora alguns pesquisadores prefiram uma data um pouco anterior. Não há, em nenhuma das óstracas legíveis, qualquer menção a ídolos, ao bezerro ou a práticas de culto — elas simplesmente documentam a engrenagem fiscal da capital que Oseias denunciava.
O que diz a Bíblia
O teu bezerro foi rejeitado, ó Samaria; minha ira está acesa contra eles; até quando não suportarão a pureza? Porque isso procede de Israel, um artífice o fez; isso não é Deus; por isso o bezerro de Samaria será desfeito em pedaços.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Ambos os textos situam-se na mesma cidade — Samaria, capital do Reino do Norte — e no mesmo período aproximado, o reinado de Jeroboão II (c. 788-747 a.C.), citado em Oseias 1:1 e sugerido pela paleografia e pelos anos de reinado registrados nas óstracas.
- A maioria dos nomes próprios nas óstracas traz o elemento teofórico javista, mas uma minoria traz o elemento 'Baal' (como em Abibaal e Baala), evidência material da mistura religiosa entre Javé e Baal que Oseias denuncia repetidamente no livro (Oseias 2:8; 13:1).
- As óstracas confirmam Samaria como um centro administrativo próspero, capaz de arrecadar e registrar vinho e azeite de aldeias do entorno — pano de fundo compatível com as denúncias de riqueza e prosperidade da elite de Samaria feitas por Oseias e por seu contemporâneo Amós (Amós 3:15; 6:4-6).
Onde divergem
- Nenhuma óstraca legível menciona ídolos, bezerros, santuários ou qualquer prática religiosa — o conteúdo é inteiramente fiscal, o que significa que elas não corroboram nem contradizem a existência específica do bezerro citado em Oseias 8:5-6, apenas o cenário urbano ao redor dele.
- Há debate acadêmico sobre a datação exata das óstracas — a maioria as atribui ao reinado de Jeroboão II, mas alguns pesquisadores preferem uma data um pouco anterior, deixando alguma incerteza sobre a sobreposição precisa com o início do ministério de Oseias.
- Alguns comentaristas leem 'o bezerro de Samaria' em Oseias 8:5 como metonímia para o santuário de Betel, dentro do território do qual Samaria era capital, não como uma imagem fisicamente presente na própria cidade — questão que as óstracas, por não tratarem de religião, não ajudam a resolver.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- Os nomes de aldeias e clãs específicos que enviavam vinho e azeite ao palácio, vários coincidindo com subdivisões do território de Manassés listadas em Números 26:30-33 e Josué 17:2-3, mas nunca mencionados no livro de Oseias.
- Os anos exatos de reinado citados nas óstracas (9, 10, 15 e 17), que dão uma cronologia administrativa interna ao palácio de Samaria sem paralelo em nenhum texto bíblico.
- Os nomes próprios de remetentes e destinatários do palácio — funcionários e proprietários de terra da época — nenhum dos quais aparece em qualquer lista bíblica.
Em palavras simples
Oseias criticou o povo de Samaria por manter um bezerro de ouro como ídolo, dizendo que ele seria despedaçado. As Óstracas de Samaria são pedaços de cerâmica com anotações antigas, achadas no mesmo local, que registram apenas entregas de vinho e azeite ao palácio real — sem falar de religião ou ídolos. Elas mostram como era a Samaria real da época: uma capital organizada, com impostos e comércio, e não confirmam nem desmentem o bezerro, mas ajudam a imaginar a cidade que Oseias tinha diante dos olhos.
Aprofundamento
A força do cotejo entre e as Óstracas de Samaria está no contraste de gêneros: um oráculo profético carregado de acusação teológica ao lado de recibos fiscais sem qualquer intenção literária. Isso significa que as óstracas não podem "confirmar" o bezerro de Samaria como um achado arqueológico confirmaria uma estátua — elas simplesmente não falam de religião. O que oferecem é outra coisa, igualmente valiosa: prova de que a Samaria de Oseias era uma capital com aparato administrativo real, capaz de coletar e registrar remessas de vinho e azeite de aldeias e clãs do entorno, vários identificáveis com subdivisões do território de Manassés listadas em e . Esse pano de fundo de riqueza agrícola organizada conversa com outras críticas do próprio Oseias e de seu contemporâneo Amós à elite de Samaria, acusada de prosperidade construída sobre injustiça e infidelidade religiosa (compare ; 6:4-6).
Um detalhe examinado com cuidado pelos epigrafistas é a lista de nomes próprios que aparecem nas óstracas como remetentes e destinatários do palácio. A maioria é composta por nomes com o elemento teofórico javista (terminações como "-yau"), mas um pequeno número traz o elemento "Baal", como em Abibaal e Baala. O epigrafista Jeffrey Tigay, em seu estudo estatístico sobre nomes teofóricos hebraicos ("You Shall Have No Other Gods", 1986), observou que essa proporção majoritariamente javista, com uma minoria baalista, sugere que a devoção a Javé continuava predominante em Samaria mesmo no auge da crise que Oseias denuncia, o que complica qualquer leitura simplista de que a capital inteira havia trocado Javé por Baal. Ao mesmo tempo, a presença desses nomes baalistas mostra que a preocupação de Oseias com sincretismo religioso, associado repetidamente ao culto do bezerro (; 13:1-2), não era uma fantasia retórica: o elemento baalista de fato circulava em famílias da capital, entre gente com cargos e propriedades ligados ao próprio palácio.
Vale registrar também uma nuance interpretativa entre comentaristas de Oseias: alguns entendem "o bezerro de Samaria" como referência a uma imagem fisicamente presente na cidade-capital, enquanto outros leem "Samaria" como metonímia para todo o Reino do Norte, apontando para o santuário de Betel, mais amplamente atestado como sede do culto ao bezerro (1Reis 12:29; , que fala do "bezerro de Bete-Áven"). As óstracas, por serem estritamente administrativas e não mencionarem santuários, não resolvem essa questão — o que reforça que seu valor está em iluminar o contexto material da cidade, não em arbitrar debates teológicos específicos do texto profético.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:As Óstracas de Samaria comprovam que o bezerro de ouro citado por Oseias existiu fisicamente e já foi encontrado pela arqueologia.
Nenhuma das óstracas menciona ídolos, bezerros ou qualquer prática de culto — são recibos de remessas de vinho e azeite ao palácio. Até hoje nenhuma estátua de bezerro associada aos santuários de Betel, Dã ou Samaria foi identificada arqueologicamente.
Dizem que:As óstracas são uma espécie de diário ou registro religioso do palácio de Samaria.
Seu conteúdo é puramente fiscal e administrativo: ano de reinado, aldeia de origem, destinatário e mercadoria (vinho ou azeite). Não há orações, listas de sacrifícios ou qualquer conteúdo cúltico nos textos legíveis.
Dizem que:As óstracas provam que todo o povo de Samaria havia abandonado Javé por Baal.
A maioria dos nomes próprios registrados traz o elemento teofórico javista; apenas uma minoria traz o elemento 'Baal', o que indica coexistência religiosa e não uma substituição total de Javé pelo culto a Baal.
Como diferentes tradições leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestantismo evangélico
Tende a valorizar achados como as óstracas como corroboração do pano de fundo histórico da profecia bíblica, reforçando a confiança de que Oseias falou a uma Samaria real e datável, sem tratar o achado como prova direta do bezerro em si.
Catolicismo
Costuma integrar esse tipo de evidência arqueológica ao método histórico-crítico usado nos estudos bíblicos desde meados do século XX, lendo a riqueza administrativa revelada pelas óstracas como pano de fundo social da denúncia profética contra a idolatria e a injustiça.
Ortodoxia oriental
Enfatiza menos a corroboração arqueológica pontual e mais a continuidade da história da salvação: para essa tradição, o valor do achado está em mostrar a materialidade da infidelidade humana ao longo da história, tema que a liturgia e a Escritura já articulam sem depender de confirmação externa.
O que fazer com isso
Documentos administrativos como as Óstracas de Samaria ensinam a distinguir dois tipos de evidência histórica: a que fala diretamente de um evento e a que apenas situa o cenário em que ele ocorreu. Nenhuma óstraca confirma ou nega o bezerro de , porque não foi escrita para isso. O ganho está em ler o oráculo profético sabendo que a Samaria denunciada era uma cidade real, organizada e próspera, não um cenário simbólico inventado.
Fontes consultadas4 obras
- George Andrew Reisner, Clarence S. Fisher e David Gordon Lyon. Harvard Excavations at Samaria, 1908-1910, 1924.
- André Lemaire. Inscriptions Hébraïques, Tome I: Les Ostraca, 1977.
- Jeffrey H. Tigay. You Shall Have No Other Gods: Israelite Religion in the Light of Hebrew Inscriptions, 1986.
- Francis I. Andersen e David Noel Freedman. Hosea: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 1980.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
As Óstracas de Samaria mencionam o bezerro de ouro que Oseias condena?
Não. Nenhuma das óstracas legíveis fala de ídolos, cultos ou bezerros — todas registram remessas administrativas de vinho e azeite ao palácio real. A ligação com é de contexto, mesma cidade e época próxima, não de conteúdo direto.
Quando as óstracas foram escritas?
A maioria dos estudiosos as associa ao reinado de Jeroboão II (c. 788-747 a.C.), com base nos anos de reinado citados nos textos e na paleografia, embora alguns pesquisadores prefiram uma datação um pouco mais antiga. Esse período coincide com o início do ministério de Oseias, citado em .
O que as óstracas revelam sobre a religião em Samaria?
Indiretamente, mostram que a maioria dos nomes próprios registrados tinha o elemento teofórico javista, com uma minoria trazendo o elemento 'Baal'. Isso indica que a devoção a Javé convivia com influências baalistas, o tipo de mistura religiosa que Oseias denuncia em outros trechos do livro.
Onde as óstracas foram encontradas e onde estão hoje?
Foram achadas em 1910 num depósito perto do palácio real, no sítio de Sebastia, a antiga Samaria. O acervo foi dividido, conforme as normas de antiguidades vigentes à época da escavação, entre instituições da região e o Museu Semítico de Harvard, nos Estados Unidos.
As óstracas ajudam a datar o livro de Oseias?
Elas não datam o livro diretamente, mas ajudam a situar o cenário histórico do início do ministério do profeta, já que a maioria dos estudiosos as atribui ao reinado de Jeroboão II, o mesmo rei citado em como contemporâneo de Oseias.
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